Composto por 9 faixas, o disco da Bianca Hoffmann chega nas ruas com o bom e velho boombap como sonoridade e muitos versos necessários!
Com quase dois meses de lançado “Cannidae”, novo álbum da Bianca Hoffmann chegou para se juntar a diversos outros exemplares do bom e sempre atual boombap. Ao mesmo tempo. A MC traz um exemplar a mais de uma tradição que remonta a nomes importantes de pensadoras artistas como Sharylaine, Dina Di e mais recentemente a outros nomes que pensam outres feminines como Sara Donato, Monna Brutal, Sé da Rua e muitos outros nomes.
O disco composto por 9 faixas vem recheado de nomes que aplicam beats candenciados “como as batidas do coração”, para auxiliar sonoramente as linhas da MC Bianca Hoffmann. Comungando também de um resgate que tem sido colocado em prática, a artista convida alguns excelentes DJ’s para riscarem nas faixas, ajudando a promover a cultura do DJ nos discos de rap. Estão aqui munidos das quadradas: DJ Novset, DJ Nandez, DJ Mako e o DJ Marco que com muita técnica apresentam colagens e riscos em alto nível.
Dentro de uma série de lançamentos que abordaram essa estética sonora em 2022, Bianca Hoffmann foi uma das poucas mulheres a encampar um disco todo – aqui considerado como disco cheio, já que passa dos 30 minutos – dentro da estética boombap. Estamos em um momento de resgate e renovação desta forma de se fazer rap que nos últimos anos foi altamente propagandeada como morta e ou ultrapassada. Os ditames do mercado e os seus papagaios esqueceram de combinar com os russos, ou nesse caso com a Loba.
Utilizado com maestria no flow e com uma lírica intrincada, o pensamento que percorre todo o disco parte da etimologia latina da palavra Canídeo – Cannidae, para pensar o feminino em nossa sociedade. Tomando sua posição social e racial em nosso tempo, Bianca Hoffmann consegue criar uma obra que além de investigar o seu próprio âmago, medos, conquistas, lutas, receitas de cura etc.., criar interseccionalidades interessantes com o recurso das participações.
O feminino é descrito como um espírito e encarna a personagem da Loba Sola, uma mulher sozinha enfrentando a cidade e todas as estruturas e violências fruto do patriarcado. Narrada por Mel Duarte a faixa de abertura começará a ser desenrolada em direções diversas ao longo das faixas e com a participação dos convidados, o que nos dá também uma sensação de luta interna, de alcateia que corre junta e que também enfrenta contradições, divergências de posição.
Em “Terceiro Olho” – um claro batecabeça produção do DJ Novset – abre com os riscos do DJ Nandez e aqui Bianca Hoffmann abre o disco de modo hard. A música discorre sobre auto conhecimento, resistência e enfrentamento, a MC rima com bastante consistência sem recair em palavras de ordem e ou clichês. Aqui o autocuidado é poeticamente explicitado como tomada de consciência dos próprios problemas e do entendimento do que nos faz mal nas nossas relações. Conhecimento esotérico que não vai rumo ao exotérico tilele tão em voga hoje, quando se faz um mix de espiritualidades difusas para no fim das contas cair numa vacuidade de práticas e noções administradas por coachs.
“E eu voltei, mas forte dessa vez, do abalo passei agora enfim chegou minha vez”
Essa faixa de abertura nos parece fundamental para compreendermos o percurso lírico do disco, pois nos fala de uma volta mais forte e consciente da artista. E isso ganha continuidade em “Sinal de Fumaça”, onde a MC relata dores que deixou pra trás como um sinal de fumaça, mas carregando consigo essas experiências em forma de conhecimento. Neste sentido, há aqui uma biografia, uma escrita de vida em forma de poesia de rua, que vai nos inspirando a pensar em nossas próprias caminhadas. O beat pesado é do Raul Ronde, e os riscos da faixa são do DJ Mako.
O DJ Marco solta uma colagem onde ouvimos: “como é seguir em frente depois de perder tudo”, e riscando abre a música “Cuidado, Menina!” (prod. Raul Ronde) ajudando assim a costurar a trama que compõe Cannidae em ritmo e poesia. Bianca começa a rimar nos descrevendo o Ethos da Loba na selva de pedra da Babilônia que engendra diversos perigos para as ‘meninas”. O sentido de aviso da faixa, assim como a poesia encarna com perfeição e atualizando-o, aquele sentimento que tínhamos de ouvir os boombap gangsta dos anos 90, mais soturnos.
Porém, aqui o sistema é muito bem descrito sob o ponto de vista feminino que com a ajuda de Ju Dorotea descortina não apenas o patriarcado, mas o racismo e a transfobia, nos presenteando com a potência da interseccionalidade que acima mencionamos. Tá aqui, uma das faixas mais potentes do disco, pois guarda em si não apenas a força de uma poética muito bem construída como um discurso interseccional que muitas vezes nos falta, na pressa e nos enlatados pela indústria cultural do rap.
Seguem-se duas faixas com feats com MC’s homens, Pecaos e o Barba Negra, onde em “Fragmentado” (prod. Raul Ronde), os artistas dialogam sobre temas e conceitos mais gerais, como traumas, morte e o próprio tempo de nossa vida. Em “Ataque” (prod. Peres), num beat meio torto e gostoso, a lírica suja e o espírito das ruas da maloqueiragem chega muito bem. Bianca rima aqui sobre alegrias de estar na rua e da força das amizades e da arte que segue resistindo. O “terrível ladrão de loops” nos descreve sua caminhada dentro do rap, Barba termina seu verso exaltando a negritude e as mulheres.
Estes dois feats expandem também o universo da Loba pois numa alcateia o padrão biológico é um dado, e desta forma esses feats além de denotar a amizade, respeito e admiração mutua entre os participantes, nos mostra também como tem que ser o rolê de homens, LGBTQIA+, mulheres e todas as diferenças que compõem a “raça humana”. Há aqui, um certo sentido de festejo dessa possibilidade, fazendo um meio de disco mais leve onde Fragmentado pensa a condição humana mais transcendental, nossa característica de finitude como elemento comum e em “Ataque” na arte como espaço de comunicação e luta pelas diferenças!
A ambiguidade da música “Noite de Alquimia” dialoga com o espírito festivo de celebração da arte presente na faixa anterior, mas também fala-nos de processos de autoconhecimento como em faixas anteriores. Note-se que no beat do Dem, Bianca segue fazendo um movimento muito interessante em suas linhas, realçando as dores vividas – aqui – por uma noção de pertencimento e de exaltação da vida, que assume o passado – e os problemas – sem ressentimentos. Na produção do Maike MO, Bianca posa de locutora de rádio para anunciar “Bagagem”, em beat muito bem groovado, a linha de baixo evidenciada vai sendo costurada pelos versos da MC e com o feat da Amanda More que rima com um approach bem R&B, outra com aquele gostinho atual dos 90.
“Você conhece esse som? Vem da rua”
Com “Cannidae”, desde que haja uma escuta atenta e informada, perceber a construção conceitual do disco é uma viagem muito potente. Há um ponto de partida nítido e um ponto de chegada objetivo e claro: é um movimento que vai do singular ao plural ao longo do álbum e do individual ao coletivo por parte da artista. A Loba Sola da abertura termina encontrando a “Alcatéia” (prod. DJ Novset) e essa não é uma trajetória agradável como num conto de fadas ou moralista como em uma fábula.
O que a Bianca Hoffmann nos apresenta neste disco são visões políticas e reflexões sobre si e sobre o mundo que partem da sua condição de mulher branca, suas dores, suas vivências, suas ideias filosóficas, sua qualidade artística como MC para desenvolver um roteiro que dialoga de verdade, sem condescendência, sem tokens, com outras caminhadas e outras perspectivas. Essa ética claramente presente no trabalho é algo pouco visto, há uma forte ideia sobre poder ouvir o outro e nestes tempos isso é importante demais.
A rua se conhece e esse é um disco que nos comunica bastante essa perspectiva, precisamos na rua, nos conhecer e escutar o outro para que possamos daí também conhecer melhor, a si mesmo e ao mundo!
A excelente arte da capa ficou a cargo de iogolixo e a mix e master por CabesCWB
Ouçam Cannidae
-Bianca Hoffmann lança o disco “Cannidae”, correndo com e pela a alcatéia
Por Danilo Cruz
Danilo
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