Nois Por Nois em O Homem Invisível (2018) torna visível junto com o diretor Matheus Reis, um cotidiano conhecido, com qualidade de cinema!!!
O grupo Nois Por Nois, é um dos promissores nomes do rap BA, e acabam de dar mais um passo firme rumo ao devido reconhecimento nacional. Sim, pois nos guetos de Salvador, esses manos da CBX já transitam como representantes do que de melhor a nossa música periférica tem. Os caras já possuem a mixtape Qual o Seu Circo? (2016) lançada e por nós resenhada, caminham agora para o lançamento de um EP que terá por título T.E.M.A (Terror Em Máxima Amplitude).
Formado por Saqk e Johmp, a dupla – se você se ligou nos títulos acima mencionados – se dedica de corpo e alma ao gangsta rap combativo, mas sobretudo com uma forte singularidade poética. Mas do que meramente gritar contra as múltiplas injustiças que o nosso país tenta naturalizar a mais de 500 anos, eles produzem poesia de alta voltagem.
Sendo assim, precisamos recuar um pouco no tempo e lembrar outros episódios da caminhada desses manos. A primeira audição de “Sem Pódio”, pode lhes mostrar, se não conhecem o trabalho, como os manos conseguem transformar o ódio e a tristeza em imagens poéticas de muita qualidade. Ou vale a pena sacar a já clássica nos bate cabeças do underground de Salvador, A Peça (part. Diego 157 e Junk), que transubstancia balas em palavras, armas em discursos e consequentemente crime em arte.
O Homem Invisível é o primeiro single que inaugura a nova caminhada do grupo em 2018 rumo ao lançamento do seu novo trampo. O EP T.E.M.A (Terror Em Máxima Amplitude) já nos apresenta-se como um trabalho que virá bastante conceitual. Está sendo gravado no estúdio pelo grande Diego 157, lá mesmo na Massarambruxa, que é a quebra dos manos e local de várias crias do rap BA.
E neste single, o manos lançam seu primeiro trabalho solo audio visual, depois de participações em outros projetos como os episódios 1º e 2º do Trem Bala, do Xarope Mc. Essa é certamente uma peça audiovisual que produz visões sobre essa quebrada (Massaranduba), daquelas que é capaz de partindo de seu local particular, alcançar a universalidade que apenas a grande arte consegue. Retire-se as palavras desse excelente videoclipe, e qualquer quebrada do mundo conseguirá se identificar. O que não quer dizer que a música é acessória, mas antes que conseguimos aqui perceber a plena relação, a complementaridade essencial entre as imagens, o ritmo e a poesia.
O diretor responsável por esse trabalho é o Matheus Reis, que tinha feito outra perola, veja aqui, na mesma localidade e com imagens muito fortes. E agora o mano que também assina o roteiro, junto a Saqk, produz uma narrativa para acompanhar o excelente storytelling que a música O Homem Invisível nos transmite. Com um excelente trabalho de câmera, uma edição certeira adequando muito bem o ritmo musical e o visual, Matheus Reis produziu um lindo curta-metragem. Comunicação poético visual que nos deixa muito escuro os mecanismo que capturam nossos jovens para o caminho do crime.
Recentemente Mano Brown em entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil, chamava nossa atenção para o discurso moralista que imputa à sede de ostentação financeira, o fato de tantos jovens assumirem o corre nas biqueiras pelas periferias do nosso país. Tanto lá nas palavras de um dos maiores mestres do rap nacional como aqui na poesia de Saqk, a coisa é um tanto mais complexa, como de resto sempre é quando fugimos do discurso hegemônico.
Do lindo Kiriku, passando por Serrão até chegar em Jhomp a narrativa visual junto com a música que contém uma excelente produção do Calibre Mc, nos conduz a percepção do funcionamento da máquina de fazer vilão. Passamos da criança sonhadora, prenhe de conquistas e potencialidades, aos poucos sendo apagadas por escolas excludentes ou pela falta delas, pela ausência de perspectivas que seja capaz de fazer-lhe construir um sentido pra sua vida. Para encontramos o jovem sem destino solto pelas ruas, matando o tempo querendo algo onde se encontrar e formar sua personalidade dentro de um contexto qualquer. Ao mesmo tempo em que precisa se afirmar na construção de sua personalidade, que quer se inserir em algum meio onde o reconhecimento da sua existência se dê.
Por fim, encontramos já um homem jovem endurecido, educado didaticamente pela matemática das facções, habitando com naturalidade um ecossistema de violência constante, onde outros dos seus irmãos se tornam inimigos a serem aniquilados. Uma luta constante contra os outros concorrentes, mas também contra a morte certa nas mãos do braço armado do estado ou contra o encarceramento. Claro que aqui simplificamos de algum modo a complexidade que leva os nossos jovens a esse caminho rumo a morte, mas pensamos ser um resumo “eficiente”.
E é esse exercício a proposta primordial presente em O Homem Invisível, nos fazer pensar nos rumos propostos às nossas crianças, jovens e adultos. Fazê-los serem capazes de serem vistos sem estarem nas telas dos programas policiais ou estendidos com seus corpos crivados de balas pelas ruas de nossas quebradas.
Para nós, esse lançamento é daqueles que ao longo dos anos vai permanecer, como algo por demais importante, elemento para pesquisas futuras sobre como funcionava nosso degredo nos princípio do séc. XXI pós abolição da escravatura. Nois por Nois, dessa vez com um MC (Saqk) e com um ator (Jhomp), mostra toda a versatilidade que é podada, toda a capacidade intelectual que é ceifada em nossas favelas, que tem o nome de uma planta do nosso sertão baiano, mas que na real é um jardim propositalmente mal cuidado e mesmo assim dando as melhores flores, os melhores frutos, apesar de tudo. Vida longa ao Nois por Nois e ao diretor Matheus Reis.
Assistam:
Danilo
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