Kellven Praiano e uma tradição que voltou pro mar em Corumbau – BA, “Sal Preso 2026”
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Kellven Praiano e uma tradição que voltou pro mar em Corumbau – BA, “Sal Preso 2026” 

MC da nação Pataxó, Kellven Praiano estreou com o disco Sal Preso, produzido por Lenis Rino e beats do Aka Nabs e de Denis Duarte.

Kellven Praiano

“Sou mais brasileiro, que a bandeira inteira”

Em seu disco de estreia, Kellven Praiano nos apresenta “Sal Preso”, em 8 faixas que condensa neste cartão de visitas rítmico e sonoro, o início de uma obra bastante singular. Fruto de um processo de pensamento e vida, em associação com outros artistas, que possuem diversas linhas comungando para a construção de um MC, onde já em seu debut, nos mostra a força diversa oriunda do Hip-Hop baiano.  

Foi meu mano Nego Freeza (OQuadro) quem me enviou o disco do Kellven Praiano antes do lançamento, e já na primeira audição ficou evidente o quanto tudo aquilo condensado em um EP de estreia, diferia de tudo o mais que eu já escutei. O EP conta com a participação das vozes da Karuandra, Seu Milton e Honorato Poeta. A produção exemplar de Lenis Rino, com beats do Aka Nabis e do Denis Duarte, forma a cama sonora basicamente voltada ao boombap. Porém, falar em boombap aqui é meramente ilustrativo, de que se trata de um disco de rap, mas não é o boombap ou o rap a que estamos acostumados. 

Isso porque, em certa medida, a reunião de influências presentes no trabalho e a própria formação – o movimento – que Kellven Praiano expressa neste início de carreira dão conta de um trabalho muito próprio e bastante auto consciente. Próprio, porque condensa uma multiplicidade de influências fruto de uma vivência singular entre o urbano e o rural, entre o passado e o futuro – seu e do seu povo – em meio a guerras particulares para se encontrar e guerras locais para permanecer. O trabalho do MC Pataxó é um exemplar muito rico para se pensar esses atritos, esses fluxos e cortes entre o contemporâneo, a aldeia, a urbe e um passado que está desde sempre presente. 

Unindo referências singulares como Pepe Moreno, Alan Parson Project, Baiana System, Vandal, Contenção 33, Dark MC, Underismo e Elomar, pra ficar em alguns nomes, Kellven Praiano traz um caminho único em sua música. Cria de Corumbau, localidade do município de Prado, no extremo sul baiano, mas com trânsito variegado desde muito novo, por grandes cidades como Rio de Janeiro, Brasília, BH e Salvador, sua música condensa lírica e ritmicamente esses movimentos e influências. 

Kellven Praiano Os ecos de suas vivências e influências não pulam a frente da escuta atenta do ouvinte com sabor de modernidade, são um caminho e uma destinação. A utilização simbólica de sua herança étnica, a “naturalidade” Pataxó em suas rimas não são penduricalhos para curadores do eixo.  Recusando de saída, o fetiche descarado dos mercadores, dos fariseus da arte que só entendem artistas como Kellven Praiano como mais valia simbólica, com seus jargões: identidade, atravessamentos, ancestralidade, etc. O seu caminho artístico, sobrepõem camadas de um modo que os leitores de orelhada, os papagaios do rizoma, não conseguem com facilidade decalcar o seu mapa e os gradientes de intensidade atrás de frases e pseudos conceito prontos. 

Tecnicamente, a duração de “Sal Preso” nos remete a um EP de estreia, mas a música presente do disco, nos carrega por um mar de ondas bravias do tempo e faz-nos entender o seu retorno e a atual permanência à beira do Monte Pascoal, de hoje. Demandando, no entanto, uma outra forma de recepção, que não seja aquela da extrativização identitária do artista, antes solicitando do ouvinte algo raro hoje em dia, a escuta de sua música. Assim, o ouvinte que abre mão de utilizar a lógica das redes a fim de aprisionar a produção é dessa forma pescado artesanalmente pelo Kellven em sua malha semiótica, “Sal Preso”.

O movimento artístico e existencial de Kellven Praiano se configura esteticamente como algo que foge do marketing ancestral. Com Sal “Preso”, estamos diante de um objeto estético que é até difícil de se marcar, de qual território ele provém, a qual etnia ele pertence, a que tempo ele remete? Onde está o elogio à ancestralidade neste disco? São questões que o ouvinte acostumado com os raps feitos com chavões, pode se fazer? Mas, talvez outras perguntas sejam mais importantes.  

E quando a linha de fuga se configura como um retorno, sem no entanto tornar essa volta um vazio abjeto, o retorno do filho pródigo? Onde a força da ancestralidade é de fato uma política do devir, ela precisa se re-conhecer e gritar bem alto que ele é? Onde a linha temporal é uma luta do aqui e agora, repetindo a primeira luta como há mais de 500 anos, não existem palavras de ordem, a criação pertence ao futuro, não diz respeito a reconhecimento, mas antes a produção de um povo por vir. Não fala no lugar de, mas por esse povo. 

A arte de Kellven Praiano, apresentada publicamente neste ano da graça de 2026, é essa constante busca por desterritorialização, por avanço resistente aos processos de esvaziamento e às fáceis e redundantes clichês. Transformando assim o objeto estético em um peixe novo, portador de cartografias artísticas e de vivência que foram maturadas e preservadas por uma técnica milenar, nadando em direção a um futuro desconhecido mas prenhe de possibilidades. 

Em seus trajetos pelas cidades, Kellven Praiano é parte de uma formação de MC’s dentro do Rap Nacional que não segue uma linha cronológica de respeito à tradição, primeiramente tomando contato com Emicida, Criolo, Cone Crew Diretoria, para depois ser um dos impactados por Sulicídio de Baco Exu do Blues e Diomedes Chinaski, e por toda a geração que emergiu nessa altura, com nomes como Djonga por exemplo. Em Salvador, ele tomou contato com o Contenção 33, com Vandal, com Trevo e a Underismo

Kellven Praiano

Após uma infância que saiu da aldeia e foi para o Rio, que voltou para aldeia e depois uma adolescência que viveu em Brasília e que voltou novamente para Corumbau para sair novamente e ter um começo de vida adulta vivendo a comunidade indígena e periférica – no bairro do Calabar – na UFBA, o MC seguiu sua cartografia recolhendo experiências das mais diversas.

O MC Kellven Praiano salga toda essa vivência em seu disco de estreia, explorando em sua lírica o pagodão baiano, a agressividade de Dark MC e Vandal, o boombap under e sujo da Underismo. Tudo isso mesclado e transformado em signos próprios, gerando assim um outro universo semiótico, renovado pelas e através das suas influências. Sem reunir tudo isso em algum pastiche de identidade Pataxó e ou indígena. Mas antes, afirmando uma diferença brutal diante do que é feito hoje em nome desse mercado… Sim, o mercado hoje – e muitos artistas do rap, pretos, mulheres, LGBTQIA+, índigenas – produzem para se adequar às prateleiras da Indústria Cultural, chamando isso de representatividade e ou empoderamento. 

Subvertendo essa lógica, Kellven Praiano está mais interessado na “pirataria”, em um sample realmente ancestral, criando uma língua própria, introduzindo aos poucos vocábulos e seus parentes Pataxó, em suas rimas. Como poeta, ele vem esculpindo uma sintaxe nova dentro da língua Pataxó, uma língua adormecida com a qual o MC teve uma primeira apresentação através de palavras no uso cotidiano em sua infância e que somente durante o ensino médio teve contato através de um aprendizado sistemático.

Ouvir essa estreia é uma aula sobre a potência do presente expressado pelo Kellven Praiano em “Sal Preso”, um EP rico em sonoridades e ancorado na riqueza da história do Rap baiano. Um acréscimo de força vindo diretamente da primeira região avistada disso que se tornou o que chamamos Brasil. Diante do silêncio sepulcral de uma esquerda partidária falida, em um governo estadual do PT já há 5 mandatos que parece conivente com a opressão, os assassinatos e as disputas de terra que os nossos povos originários do extremo sul baiano tem enfrentado cotidianamente. 

Nesse sentido, “Sal Preso” é um disco salutar para entendermos a importância contemporânea desses povos originários que seguem lutando pela vida, pela dignidade, e sobretudo possuem muito a nos ensinar. Kellven Praiano é um dos pontas de lança desse movimento de resistência, trazendo a arte do Rap à nossa cultura Hip-Hop, para que percebamos melhor e consigamos romper as barreiras do silêncio e da invisibilidade dessa luta.     

-Kellven Praiano e uma tradição que voltou pro mar em Corumbau – BA, “Sal Preso 2026”

Por Danilo Cruz 

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