Uma das principais características históricas do Jazz é o legado de seu vivido cenário de clubes. Estabelecimentos seminais, como o Village Vanguard, Ronnie Scott’s e o Birdland, por exemplo se transforam em verdadeiros templos sonoros para a difusão dos novos ideais de um dos capítulos mais ricos da história da música.
E apesar da longevidade do Jazz, o cenário de clubes ainda permanece como um importante circuito para a logística, revelação e respectiva afirmação de novos grupos e artistas. É nessa seara que a coisa acontece. Os clubes são os trampolins para os festivais.
É claro que tudo isso acontece já sem a mesma popularidade e representatividade de outrora, mas é um movimento que ainda pulsa e fomenta o groove em diferentes países, estimulando bandas do circuito, como o Marbin e o Rock Candy Funk Party, por exemplo, dois grupos expoentes do nicho de clubes nos Estados Unidos.
E se tratando da cena de clubes, um dos meus grupos favoritos é o Kung Fu, projeto idealizado nos confins de New Haven, Connecticut. Formado em meados de 2011, a banda composta por Tim Palmieri (guitarra), Robert Somerville (sax), Adrian Tramontano (bateria), Dave Livolsi (baixo) e Todd Stoops (teclados), ganhou fama no underground dos clubes antes de virar figurinha carimbada nos festivais de Jazz desde 2012.
Formado por integrantes do grupo The Breakfast e também do Deep Banana Blackout – duas bandas de Funk/Fusion que juntas formavam o coletivo RAQ – o Kung Fu nasceu em meio a uma certa incerteza de que o projeto conseguiria se desenvolver, justamente devido à conflituosa agenda paralela de seus integrantes.
Porém, entretanto, contudo, todavia (já dizia Girafales) como o groove não é brinquedo não, vale ressaltar que o negócio deixou de ser projeto paralelo e virou um dos grupos mais azeitados da cena de clubes.
De 2011 até hoje foram 3 discos de estúdio lançados. Debaixo do braço, o coletivo ostenta uma sonoridade que envolve o Jazz, sempre com objetivo de fazer o ouvinte bater o pezinho. O Jazz-Funk é cavalar e dialoga com diversas fronteiras, com uma postura que começou instrumental e hoje conta também com voz.
Kung Fu
Com o disco homônimo – lançado em 2011 – a banda tangibilizou seu riquíssimo e praticamente virtuose repertório. Com um approach 100% instrumental, esse disco foi o responsável por colocar a banda no mapa. As guitarras de Tim Palmieri, os tempos quebrados e o som do teclado são um deleite. A sessão rítmica faz a base – com precisão de metrônomo – sem ego de solista, e é nesta base que a tríade guitarra, saxofone e teclado arma sua teia.
Um detalhe que é bastante destacável do som é o que os americanos chamam de “interplay”. Traduzindo para o nobre português, seria algo como a interação entre os músicos. No Kung-Fu, essa questão do elemento da unidade, onde o quinteto toca junto para virar apenas um instrumento, gosto de observar como todos os elementos estão sempre atacando o som, o que acaba trazendo essa sonoridade mais cheia e pungente, com inteligentes convenções e riffs dignos de botar em loop. “Junoon”, um dos últimos temas do primeiro disco de estúdio, deixa isso evidente.
Kung Fu – Tsar Bomba
Na hora de gravar o segundo disco o processo foi diferente. Lançado em 2014, “Tsar Bomba” foi fruto de 18 meses meses de trabalho. Trabalhando lentamente, matutando cada detalhe dos complexos arranjos, o projeto que ajudou o grupo a elevar o patamar musical surgiu novamente com um repertório recheado de temas originais.
Apesar de causar mudanças na formação – em função do novo direcionamento com vocais – o grupo continuou mostrando seu vasto repertório de grooves modernos, com o instrumental invariavelmente roubando a cena.
Embalada por hits irresistíveis como “Hollywood Kisses”, Tim Palmieri e cia mostraram como essa segregação entre música instrumental e música cantada pode fazer os ouvintes perderem coisas realmente especiais, pois no fim do dia as vozes são secundárias frente aos embates instrumentais viscerais do grupo.
Kung Fu – Joyride
E é exatamente nesse lugar que mora o perigo. Em 2016, depois de quase 2 anos sem gravar nenhum projeto de estúdio, a banda retorna para produzir – dessa vez com Beau Sasser nos teclados – o que é talvez o melhor disco do combo até o momento.
Para finalizar a primeira trinca de lançamentos de sua história, o quinteto surge com “Joyride”, um minucioso trabalho que consegue juntar o brio instrumental dos 2 primeiros discos e promover um som ainda mais intenso, dinâmico e dançante, com grandes arranjos e um trabalho vocal que eleva o status do groove.
Com “Joyride”, o Kung Fu prova que o rolê não é mais um show: virou festa e a experiência adquirida na estrada, girando – dessa vez com os shows com repertório cantado – deixou a proposta ainda mais redonda, trabalhando o quesito instrumental e vocal como forças de mesma potência.
O resultado impressiona e mostra novos caminhos para a música elétrica swingada, tentando fugir do revisionismo que ainda é bastante presente na cena de Jazz-Funk, com grupos que ainda emulam muitos dos experimentos que ocorreram no estilo, principalmente na década de 70.
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