Em Betrayed By Obedience, a Infected Cells une death metal brutal, niilismo e crítica social em um álbum sobre exclusão, exploração e resistência.
DE VOLTA AO SUBMUNDO
Meu 2026 tá pura zica. Estou a poucos passos de me tornar um jovem místico e responsabilizar o universo pelo alto índice de tretas que vêm me dando apavoro este ano.
Daí, só agora consegui reunir forças para retomar minhas atividades no Oganpazan, após seis meses de hiato. Nesse ínterim, muita coisa aconteceu no submundo do underground brasileiro, especialmente aqui no Nordeste, em particular na nossa queridíssima Bahia.
Nesta matéria, destacamos um desses acontecimentos.
Eu tô falando é do lançamento do álbum Betrayed By Obedience, da banda baiana e simões-filhense Infected Cells, uma das bandas mais combativas e atuantes do metal baiano e nordestino.
O álbum é o segundo de estúdio da banda, antecedido por Voices From The Hell, lançado em 2018.
SEIS ANOS DEPOIS

São seis anos separando o lançamento dos dois álbuns. A “pegada” na execução das músicas pela banda permanece. O que muda é a qualidade técnica entre um álbum e outro.
Betrayed By Obedience tem suas camadas sonoras melhor destacadas, com uma sonoridade mais límpida e melhor percebida pelo ouvinte.Essa evolução técnica, contudo, não significa uma suavização da proposta. Pelo contrário: o peso continua lá, mas agora aparece com maior definição.
E isso é importante porque, no caso da Infected Cells, a brutalidade sonora não está dissociada daquilo que a banda pretende dizer.
OBEDIÊNCIA, APRISIONAMENTO E NIILISMO
A Infected Cells se caracteriza por abordar temas de teor político e social em suas músicas. O nome do álbum deixa isso bem claro.
Abre o setlist do álbum a faixa que lhe dá nome, Betrayed By Obedience, que discute a passividade das pessoas diante da realidade que lhes é oferecida.
Obedecer voluntária e docilmente leva ao aprisionamento em celas cujas grades são invisíveis. Duas faixas do álbum foram lançadas anteriormente em formato de single. São elas: And the Reek Shall Inherit the Earth, lançado em março, e We Are the Outcast, lançado em abril. Ambas expressam bem os contornos pessimista e niilista que conceituam o álbum.
Portanto, vamos analisar essas duas faixas, pois isso nos permitirá compreender, em aspectos gerais, a natureza de Betrayed By Obedience.
“AND THE REEK SHALL INHERIT THE EARTH”
And the Reek Shall Inherit the Earth, que, em tradução livre, pode ser expresso como E o Mau Cheiro Herdará a Terra.
Para nós, calejados pela pregação neo pentec freestyle pelas ruas e pelo transporte público Brasil afora, acabamos nos lembrando de uma passagem que essa galera já desgastou até o talo. Refiro-me à célebre passagem bíblica do Sermão da Montanha, Mateus 5:5, na qual Jesus Cristo diz: “Bem-aventurados os humildes, pois receberão a terra por herança”.
A inversão da promessa

Na versão da música da Infected Cells, os humildes, os trabalhadores, os fracos, herdarão uma Terra estraçalhada pelo apetite desenfreado dos capitalistas, que concentram seus esforços em extrair da natureza tudo que pode ser revertido em acúmulo desenfreado de riqueza, deixando apenas destruição e poluição para as pessoas comuns.
A promessa de herança permanece. O que muda é aquilo que será herdado. Analisando o primeiro verso, podemos ver que a decomposição a que se refere a banda é o destino universal da humanidade. Notamos aí um fatalismo niilista, incapaz de conceber uma alternativa que possa nos salvar da deterioração.
Trata-se de uma inversão deliberadamente blasfema da promessa religiosa de salvação.
QUEM HERDARÁ A TERRA?
Lembro da ideia presente no filme Elysium (2013), em que a Terra devastada, suja, carente de qualidade do ar e das águas, transformada em um imenso lixão, fica para os “humildes”, enquanto as elites se mudam para uma estação espacial chamada Elysium, para desfrutar de uma vida repleta de natureza, tranquilidade e prosperidade.
Mais ou menos o que os bilionários atuais querem fazer: deixar o planeta e vazar para Marte. Os caras preferem destruir o planeta a tomar medidas que permitam salvar e recuperar o que ainda temos de recursos naturais. O que o filósofo britânico Mark Fischer convencionou chamar de Realismo Capitalista.
A ideia central é brutalmente simples:
todo ser vivo está destinado à decomposição.
Não importa a condição social, a riqueza, o poder ou o prestígio. No final das contas a morte dissolverá todas essas diferenças.
A MORTE CONTRA AS ILUSÕES
Os versos:
“So no more illusions / And empty promises”
A morte aparece como aquilo que destrói as ilusões humanas. Promessas de transcendência, imortalidade, recompensa ou justiça futura seriam, nessa perspectiva, mecanismos para evitar a confrontação com a realidade material.
A letra tenta tirar nossa atenção da promessa de uma vida próspera após a morte. Todo mundo terá seu ap. garantido no Reino dos Céus. Basta ser temente a Deus e pagar suas parcelas no culto de domingo.
A realidade material é esfregada em nossa cara, da forma mais explícita possível. Esqueçam os valores e anseios metafísicos.Precisamos agir sobre o mundo material, pois é o que nós de fato temos… bom, ao menos por enquanto.
0“THERE IS NO GOD ABOVE US”

Continuando por esse caminho do ideal versus o material, vamos nos ater aos versos:
“There is no god above us / And no hell to fear”
Aqui os caras jogam a pá de cal. Sustentam uma disposição ateísta e materialista para compreender a realidade na qual estamos inseridos, apoiando-se nela para projetar o futuro possível.
A punição ou a salvação não virão após a morte; serão colhidas na condição material da nossa existência. Dando um recado mais que assombroso acerca do que as próximas gerações herdarão.
É UM NIILISMO TOTAL?
Uma coisa que me veio à cabeça: será que este niilismo proposto por And the Reek Shall Inherit the Earth seria um niilismo total? Do tipo ultra-fatalista, que nos coloca diante da triste verdade:
a vida não vale nada?
Me parece que não. Isso porque a mensagem contida na letra tem relação com a maneira como nós, enquanto humanidade, podemos alterar a realidade na qual estamos inseridos.
Isso quer dizer tomar uma postura ativa diante da existência. Quer dizer, não esperar que uma inteligência universal, ou divina, como queiram, dê sentido ou justiça à existência.
Visão esta que nos coloca numa postura realmente fatalista e desesperadora, pois nos sentimos impotentes diante da realidade material.
Ficamos esperando a ação de uma força superior que possa nos salvar. E é justamente essa espera que a letra parece rejeitar.
“WE ARE THE OUTCAST”
A segunda música que analisaremos é We Are the Outcast, lançada, como destacamos lá em cima, como segundo single antes do lançamento do álbum.
Serei mais sucinto nesta análise, eu prometo. O título da faixa nos entrega o tema abordado pela letra. Em tradução livre, o título seria algo como Nós, os Párias.
Podemos considerar haver uma divisão importante entre “nós” e “eles”. Para representar o “eles”, sobram os grandes capitalistas, os bilionários.
Contudo, a relação entre “nós” e “eles” fica estabelecida, isso porque nós, os párias, os marginalizados, encontramo-nos nesta condição devido ao que os capitalistas, os “eles”, estabelecem como nosso lugar no mundo.
A IDENTIDADE DO EXCLUÍDO

Nesse sentido, podemos considerar que tais identidades são construídas a partir da exclusão, do desprezo e do sentimento de não pertencimento. Nós, que necessitamos de um salário para sobreviver, conhecemos bem essa sensação de não pertencimento à sociedade que foi construída para nos deixar de fora.
Esse trecho apresenta uma divisão radical entre “nós” e “eles”, com uma identidade construída a partir da exclusão, do desprezo e do sentimento de não pertencimento.
Vamos pegar um trechinho. Esse aqui:
The ones who eat shit / We are the scum
Encontramos no trecho uma autodepreciação intencional. O rótulo de escória é assumido com o intuito de fazer com que o estigma se metamorfoseie em identidade, ou seja, em forma de resistência.
Os párias se tornam um bastião de resistência contra a fúria predatória dos poderosos.
OS PÁRIAS CONTRA OS PODEROSOS
Poderosos estes apresentados como traidores e hipócritas, sempre dispostos a dar aquela facada gostosa pelas costas:
They are the cowards / That stab you in the back.
Outros versos interessantes são:
We are the sacrifice / The ones who have no faith.
Aqui a banda inverte a coisa, pois o sacrifício não é para aplacar a ira de um ser sobrenatural, mas uma forma de vida imanente, portanto, material.
Invoca um sacrifício daqueles que não têm fé, ao menos fé em uma força metafísica.
UMA ÉTICA DO EXCLUÍDO
Podemos considerar haver, na imagem evocada pela letra, uma espécie de ética do excluído: aqueles que foram colocados à margem agora reivindicam sua própria marginalidade como marca de identidade.
A letra propõe uma reflexão interessante na medida em que denuncia a exclusão e reproduz o que podemos chamar de uma lógica excludente.
Nós, portanto, os despossuídos, os marginalizados, os párias, somos os que se sacrificam de fato; “eles” são os covardes que merecem ser colocados no limbo. Mas por quem, você pode estar se perguntando. Basta ligar os pontinhos e a resposta aparecerá.
Isso aproxima a letra e, num sentido mais amplo, a própria identidade do álbum, de uma tradição bastante forte do punk, hardcore e metal extremo, em que o “outcast” não é simplesmente alguém que sofre exclusão passivamente, mas que ressignifica o não pertencimento, transformando-o em uma posição de enfrentamento.
O PESO COMO LINGUAGEM
Considero que as letras por nós aqui analisadas dão uma ideia do que o álbum explora conceitualmente.
A temática pesada, ácida e niilista do álbum encaixa perfeitamente com a sonoridade aplicada pela Infected Cells. Sonoridade essa que dá mais relevo aos temas abordados em cada letra de cada música.
A Infected Cells entrega um death metal brutal, técnico e sem firulas, cujo peso das guitarras, os vocais guturais densos e cheios de relevo, a força e a precisão do ritmo estabelecem uma conexão precisa entre os elementos que compõem a música.
Embora a execução primorosa das músicas produza uma sonoridade de acordo com as premissas do death metal, me parece que os caras conseguem tirar algo a mais das características estéticas do estilo.
Nesse sentido, a banda escapa da armadilha do virtuosismo estéril, mostrando que busca ir além do que a qualidade técnica oferece.
Por isso, o ouvinte se sente atirado numa espiral sonora brutal e agressiva, que ressalta as tensões entre a parte instrumental e o léxico adotado para as letras.
VEREDITO
Betrayed By Obedience funciona justamente porque não separa forma e conteúdo.
O peso da Infected Cells não serve apenas para produzir brutalidade sonora. Ele cria o ambiente adequado para letras que falam de decomposição, exclusão, exploração, descrença e revolta.
O niilismo do álbum, portanto, não precisa ser entendido como uma simples afirmação de que “nada importa”.
Há algo mais interessante acontecendo aqui: se não existe uma salvação transcendental garantida, resta ao indivíduo confrontar a realidade material em que está inserido. E, diante dela, decidir o que fazer.
FICHA TÉCNICA
Infected Cells
Álbum: Betrayed By Obedience
Banda: Infected Cells
Formato: Segundo álbum de estúdio
A Infected Cells é formada por:
Stanley Serravalle — Baixo / Vocal
Hugo Elias — Guitarra / Produção / Mixagem / Masterização
Márcio Jordanne — Bateria
Produção, mixagem e masterização: Hugo Elias
Bateria gravada no: WR Bahia Studios, Salvador, Brazil
Baixo gravado por: Márcio Jordanne’s home studio, Simões Filho, Brazil
Guitarra gravada por: Hugo Elias’s home studio, São Paulo, Brazil
Vocais gravados por: Hugo Elias’s home studio, São Paulo, Brazil, e Stanley Serravalle’s home studio, Salvador, Brazil.
Carlim
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