Prince Áddamo homenageia a jornalista Zileide Silva em música que exalta a beleza da mulher negra, que não se curva aos padrões impostos pela indústria da “beleza”.
Zileide: referência e identidade
O reggaeman baiano Prince Áddamo lançou no dia 12 de maio, no tradicional bar Oliveiras, localizado no charmoso bairro do Santo Antônio, no Centro Histórico de Salvador, seu mais novo single, Zileide.
A música homenageia a jornalista Zileide Silva, mulher negra cujo trabalho sério e cuidadoso desenvolvido no campo do jornalismo político, na cobertura de acontecimentos internacionais como correspondente, dentre outros, a levou a se tornar umas das jornalistas mais destacadas do país.
Tanto, que entre os anos de 2009 e 2013, passou a apresentar diariamente as notícias políticas do noticiário matinal da Rede Globo, o Bom dia Brasil, tornando-se a primeira mulher negra a apresentar como titular um telejornal diário de projeção nacional.
Essas conquistas não passaram desapercebidas aos olhos do jovem Prince, que ainda adolescente, na cidade de Camacã, no interior da Bahia, encontrou em Zileide uma referência.
“Tinha ela como uma jornalista fora do padrão que predominava na TV: a competência, o profissionalismo dela, eu sentia que era diferente. Eu me lembro de minha Mãe chegar em casa, me ver assistindo e comentar: ‘Zileide é da resistência né meu filho?’“, explica Prince.
Sobre a inspiração para composição de Zileide, Prince mostra que existe uma outra fonte além da jornalista:
“Sinto que fui provocado também pela obra de Jorge Ben. Ele possui uma série de canções que homenageiam mulheres e tem seus nomes no título. Isso sempre me fazia pensar que Zileide merecia uma música. Eu escrevi para ela como uma voz que fala por muitas outras mulheres negras brasileiras”, explica o cantor.
Zileide: a letra e a música
A letra de Zileide aborda a luta contra o racismo a partir da questão estética. Desde sempre houve a disseminação massiva da valoração negativa dos aspectos físicos das pessoas negras através da cultura de massas nas propagandas de tv, assim como nos produtos culturais como filmes, séries e novelas.
O resultado foi a consolidação da ideia de que as características físicas próprias das pessoas negras são “feias” e devem ser evitadas. O cabelo, dentre essas características, podemos dizer, tornou-se o símbolo da opressão direcionada às pessoas negras. Foi, certamente, a característica física mais atacada.

Quantas pessoas, mulheres principalmente, não sofreram a dor física resultado do processo de alisamento dos seus cabelos!? Sem falar na dor emocional causada por um sistema racista que as fizeram acreditar que sua aparência é “feia” e deve ser evitada. Que a beleza existe apenas naquilo que é ou parece ser europeu.
Por isso mesmo, Prince faz uma letra que fala sobre a importância de se assumir o cabelo natural como forma de resistência e desconstrução dessa concepção racista que foi introjetada em nós por meio da propaganda e da cultura de massas .
E Zileide Silva sempre deixou seu cabelo ao natural, muito antes do capitalismo tardio se apropriar dessa pauta e embalar a beleza negra como bem de consumo. Tomou a atitude de mostrar sua beleza, sem se render ao assédio da chamada indústria da beleza, em rede nacional ao aparecer na tela da Rede Globo em seus telejornais. Isso denota a consciência racial de Zileide.

Além, claro, de sua compreensão acerca da importância de assumir o seu hair (como diz Prince em trecho da letra) para gerar a inquietação nas pessoas, em especial nas mulheres negras que ainda não haviam despertado para essa realidade. Inquietação que é o primeiro passo para trilhar o caminho da construção de uma consciência política.
Prince destaca esse aspecto da postura de Zileide logo no primeiro verso:
Gosto de Zileide assim, do jeito que ela é, Não estica, não maltrata, nem alisa, ela assume o seu hair
A música tem arranjos que trazem elementos do afrobeat, do samba-reggae e do dub, tornando a música rica em detalhes sonoros que dão a ela um sabor especial. Se você ficar atento, percebe a entrada do samba reggae no refrão. Sem falar no groove que ganham realce com as linhas de baixo desenhadas pelo mestre da sonoridade jamaicana Alan Dugrave.
Zileide: o clipe
O clipe explora a representatividade de beleza e força do cabelo no empoderamento da pessoa negra, através da luta contra o racismo por meio da assunção das características físicas negras.
O roteiro faz uma ligação entre as mulheres que estão no salão de beleza e Zileide Silva através da televisão. Enquanto Zileide apresenta as notícia do dia, as mulheres assistem enquanto tem seus penteados e cortes feitos.
São cortes e penteados de diversos tipos, tendo em comum a sua natureza. Podemos ver a beleza dos cabelos negros em diferentes estilos. Claro, os primeiros versos da música Gosto de Zileide assim, do jeito que ela é, Não estica, não maltrata, nem alisa, ela assume o seu hair nos levam a fazer a associação entre os cabelos de Zileide e os das mulheres do salão. E acabamos por concluir que elas se inspiram na atitude da jornalista.
Prince Áddamo faz um clipe simples, mas que passa uma mensagem forte, que homenageia uma mulher que merece ter a sua grandiosidade reconhecida, pelo que fez ao telejornalismo brasileiro e pela representatividade política que tem dentro da luta contra o racismo no Brasil.
Informações técnicas sobre Zileide
Gravação
A faixa Zileide já integrava o repertório de shows de Prince e agora ganha um registro em estúdio com a produção de André T. A gravação conta com os músicos Sidnei Rasta na bateria, Alan Dugrave no baixo, Juliano Oliveira nos teclados, Vinicius Freitas e João Teoria nos metais, além de Danny Nascimento nos coros.
O arranjo passeia por diferentes gêneros musicais, como o samba-reggae, o afrobeat e o dub – expressão da diversidade que Prince atribui as suas vivências como morador do Centro Histórico de Salvador. A capa do single é assinada por Ricardo Fernandes (DJ Magrão), conhecido por trabalhos visuais com artistas como Russo Passapusso, Criolo e Black Alien.
Biografia
Prince Áddamo é um cantor e compositor baiano. Atuante na cena musical soteropolitana desde 2009, ele consolida sua apresentação no cenário reggae com referências musicais do roots, ska, dub e afrobeat. A autenticidade da sua lírica e o toque suave da sua guitarra são destaques de uma produção musical inventiva e perseverante, que já conta com dois álbuns (Viva o Natural e Original Camacã) e alguns singles.
Como guitarrista Prince já acompanhou e gravou discos com outros artistas e bandas como Dub Stereo, Red Meditation, Radio Mundi, Moa Anbesa, Thiago Kalu, Pali e Daganja. Ele também integrou a banda IFÁ Afrobeat.
Leia mais sobre Pince Áddamo no Oganpazan e conheça melhor o trabalho desse reggaeman fundamental para a atual música baiana.
Gente Maldosa: a crueldade segundo Prince Áddamo
Prince Áddamo – Cartão Postal (2018)
Original Camacã e a luta ancestral contra a Babilônia
Prince Áddamo E O Seu Disco De Estreia Viva O Natural(2015)!
Carlim
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