White Dead People, música para tempos sombrios.
Anomalia é mais um projeto encabeçado pelos irmãos Gagliano. Nem mesmo a quarentena conseguiu impedir Rodrigo e Rogério de produzirem novas músicas, estabelecer novas parcerias. Respeitando o isolamento social, mas utilizando de forma tenaz a internet, estão compondo em conjunto com outros músicos, criando novos projetos a fim de manter a pleno vapor o fluxo criativo.
White Dead People é o primeiro resultado dessas novas parcerias quarentenais a ficar pronto e ganhar a luz via internet. O guitarrista Gean Santos se juntou à dupla para criar a sonoridade perturbadora dessa música. Lançada em formato de vídeo, utilizando a animação Bimbo´s Initiation (1931) como pano de fundo.
Som e imagem casaram bem, criando não somente uma atmosfera sombria, mas deixando-a densa, imprimindo certa dose de terror. Vejam, não dá pra usar a noção de terror dominante na estética audiovisual de nossos tempos, cujo objetivo é aterrorizar por meio de cenas de ultra violência. Trata-se aqui de um terror contido nos detalhes. Circunscrito a uma outra época e a um outro gênero de terror.
Rogério é um músico obcecado por efeitos sonoros, elaboração de timbres. Pesquisador inquieto e curioso, mantem-se em constante busca por novas matizes sonoras. Frequentemente na busca de aperfeiçoar suas técnicas de elaboração de novos timbres, entrega aos projetos do qual faz parte, elementos sonoros fundamentais para a definição da identidade sonora de cada música.
Em White Dead People podemos ver isso na forma como o órgão é utilizado por Rogério. Este instrumento por si só, possui um timbre apropriado para ocasiões que exigem efeito dramático ou sombrio. Tudo nesta música gira a partir do órgão, que se apresenta como elemento condutor e em torno do qual se constrói toda sonoridade da música.
Pode parecer que não, uma vez que a melodia executada pela guitarra é quem fica em evidência. Reside aí o trunfo da composição! Pra entender o que quero dizer é necessário eliminar o som do órgão da música e buscar ouvir apenas a guitarra. Sozinha, sua melodia não tem força suficiente pra causar o impacto necessário no ouvinte.
Agora, elimine o som da guitarra e da bateria e se concentre apenas no órgão. Eis aí o elemento principal de verdade. Sozinhos, os elementos sonoros gerados pelo órgão conseguem imprimir a sonoridade tensa e aterrorizante. Permanece ao fundo, gerando as tensões na música, criando as situações nas quais a sonoridade ganha em matizes sonoras.
Não significa, claro, que teríamos uma música se retirássemos os demais instrumentos. Destaco aqui uma maneira de pensar a música, de apreciá-la a partir de um ponto de vista específico. Isso é possível porque esta composição permite isso. Não estamos diante de uma música que se apresenta ao ouvinte de uma maneira apenas, não importando de qual angulo a apreciemos.
Tudo indica que estes rapazes inquietos revelarão novas surpresas no decorrer dessa quarentena, que está nos deixando pirados, mas também está nos oferecendo tempo para produzir nos momentos em que conseguimos manter a sanidade mental em dia. Vamos esperar pelos novos lançamentos.
Carlim
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