Arthur Vinih lança o clipe de Eu Sou Negão, primeiro single do cantor/compositor com a banda Os Malungos.
Ser negro num mundo feito por e para brancos exige daquele assumir um ethos. Os elementos necessários para sua construção são encontrados primeiramente no conhecimento de si. Esse encontro consigo permite reconhecer a condição que lhe foi imposta devido suas raízes ancestrais, para então reconhecer a opressão que lhe é imposta afim de fazê-lo acreditar em sua inferioridade. Uma vez solidificada essa base, pode seguir para a etapa seguinte, munir-se das ferramentas necessárias para demolir esse invólucro construído pelo opressor. Livre dos grilhões pode reconstruir-se afirmando a si mesmo afirmando sua cultura, suas características físicas para estar no mundo como pessoa, não como coisa.
Municiado pelo movimento reflexivo empreendido pode entender o modo como esse mundo interage consigo, para então estabelecer as formas de estar e agir nesse mesmo mundo. Quem é negro precisa desse ethos para desconstruir a imagem que o espelho branco refletiu e reflete para si ao encará-lo. São séculos de disseminação massiva da ideia de inferioridade cultural, física, e intelectual do povo negro por seu opressor branco. Cada vez mais as fileiras contra o racismo são fortalecidas para se lutar essa guerra, que travada no campo material, também acontece nas fronteiras do simbólico. Cada vez mais as pessoas negras estão assumindo esse ethos do guerreiro negro.
Arthur Vinih assumiu esse ethos e se engajou na luta contra a violência simbólica direcionada às pessoas negras cotidianamente. Gravou o single Eu Sou Negão, fazendo da música sua arma para atacar o simbolismo racista que aliena a pessoa negra de si. A letra da música afirma as características físicas e culturais negras, mostrando que a beleza também está presente nelas.
O single sugere a intenção de Arthur de trilhar novos caminhos. Escolheu o funk, ritmo marcadamente negro, para transmitir sua mensagem. Será que haverá um afastamento do já desgastado e cansativo formato MPB? Esperamos que sim. Tal expectativa está sustentada pela naturalidade com que Arthur Vinih e Os Malungos interpretam Eu Sou Negão. Percebe-se claramente uma interação orgânica entre os músicos, que parecem se sentir em casa fazendo esse tipo de som.
O compositor encontrou sua identidade musical ainda latente no seu último álbum Inverso. Essa guinada parece estar diretamente ligada à tomada de consciência sobre as implicações ligadas em ser negro dentro de um contexto social construído exclusivamente para o bem estar de quem é branco. O título da música por si só estampa a mensagem afirmativa que a letra e o balanço da música possuem.
Eu Sou Negão foi lançado em clipe gravado em locações dentro do perímetro urbano de Ponte Nova, cidade natal de Arthur. Durante o vídeo vemos Arthur caminhando enquanto o plano de fundo vai se alterando nas diferentes paisagens da cidade. O cenário interage com Arthur na medida que as pessoas, agitadas pela música, vêm para o primeiro plano e se balançam ao lado do cantor.
A direção do vídeo integra o conteúdo da letra associado ao groove da música com elementos da cultura negra presente em diferentes esferas culturais ponte-novense. O grupo de street dance, Dancing Down, bem como o grupo de capoeira Artes Gerais., gingam e coreografam seus passos so som do groove dos Malungos. Tem ainda a cena gravada na sede do Ganga Zumba, importante coletivo sócio-cultural de revalorização da pessoa negra e da cultura afro-brasileira. A sede está localizada num dos bairros de maior população negra em Ponte Nova, o Bairro de Fátima. Os Malungos junto com Artur e membros do Ganga Zumba dançam, tocam e cantam a letra de Sou Negão.
O clipe expõe vivamente as diversas manifestações culturais de matriz negra presentes em Ponte Nova, reverberando a mensagem de empoderamento da pessoa negra presente na letra da música. Desse modo, Eu Sou Negão, faz dançar, divertir-se ao som do swing próprio da música negra, quanto atua politicamente ao fazer a afirmação da cultura negra.
Ficha Técnica:
Música : Eu Sou Negão
Composição : Arthur Vinih
Voz e Violão: Arthur Vinih
Bateria e Percussão: Adailton Couto
Baixo: Cristiano Provezani
Trombone: Elias Vitorino
Trompete: Ronaldo França
Sax Tenor: Jader Moreira
Guitarra: Marcos Balbino
Backing vocal: Letícia Afonso
Direção: Marcello Nicolato
Produção: Katia Fonseca / Luandra Cheloni
Audio:
Estúdio Horizontes
Produção e Direção Musical : Thomas Medeiros
Dança: Elisson Martins / Pedro Fagundes / Nayon Silva / Gabriel Aparecido / Weley Lima.
Carlim
Matérias Relacionadas
Assine a nossa Newsletter
*Conteúdo exclusivo direto no seu e-mail
No ar!
NEGGS & YANGPRJ, arte e cultura Hip-Hop piauiense expandidas e renovadas, e agora?
Após 3 discos lançados, NEGGS & YANGPRJ expandiram e renovaram a arte e a cultura Hip-Hop piauiense, “Libertador part. II, o fim de um ciclo! Em seu último movimento, a dupla de artistas piauienses NEGGS & YANGPRJ, lançou o disco “Libertador part. II”, no final…
NEGGS & YANGPRJ, qualidade violenta e a renovação do Rap feito no Piauí – PT. I
Uma dupla que vem se desenvolvendo junto, o MC NEGGS e o produtor YANGPRJ lançaram três discos que já são marcos da renovação do rap no Piauí! Os últimos três discos da dupla NEGGS & YANGPRJ, MC e produtor piauienses são frutos históricos e excelentes…
TIPOLAZVEGAZH, mixtape de estreia do Vandal completa 10 anos de seu lançamento – Artigo
TIPOLAZVEGAZH, a mixtape de estreia do Vandal, marcou a história do rap no Brasil, antecipando sonoridades e revelando um MC único “UH TEMPUH PASSAH EH EUH KIH FIKOH EMOCIONADUH” Vandal Há 10 anos, Vandal lançava sua mixtape de estreia TIPOLAZVEGAZH, fruto de uma movimentação coletiva…
Xico Doidx, diretamente de BellHell, lançou o seu disco de estreia: SobreViver.
Uma estreia em disco depois de 15 anos de caminhada, Xico Doidx lançou o disco SobreViver, contando com a produção do OnçaBeat Ouvir Xico Doidx e o seu álbum de estreia “SobreViver”, que conta com a produção do OnçaBeat é um exercício de capturar criticamente…
Zadorica e a sua “Sina”: “o Rap ninguém me apresentou, ele aconteceu” – Entrevista
Entrevistamos a Zadorica, MC e produtora que acaba de lançar o seu disco de estreia: “Sina”, para você saber melhor sua caminhada e ideias! A agência entre formação pessoal e desenvolvimento artístico não opera por causalidades, a todo um trabalho de “reflexão” – flexionar para…
Tigran Hamasyan: folclore, erudição e improviso – o escape para encontrar a liberdade musical
Tigran Hamasyan é um pianista armênio, que conseguiu atenção mundial quando sua interessantíssima visão sobre música folclórica, clássica e improvisação começou a receber atenção do público e das grandes gravadoras. Sempre registrando projetos por selos proeminentes, principalmente do mercado europeu e norte-americano (como Nonesuch Records…
A revolução que vem de Rondônia,o MC kami lauan é o “tTrazedor de Notícia Ruim”
Com dois discos lançados em 2025, o rondoniense kami lauan chega com “tTrazedor de Notícia Ruim”, um disco fora da curva! kami lauan e o seu disco “tTrazedor de Notícia Ruim” é um acontecimento para o rap nacional em 2025. Se você acompanha de fato…
“Tertúlia” de Galf AC & DJ EB, lírico e rítmico, a música e a poesia Rap – Entrevista!
Com muitas participações, Tertúlia de Galf AC & DJ EB é um disco raiz do rap nacional com uma roupagem atual e consistente! Um dos grandes discos do ano até aqui, “Tertúlia” contém 11 músicas e diversas participações de nomes como Rodrigo Ogi, Ravi Lobo,…
