Well abrilhanta a cena drill, grime and UK garage do Brasil com uma estética pioneira em seu novo EP, junto a um time pesado!
Desde os tempos áureos do Duelo de MCs nos quais grandes nomes como Douglas Din, FBC e Vinição batalhavam, eu já considerava o Well um dos MCs mais arrojados daquele cenário. Quando partiu para a carreira solo como rapper, lançando grandes álbuns como o conceitual Gênese (2016) e mais recentemente trabalhos igualmente diferenciados ao lado do produtor belo-horizontino de carreira internacional; Vhoor, essa minha percepção só se confirmou.
Dessa vez, não foi diferente com Sparring, EP que mescla as estéticas do hip-hop e eletrônico londrino de uma forma bastante inusitada incorporando elementos do funk brasileiro – até então, carioca – e outras vertentes nacionais aqui e acolá. Todas as faixas receberam o nome em consoante, numa estética bem digital, comum dos tempos atuais nos quais abreviamos todas as palavras possíveis pelas redes sociais. A capa do trabalho é uma arte da Camila Alda. Perguntado sobre essa escolha em entrevista para nós do Oganpazan, Well explica que:
Escolhi utilizar a expressão de siglas porque é uma linguagem muito utilizada, principalmente na internet. Acredito que foi a melhor forma de síntese que eu poderia encontrar devido à associação dessas siglas às expressões que sintetizam o que as músicas transmitem. É sobre concentrar toda ideia da música no mínimo de caracteres possíveis. É um preview do que vem aí. Por exemplo, a primeira, “Não tem jeito”. Se eu escrevesse NÃO TEM JEITO, ficaria muito grande, muito literal. Agora, “ntj”, que na linguagem da internet já é convenção, diz a mesma coisa, com uma estética mais apurada.
Outro ponto que dialoga com a rapidez do mundo digital é o número e duração das faixas. Com “apenas” 4 músicas curtas, Sparring é um verdadeiro combo de golpes de quem está na luta pela merecida ascensão no cenário nacional. E falando na faixa “ntj” que ele cita nessa resposta, ela já começa muito bem com a voz, flow e lírica de Well já abrindo a track junta aos elementos iniciais do beat como o synth e as levadas de chimbal 808 típicas dos sons londrinos que ficou a cargo do produtor Enigma. Alguns dos meus versos preferidos do Well nessa faixa de entrada são as críticas ao consumismo exacerbado e a discussões banais existentes numa certa ala mainstream do rap nacional:
Yves? Lauren? Tanto faz pra mim,
Airmax? Boost? Tanto faz pra mim,
Se é Grime? Drill? Tanto faz, manin,
O papo reto dado até se for no forró!
E claro, o “pararapápá” que fecha o vocal de “ntj” também veio muito bem a calhar, trazendo descontração e somando ainda mais às camadas rítmicas do beat. E se o assunto é ritmo, a segunda faixa é logo “fml” produzida por George Lucas Type Beat, traz um groove insano de UK Garage, talvez de forma pioneira no Brasil. O excelente refrão do MC BAKKARI, diretamente do Ceará, somou bastante na participação dessa música. O mesmo se pode dizer do flow malandro de Mirral One com uma forte pitada de funk carioca; terra de origem do mesmo. Outro ponto que merece destaque sobre a segunda faixa – que foi a primeira a ser lançada como single antes do EP – é o videoclipe feito na plataforma do jogo GTA. Isso, mais uma vez, prova o que eu falava no início do texto sobre o fato de Well sempre se pautar por uma estética mais arrojada e diferenciada do que os outros MCs. Perguntado sobre essa questão em nossa entrevista, Well respondeu:
Acredito que exista pessoas que fazem tendência e pessoas que apenas se aproveitam delas. A minha pira é sempre propor algo novo para não me encaixar no convencional. É sempre ser inovador, propor coisas novas, mostrar que existem outros caminhos para se fazer a mesma coisa. Esse espírito desbravador vem muito de expressão, identidade. Eu quero ser visto como indivíduo dentro desse coletivo, dentro do rap, do hip hop brasileiro. É sobre ter minha distinção, que é sonora, estética. Me atentar sobre como vai soar tudo, como as coisas vão se encaixar. Eu acredito que essa é uma decisão muito perigosa. É um legado estilo Camões e Van Gogh. Propor algo novo nunca vai ser tão bem aceito quanto seguir o padrão analógico. É bem digital ser inovador, porque ou você é 1 ou você é 0. Eu acredito muito nisso. Não dá pra você ser morno. Eu tenho raiva de quem é morno, de artista que é acomodado. Isso me irrita. E muito dessa irritação me faz querer inovar sempre. Isso vem lá de trás, desde o começo. De ver, principalmente, artistas que têm o poder de propor coisas novas não estarem pesquisando, mas sim se apoiando em receitas. Eu entendo, mas não é minha vibe. Cada um segue o que acha que é certo. Minha visão é sempre propor algo novo para que no futuro alguém olhe para trás e diga “É.. era sobre isso aqui”.
E falando em inovação e originalidade, a faixa que mais me impactou foi o recital de Gabi Gomes em “tlg” que me fez literalmente chorar de emoção – mais de uma vez – ao ouvir a mensagem muito bem performada por ela junto ao piano, sub bass e synths que fazem a cama dessa track produzida por gabrieldvarte. Da primeira vez que ouvi, em uma première organizada por Well e sua equipe no Discord, eu achei que fosse um sample de algum filme futurista a la Quinto Elemento (1997). Mas não, o texto original que fala sobre medo e fé em si deságua na faixa final “pprt” que é outro cruzado de esquerda do EP Sparring. O beat produzido por George Lucas Type Beat remete à faixa inicial que começa com um beat mais vazio e a voz de Well logo na cara mandando bronca. Com críticas ácidas a cena do rap nacional e até local de BH, Well fecha seu combo de golpes que demarca esse excelente Sparring. Bom, é isso se você ainda não ouviu esse petardo ou já ouviu e não deu a devida atenção, fique ligado! Vou ficando, por aqui. Câmbio, desligo. Até a próxima Oganautas!
-Drill, Grime ou UKG? Well acerta vários golpes em seu novo EP Sparring
Por Gustavo Marques
Danilo
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