SonoTWS, produtor, beatmaker e grafiteiro reuniiu uma turma de primeira e lançou um excelente album com Otra Fita(2021)
A valorização dos e das beatmakers desse nosso país é algo que tem crescido nos últimos anos, obviamente ainda longe do necessário, porém já há algo nesse sentido. E há que se notar que esse processo é singular, em um país que não valoriza músicos de modo geral. A música instrumental não é algo que receba em nosso país a atenção devida, mesmo tendo produzido gênios às pencas de Naná Vasconcelos à Oberdan Magalhães, de Pixinguinha a Paulo Moura.
Um país que não valoriza seus músicos, seus poetas, termina por carecer de um povo forte, consciente de si e de espírito aguerrido. Quanto mais desconhecedor de sua tradição, mais impossibilitado de caminhar rumo a um futuro progressista. No rap nacional isso talvez possa ser traduzido pela imensa desvalorização do boombap – um dos subgêneros rítmicos dessa música – junto às novas gerações. que ao desconhecer a “tradição” não percebe a imensa variedade musical que a música rap possui. Uma nova geração que geralmente se encontra refém das últimas novidades, impossibilitada de pensar – por conta disso mesmo – sobre aquilo que afirma gostar.
Em seu novo disco, SonoTWs não só produz uma coleção de faixas fantásticas, como vai além e nos mostra o que o Boombap ainda pode. Produzindo com muita qualidade um disco rico em possibilidades e que ainda consegue impulsionar uma uma reflexão sobre si mesmo. Otra Fita (2021) se afirma como uma das melhores oisa que tivemos o prazer de ouvir nesse ano infernal e caótico. O trabalho de SonoTWS é sútil como o de um escultor, e carece de letra para se sustentar, como toda música digna desse nome o faz. Porém, nesse novo disco o músico convida participações de primeira grandeza poética.
Desde 2013 lançando discos, beat tapes e afins, o produtor está afiadíssimo nesse último lançamento, e sem dúvida consegue produzir uma “Otra Fita”, esta junto com MC ‘s que nos apresentam verbalmente o que a música já aponta. A diferença de temas, a diversidade de perspectivas, a variedade de flows, a finesse dos samples e das batidas, as mudanças de tonalidades poéticas em cima dos beats, é um espetáculo para assistir de camarote, ou melhor, andando pelas ruas a pé, de carrinho ou de busão!
Enquanto o mercado tende a massificar e homogeneizar as expressões da música rap, já na primeira faixa Tiago Frúgoli já abre os trabalhos afirmando a singularidade de sua performance em “Um Em Um Milhão”. O sample safadinho de piano da abertura recebe na sequência de faixas uns violinos que criam a atmosfera trágica, onde Zorack narra poeticamente a “Inversão” que tem nos afundado numa cova comum enquanto país. Aquilo que falávamos acima sobre um povo que não se conhece é aqui muito bem exemplificado, por Zorack que nos mostra com veemência o quanto é fácil comprar uma massa facilmente manipulada em sua ignorância.
Contra esse estado de coisas, SonoTWS mete uma marcação com um sample de baixo e um beat rueiro que convoca o grande Jamés Ventura. A faixa “Irmãos de Tinta parte 2” nos aproxima da força do grafite e do pixo desses irmãos (beatmaker e MC que também riscam/pintam) e toda a força de subversão dessa expressão da cultura hip-hop. Dando continuidade aos trabalhos temos Bonsai na faixa “Sai Fora Pé Frio” em outra produça responsa, naqueles pique que nos faz mexer o pescoço involuntariamente..Supperbiro enfileira linhas auto reflexivas e políticas sobre o chão boombapeiro ricamente construído pelo beatmaker.
A lisergia afro toma conta da sexta faixa com o grande professor Rodrigo Brandão em “Aurora Boreal”, de ouvir chapando com o clima sonoro e psicodélico de um ds pontos altos de play. Um delicioso cruzamento entre rap e R&B chega junto com a Laylah Arruda que mantém o nível altíssimo do disco, nas rimas e com o plus de cantar Sem choque geracional, apontando pro futuro, sem frustrações fabricadas por fora, duas das mentes mais fundamentais do hip-hop nacional Kamau e Matéria Prima declamam musicalmente nos reafirmando que a tradição é sempre o futuro. O diálogo insone e a mente que sabe levantar problemas reais segue sendo o principal motor dos inquietos que produzem a arte que durará quando o sono eterno chega.
A utilização dos samples, as mudanças sutis ou não nas cadências, ao longo das 11 faixas que compõem Otra Fita (2021), fazem o disco do SonoTWS correr suave e com uma identidade única apesar das diferentes expressões poéticas. Zudizilla nos encaminha ao “Bom Senso” rimando com o excelente nível já conhecido, enquanto Elo da Corrente nos fortalece o “Espiritual” num beat quebradaço quase “coltraneano” onde dá aulas. Avante o Coletivo chegam na faixa “Enredo” que nos apresenta o roteiro de injustiças que as populações negras e indígenas sofrem em nosso país ao longo de toda nossa história.
A doçura encerra o disco, onde nILL nos apresenta rimas inspiradas nas vivências com sua sobrinha e a dificuldade de colocá-la para dormir. Um exemplo onde música e poesia se conjugam ao lúdico de um modo inaudito, belo, bem humorado e até um pouco melancólico. “Bicho Papão” fecha essa Otra Fita de modo exemplar, do que ainda pode o boombap, ou seja nos demonstra como a sua principal característica é a variação infinita.
Líricas, flows, batidas, samples são elementos manejados com artesania pelo SonoTWS. Provando para quem tinha dúvidas, que o boombap sempre volta, sempre renasce, independemente da ignorância alheia fruto da moda do momento. O boombap vive na cadência dos pensamentos mais loucos, mais sutis e mais subversivos da história do rap mundial, e se você não sabia disso, escute o SonoTWS.
-SonoTWS e o que ainda pode o Boombap!
Por Danilo Cruz
Danilo
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