Do choro ao samba, passando pelo jazz e pela ancestralidade afro-brasileira, o Trio Choro Negro transforma Ouro Preto em território de liberdade, improviso e criação musical.
O choro pelas ladeiras de Ouro Preto

Meu pai teve atelier em Ouro Preto durante mais de trinta anos. Eu sempre estava por lá. O clima da cidade sempre me fez bem e me atraiu. Trata-se de uma cidade musical. Há música por cada canto da cidade
Algo chamou minha atenção durante minhas últimas visitas à cidade. Algo que havia passado despercebido nas vezes anteriores que por lá estive. A presença de inúmeras rodas de samba na cidade. O choro se fazia presente, direta ou indiretamente dando sua contribuição àquela manifestação cultural.
Pouco tempo depois, passando as férias na minha cidade de origem, Ponte Nova, aliás, próxima a Ouro Preto, pude presenciar a música do grupo ouropretano Trio Choro Negro. Logo relacionando aquela sonoridade à constatação da marcante manifestação do samba pelas ruas centenárias da cidade.
Os caras se apresentariam no projeto Jazz Na Varanda, organizado pelo músico Arthur Vinih na varanda da escola de música Percepção Musical. Colei no role e fui apresentado a um power trio da pesada, dotado de uma linguagem musical desinibida, fluída e expressiva.
Logo me vi seduzido pela sonoridade da banda, que concentra seus repertórios em clássicos do choro, porém, imprimindo às músicas a sua entonação, a sua personalidade enquanto trio de choro. Portanto, as músicas ganharam um outro peso, outra roupagem, baseada na liberdade criativa do improviso jazzístico, intuitivo e evocado naquele momento para nunca mais ser executado.
Como resistir a essa demonstração de pura criação artística. A captação do clima presente no ambiente pelas frases e variações desenvolvidas pelos músicos, despertou o interesse em saber mais sobre os caras.
O power trio Choro Negro
O Trio Choro negro é formado por três jovens músicos, uma tríade santificada pelos santos ébrios da ancestralidade musical afrobrasileira. Tão marcante na identidade cultural ouropretana e brasileira.

No violão de 7 cordas com suas marcações inquietas temos Danilo Campos, no sax tenor e na flauta transversal de onde seu sopro projeta a magnânima suavidade das melodias temos Tiago Couto e finalmente, no molejo percussivo do pandeiro, Diovane Inácio.
Além de músicos talentosos e inquietos, pesquisam sobre o choro e suas conexões com diferentes estilos musicais fruto da diáspora africana nas Américas. Resgatam a memória de compositores do passado, elaborando arranjos criativos e sem as amarras do formalismo musical.
Nessa pesquisa sobre a música afrobrasileira, o Trio Choro Negro extraí a matéria prima para sua assinatura músical. Além do choro, o grupo tem fortes influências do samba, da música mineira e da liberdade criativa dos improvisos jazzísticos.
Essa caminhada musical completa dez anos em 2026. E esses rapazes já tem muito o que nos mostrar em termos de produção musical. Não exageramos ao considerar que o grupo já se consolidou em Ouro Preto e região como referência musical. Principalmente no que toca à tradição da música instrumental mineira.
O Trio Choro Negro, está sempre se apresentando nas rodas de choro e samba que acontecem em sua cidade, porém, são atração de destacque em festivais de música de diferentes vertentes musicais.
Aí cês me perguntam: o que tá faltando pra esses caras? E eu respondo com prazer, num tá faltando mais nada porque os caras lançaram em abril de 2026 seu primeiro registro de estúdio com repertório totalmente autoral. O EP leva o nome do grupo Trio Choro Negro e vc abençoado, pode ouvir em qualquer plataforma de streaming bandida disponível nessa terra sem lei que é a internet.
Então vamos dar uns pitacos sobre o EP dos caras. Primeiro a parte chata, vamos falar sobre os dados técnicos do trampo. Trio Choro Negro tem um set list sucinto, são cinco faixas cuja duração varia entre 2:21 e 3:27. O que dá aí um total de 13 minutos e 57 segundos. Bem ao gosto dessa geração Z criada à base de Toddynho e redes sociais, que não consegue se concentrar em nada que tenha mais 1 minuto.
Contudo, não se enganem, os caras não miram esse público. Não confundam quantidade com qualidade. Como dizem aqueles juízes do Masterchef, pouco é muito.
Em linhas gerais: o EP é uma jóia.
FICHA TÉCNICA:
Direção musical e arranjos: Trio Choro Negro
Composições: Danilo Campos
Instrumentos de Cordas (violão 7 cordas, violão 6 cordas e cavaquinho): Danilo Campos
Instrumentos de Sopros (flauta e saxofone): Tiago Couto
Percussão (pandeiro, caixeta, ganzá, zambumba, tamborim, entre outros): Diovane Inácio
Gravação, mixagem e masterização: Estúdio Mezalab, Ouro Preto (MG)
Arte da capa: Túlio Campos
Fotografia: Paloma Sabino
Produção executiva: Danilo Campos
Carlim
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