A MC carioca Helen Nzinga abre o ano com um EP necessário, uma visão muito crítica de tudo que estamos atravessando no país!
O ano da pandemia viu a MC carioca Helen Nzinga lançar uma série de singles, combativos, amorosos, auto-reflexivos, que carregam um pouco do universo infinito que essa mulher guarda em si mesma. O ano sw 2020 começou com “Privilégio de Macho” junto com a Taz Mureb, seguiu com “Papo de Realidade” com o Magoo Campos, Nikkie e Leonívio, e terminou com os singles solos “Mar” e “Baby”. Agora, em 2021 essa continuação infernal e alucinatória, ela solta o seu segundo EP – dois anos após o excelente Nzinga Mbandi (2019) – uma tríade de faixas chamada C.R.U. – Coragem É Realmente Urgente (2021)
Nesse novo trabalho Helen Nzinga reflete sobre todo o processo pelo qual passamos e sobre o qual ainda estamos aprisionados. O pior momento da história sanitária em nível mundial e que estamos tendo a vergonha histórica de sermos desgovernados por um governo fascista. Se nos singles do ano passado a artista preferiu abordar assuntos mais gerais, em seu novo EP Helen Nzinga bate de frente, após deglutir e elaborar tudo que estamos vivendo.
Ouvir essa trinca de raps é um exercício necessário demais para quem aprecia o bom e velho hip-hop. Helen Nzinga é uma artista necessária, não desperdiça linhas, é econômica nos lançamentos, mas nunca decepciona. Com uma lírica combativa, uma visão muito bem ancorada e portadora de um flow e de um canto certeiros sempre.
A consciência racial – hoje tão em falta ou distorcida em rede nacional – encontra em Helen Nzinga a poeticidade sob perspectivas políticas e uma postura ética que aborda corretamente os problemas que vivemos. Em “Guerra”, faixa que abre o trabalho ela produz uma excelente análise do momento em que estamos vivendo. Está aqui uma faixa que com toda certeza – para nossa infelicidade – não alcançará milhões de views, mas que com a mesma certeza é fundamental para todos nós. Ampla visão de sua posição enquanto artista e mulher preta LGBTQIA+ periférica, e consequentemente sua subjetividade se torna coletiva nesse processo.
Se na faixa de abertura Helen Nzinga demonstra escura influência nas músicas mais longas do rap dos anos 90, com um flow cadenciado e linhas potentes numa prospecção muito bem feita da situação que vivemos, em “Circo do Bozo (p rod. Magoo Campor)” ela amplia a narrativa anterior. Abrindo a faixa com speed flow e seguindo muito bem ancorada no beat, a faixa escracha os fascistas que dominam o circo dos horrores em que fomos confinados. Com os riscos da DJ Tamy Reis, A MC nos apresenta criticamente o retrato decadente do que vivemos, e sobretudo aceitamos. A ausência de indignação para além das redes sociais, é realmente assustadora.
Fechando o trabalho, “Escalada” que conta com a produça da Reurbana que também assina a faixa inicial, é talvez a melhor música já lançada pela artista e ilustra muito bem o que falamos acima sobre a subjetividade alcançar a potência do coletivo. Assumindo em sua poética os mortos, os presos, os oprimidos, Helen Nzinga dá aulas do que precisamos ouvir, de quais são nossas lutas reais, uma MC forte e impactante em apenas três músicas.
Esperamos agora, o momento em que Helen Nzinga vai conseguir lançar um álbum pois sabemos das dificuldades, enquanto isso, deixamos seus EPS no repeat assim como seus singles! Escute C.R.U. e crie a consciência e a coragem que necessitamos…
-Helen Nzinga lança o EP C.R.U. (2021) um trabalho necessário
Por Danilo Cruz
Danilo
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