Gorinez lança o clipe de ‘Pelos Aliados’, uma ode à busca coletiva do bem estar social, através do qual se alcança os desejos pessoais.
O movimento punk, assim como o movimento hip hop possuem caraterísticas em comum. Ambos se originaram da carência material e de oportunidades, obrigando jovens sem perspectivas a ‘se virarem’, criando por si mesmos as condições para terem onde expressar seus anseios, suas críticas, onde pudessem se divertir e se organizar em torno de desejos em comum.
Gorinez ergue seus versos sob os beats eletrônicos, mas tem sua formação política, artística e musical no universo do punk/ hardcore baiano. Ao lado dos seus companheiros da Motim 13, formada na cidade de Pojuca em 2010, deu vazão à sua necessidade de se expressar e somar na luta contra as forças que oprimem trabalhadores, negros, homossexuais, mulheres, pobres e demais explorados pelas elites do atraso.
A formação adquirida no meio do ‘submundo’ do hardcore lhe deu todo substrato necessário para construir uma reflexão política acerca da condição dos marginalizados dentro da sociedade, levando à conscientização de classe e articulação para efetivação de uma práxis. Toda essa atividade nesse canteiro de obras de crítica social, terminou por dar vazão a novos anseios, acredito eu, levando-o a seguir por novas sendas. Então deu início a uma nova vivência artística e política nas fronteiras do rap.
De posse da matéria prima necessária à elaboração de suas músicas, Gorinez precisava adquirir o domínio sobre as técnicas musicais próprias do rap, que podemos constatar, ao longo dos clipes e singles já lançados pelo rapper, refinar-se a cada lançamento, mostrando uma intensa dedicação ao rap e profundo respeito a este gênero musical. O empenho apresentado no hardcore é o mesmo presente agora no rap.
Isso é um fato que podemos contatar em Pelos Aliados, cujo videoclipe lançamos com exclusividade aqui pelo Oganpazan. A letra chama atenção para a necessidade do engajamento político de quem sofre a opressão na sociedade extremamente desigual e individualista na qual vivemos. Precisamos nos engajar por ser essa a única forma de quebrar o individualismo que nos separa, para nos unirmos e formarmos uma coletividade que lute pelo bem comum. Essa articulação conduz a ganhos coletivos, destruindo a ideologia elitista do “cada um por si”, muito bem representada no mantra da meritocracia que as elites entoam sob as camadas populares a fim de manipula-las.
Selecionei alguns trechos que confirmam essa interpretação:
Vitória dos meus é minha vitória
Estaremos juntos nos dias de glória
[…]
Nos ajudamos e crescemos juntos
O trabalho aqui é em conjunto
Egoístas e fascistas não passarão
O bagulho aqui é respeito e união
Em Janeiro deste ano Gorinez lançou o single em seu canal no youtube, confira aí:
Expressar tais ideias via rap se faz necessário na medida em que o rap, já faz algum tempo, começa a explorar outras temáticas, uma vez que tenha se consolidado em meio à industria musical em particular e à industria cultural como um todo. Nesse sentido é legítimo e mesmo importante surgirem novos estilos e novos rappers que explorem temáticas que antes não podiam ser abordadas, pois a luta prioritária era pela des-marginalização do hip hop.
Contudo, ainda se faz necessário abordar as pautas de outrora, ainda é preciso existirem rappers que façam de sua música um instrumento de conscientização, denúncia social e práxis política. Gorinez está entre estes últimos, o que lhe vale o destaque dentro da cena hip hop baiana e nordestina.
Tendo pleno domínio das práticas exigidas daqueles que adotam o lema punk, cuja aplicação pode ser estendida ao hip hop, do “faça você mesmo”, Gorinez consegue realizar seus projetos dentro das condições materiais que possui em mãos. Consegue tirar resultados de qualidade em termos de produção, gravação e montagem, conforme vemos em seus videoclipes e singles. Para conhecer melhor o trampo do rapper acessem o canal que possui no youtube clicando bem aqui.
Ficha Técnica
Gorinez – Pelos Aliados (beat Marve Bighead)
Gravação, mix e master – Underhouse Records
Roteiro e Filmagem – Adriano Pansera
Edição – Vitor Ibrahim
Letra – Gorinez
Beat – Marve Bighead
Apoio – Froyd Skateboard
Apoio – Chá de Mé
Carlim
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