Ravi Lobo conecta o seu novo audiovisual em um projeto de luta e resistência pelas nossas crianças, em um feat com a Cronista do Morro
Em seu novo trabalho Ravi Lobo (Rap Nova Era) apresenta a faixa “Manda Buscar” em um feat com a Cronista do Morro e produção de Raonir Braz. A faixa apresentada ao público em um audiovisual nos mostra porque a vivência é sempre e todas as vezes a base para o rap que se quer e é sempre e todas as vezes expressão do hip-hop. Segundo movimento da carreira solo do artista, “Manda Buscar” é um drill que dá sequência ao premiado “Shakespeare do Gueto”, primeiro ataque feito por Ravi Lobo neste novo momento de sua já longeva e fértil carreira musical.
Mais uma vez, o MC prova que conceituar um trabalho dentro do rap não é meramente uma produção artificial e ou apenas transcendental, é preciso carne, corpo que dê vida e afete o público em sua verdade. Há muitas vezes produções que se querem conceituais mas que apenas apelando às ideias termina por se fazer mera fantasmagoria marketeira sobre pautas em voga nas redes sociais. O Hip Hop/Rap obviamente comporta a fabulação, mas ou é fruto de um vivência real ou recai apenas como uma lição de moral ao fim de uma fábula. Possui assim valor, mas não comunica com a força de transformação e resistência necessária exigida pela cultura Hip-Hop.
Dividido em dois momentos, dia e noite, infância e vida adulta, presente e futuro, o audiovisual dirigido e roteirizado por David Campbell e Ícaro Luan, o clipe é mais registro do que ficção. Aqui sim, fica clara a distinção proposta entre fabulação e vivência, na medida em que percebe-se que todas as projeções de futuro propostas pelo roteiro coadunam perfeitamente com o dia a dia e com a história de Ravi Lobo e da Cronista do Morro. Artistas provenientes do ancestral e produtivo bairro da Liberdade em Salvador – BA. Foram crianças pelas ruas filmadas, cresceram correndo entre os becos da Linha Oito e na rua da Ponte no Curuzu e em toda a Liberdade, onde sobreviveram às políticas de extermínio da juventude negra aplicadas diuturnamente pelo estado baiano.
Essas vivências tornaram esses dois jovens nos artistas que são hoje, graças a suas aproximações com a cultura Hip Hop. O drill aqui é menos uma estética adotada e muito mais a base musical perfeita para essa pressa e essa intensidade expressa no título da faixa “Manda Buscar”. Se não tem manda buscar, e a busca aqui é por um futuro digno para nossas crianças. Conceito visual – aqui sem o verniz marketeiro – que já estava plenamente expressado em “Shakespeare do Gueto”. Mas também foi registrado ao longo da carreira de Ravi Lobo e do Rap Nova Era (junto a DJ Kbça e Moreno) que sempre fez atividades no dia das crianças em sua quebrada. Que sempre providenciou ajuda aos moradores de sua área como no primeiro ano da pandemia, quando mais de 3 toneladas de alimentos foram arrecadados através de um live, entre diversos outros itens.
Em tempos onde posar de bandido e não possuir nenhum conhecimento sobre política e sobre cultura Hip-Hop se torna uma prática comum, Ravi abre o clipe ao lado das crianças, naquele bom e velho banho de mangueira. Piscina inflável, jujuba e algodão doce, arrepia e emociona em contraste com o beat e a letra que falam da caminhada pesada e dá esperanças para essas mesmas crianças. Ali, através de um exercício de projeção e ou fabulação sem romancear, e ancorada na realidade acima exposta, podemos vislumbrar o desejo de que aqueles pequenos se tornem versões melhoradas de Ravi Lobo e Cronista do Morro.
O jogo proposto pelo audiovisual é exatamente este, de nos fazer perceber pelo que devemos lutar, quais os principais objetivos que a cultura Hip-Hop deve almejar em um momento onde a indústria cultural lhe quer cada vez mais agonizante esvaziada. Buscando o lucro fácil e a mera mercantilização espetaculosa de uma arte feita sobre as dores, corpos e através da potência e das melhores esperanças de uma juventude negra e periférica.
A noite “atual” cai e presentifica os MC’s Ravi Lobo e Cronista do Morro junto a outros atores que estão pelas ruas, nas trincheiras de Salcity lutando para que o dia do começo do audiovisual se torne uma realidade comum. Em seu momento solo Ravi reafirma a UGANGUE e o seu grupo Rap Nova Era, Galf AC, DaGanja e Vandal podem ser vistos no clipe, assim como a DJ Bruxa Braba, junto a outros atores. Trata-se disto, lealdade, justiça e verdade, junto a alegria buscada e a toda luta desde os barracos de pau até suas novas superproduções.
Quem quiser que faça o exercício importante de analisar as linhas e as sonoridades, neste caso aqui em particular, me interessa o sentido e este, assim como a forma, nos impulsiona para frente. Vida longa a Ravi Lobo, a Cronista do Morro, aos guerreiros e guerreiras que seguem mantendo e atuando com os nossos melhores sonhos acordados pelas ruas, pelos becos, nos corres loucos, nos palcos, nos streamings e plataformas digitais.
Mas que saibamos diferenciar, o que é de verdade e o que é “conceito”, “estética” e todos os papéis de presente onde se embrulha cavalos de troia para a cultura Hip-Hop. O conceito dentro da cultura Hip-Hop é fruto das ruas e das vivências aí conquistadas, não é e nunca será fruto de um aproveitamente de pautas e ou de visuais dos quais só se possui o conhecimento de modo superficial pois nunca vivido e ou contraditório com a caminhada. Que saibamos diferenciar e ofertar o valor merecido a cada um, o valor para o mercado e o valor para a nossa cultura Hip-Hop.
-Ravi Lobo “Manda Buscar” um futuro melhor para as crianças junto à Cronista do Morro?
Por Danilo Cruz
Danilo
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