Vandal TIRASUAPAZH (2018), Tirando sua paz na pista todo dia, afinal quando a favela descer e não for carnaval, cês não vão bater de frente!
Como tinha prometido na semana passada, Vandal segue no caminho para o seu disco abrindo sua caixa de ferramentas, e dessa vez foi com um audio visual de primeira linha, produção que nos traz a estética provocadora da Freemode. A track escolhida foi a pesada Tirasuapazh (2018), uma das três pesadas faixas lançadas no começo do ano, e que já contava naquela altura com um trampo visual com a identidade Freemode.
Essa coesão estética presente entre os lançamentos é também algo que vem acompanhando essa parceria entre as artes de um e de outro, dos atores acima mencionados. A faixa em questão possui a produção do beatmaker Portugal, que esculachou nesse beat inserindo uma divisão intervalar, algo que é muito bem explorado no vídeo coadunando os dois tempos presentes na letra: dia e noite.
Um tema interessante dentro do trabalho de Vandal é a noção de ACESSOH, uma visão que busca entender a importância da luta do gueto para alcançar dignidade. Uma qualidade de vida que passa dentro do nosso sistema econômico atual, necessariamente pelo consumo. Que não se restringe apenas a comprar objetos (importantes também), mas a ser capaz de desfrutar de um lazer, por exemplo.
Quem vive Salvador, mas sobretudo quem vive o Brasil de verdadeh, sabe o quanto o deslocamento, lanches e outras despesas, pesam para classe trabalhadora acessarh uma praia, o cinema, os estádios de futebol. Dentro desse contexto a música Tirasuapazh (2018) dialoga com os modos de se ter acessoh à nossa dignidade.
Seja queimando uma carne com cerveja, torando litros e litros de balalaikahz, catuabah, o nosso povo produz hecatombes que só quem é da favela tá ligado como se faz. O espirito dadivoso que o nosso povo pobre consegue retirar e ofertar do seio da pobreza, é algo que Vandal sabe muito bem como funciona e consegue encarnar bem em seu trabalho.
A classe negra e trabalhadora hoje se encontra novamente decaindo e sendo encerrada entre a dicotomia batalha e lazer, fugaz mas necessária. Há poucos anos atrás houve um certo progresso dessa classe na medida em que passou a ser contemplada por programas sociais do governo, que se não conseguiu reparar desigualdades extremas e históricas, alcançou algum horizonte de real melhora a médio prazo.
Certamente o atual contexto nacional implica em outras formas de se ter acessoh na mesma medida em que a desigualdade volta a crescer. A busca será, já é na verdade, daquele jeitão que segue tirando a paz de quem não aceitou a ascensão, mesmo curta dos pobres e dos negros nesse país. A nossa elite não aguentou ver pobres e negros começando a disputar com um minimo de equidade espaços que lhes foram historicamente negados.
Entendemos que as rimas de Vandal vislumbram, mesmo que de modo cifrado, esse contexto social, um contexto onde nosso povo segue sendo massacrado e precisa urgentemente entender quem é o verdadeiro inimigo. Um dos melhores trappers, boombapers ou simplesmente bagaçadores do cenário rap brasileiro, o artista segue lançando trabalhos instigantes em diversas dimensões, sejam elas, sonoras, líricas ou visuais.
As imagens e a concepção estética produzida de modo fantástico pelo trabalho da Freemode que tomou o acessoh no Porto da Barra, com os meninos forçando a porta pra entrar no buzu, o ponto lotado. As belezas naturais, o burburinho de gente andando para depois do intervalo que a música possui, focar no fim da noite num posto de gasolina da city, dialoga com a estética de muitos clipe da cultura grime londrina.
Mais um trabalho que merece muito ser visto, mais uma expressão da verdade das ruas transformada em arte. Num cenário onde o rap e sua divulgação, mas algo que vale para mídia em geral, é um game pago, Vandal segue na resistência buscando acessoh com trabalho e muita qualidade artística.
Vejam:
Consultoria para a matéria: Dimak, obrigado fessor!
Danilo
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