Dizza Baby (2021) é o novo disco do MC 16 Beats, onde o artista mescla novas sonoridades entre a luta e o amor preto,

Há de saída uma correlação imagética e poética muito interessante de ser percebida pensando na estréia de 16 Beats com a sua mixtape É Pra Lá Que Vai (2016) e o seu novo disco. Fotografado armado nos dois casos, o poeta era então capturado como muitos de nossos jovens, passados 5 anos a capa de Dizza Baby (2021) o traz espelhando-se em Malcolm X, também armado. Essa correlação nos abre um caminho de interpretação e de percepção do desenvolvimento poético e musical do artista ao longo desses últimos anos.
Entre sua primeira mixtape e seu primeiro disco, temos ainda o EP C.O.L.Ô.N.I.A. (2017), singles e participações e um disco com o grupo ODU (junto com Indemar Nascimento e MC Shook). Tendo inicialmente se desenvolvido como mc de Batalha e junto ao grupo Malaô MC’s, 16 Beats também se especializou em recitar suas poesias nos ônibus de Salvador, mostrando que as ruas são seu palco essencial. A toda essa caminhada se soma um busca pelas raízes do pensamento preto através do seu contato e participação de ações junto a organização pan africanista Reaja ou será morto, Reaja ou será morta.
Através dessa caminhada consistente e de fácil confirmação, o MC filho das ruas do bairro de Pernambués, segue resistindo e existindo de modo cada vez mais rico e importante para a coletividade do hip-hop baiano. Ao contrário de muitos dos nossos jovens negros vítimas da política genocida do estado brasileiro, 16 Beats encontrou na cultura hip-hop um espaço para se entender e se desenvolver política e esteticamente como uma cidadão/artista preto, Consciente de si mesmo, da sociedade que o circunda, de qual coletividade participare certamente daquilo que quer produzir e transmitir enquanto rapper, MC.
Com Dizza Bay é fácil perceber sua evolução musical, não apenas por ter enxertado em seu novo trabalho ritmos diferentes do que vinha produzindo, mas pelo resultado alcançado. Ao longo das 14 faixas que compõem o trabalho, 15 Beats passeia por sonoridades de Trap, funk carioca e ragga narrando a história de um personagem “Dizza” que é ele mesmo e que são milhares de jovens homens negros em alguma de suas camadas. Contando com produções de Sico, KZADAVEA, Coelho, Mansha, Dj IagoMz, Dj Gug, o disco é a “moda antiga” em um momento onde EP’s passaram a ser chamados de discos. Os seus quase 45 minutos nos conta uma história, nos revela o personagem Dizza e o seu se transformar no cientista do caos, nome de uma das faixas mais pesadas..

Essa ciência do caos proposta por Dizza Baby não contém ilusões, nem falsas esperanças que busquem alívio rápido como o são as drogas e alguns fármacos que tratam apenas os sintomas. Há uma série de diagnósticos precisos fruto de suas experiências pelo imenso laboratório social e humano que é Salcity, onde a população negra e pobre segue sendo cobaia. Escurecendo a visão, o público que tiver a sorte e a disposição de enfrentar as verdades trazidas pelo Dizza Baby, vai encontrar o papo sumariado. Uma lírica que expressa só ódio contra a branquitude, ao mesmo tempo que exala generosidade, lealdade e amor pelo seu próprio povo.
O disco traz as participações de Elton Obcecado na pesada faixa “P.P.P”., uma produça sombria do grande DJ Gug, onde os MC’s discorrem sobre as dificuldades dos piva preto e pobre, no melhor estilo gangsta. A cantora Jusant participa da faixa “Dizer Não “ que aborda os desacertos presentes dos relacionamentos amorosos, um tema tratado de modo complexo ao longo de algumas das faixas que formam a meiúca do disco. Sobre relacionamentos amorosos, Dizza Baby entende enquanto cientista do caos os diversos problemas que casais pretos enfrentam hoje. A demonização de homens pretos, é pautada assim como o tema da responsabilidade afetiva, auto cuidado e outras perspectivas importantes.
Quem acompanha a caminhada desse artista que vem se consolidando a cada ano com trampos e participação ativa na cultura hip-hop baiana, certamente verá que estão diante do melhor trabalho dele até o momento. Um disco maduro na sonoridade e na lírica, sem perder nem um pingo da força de contestação e denúncia que sempre foi sua marca, abordando temas com profundidade. Dizza Baby (2021) teve as captações e processos de gravações feitos nos estúdios NaCalada Rec por Christian Dactes e Sauna Rec por Mansha.
Escutem Dizza Baby
-Dizza Baby 2021, 16 Beats com luta e amor em novo disco!
Por Danilo Cruz
Danilo
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