Após quase 15 anos de caminhada, Sergio Estranho lança seu primeiro álbum solo, com feats do Matheus Coringa, 1LUM3, Rodrigo Zin e mais…
Quanto mais escutamos “O Idiota” seja em sua versão pixelada ou em HDMI, mais notamos como Sergio Estranho é daqueles artistas que realmente possuem algo substâncial para dizer. O nome já entrega: “Sérgio Estranho”, e a sua arte não faz questão alguma de dourar a pílula, o underground para ele é uma postura existencial e constante busca estética para o MC e beatmaker paulista.
Com uns 15 anos de caminhada e algo em torno de 11 de carreira fonográfica, Sergio Estranho é um dos grandes nomes do Hip-Hop brasileiro que se diferencia por lutar uma guerrilha sem intenção alguma de vencer, se colocando intencionalmente à margem, acampado confortavelmente ao pé da montanha almejada pelos alpinistas sociais do rap. Neste território que ele ocupa ao pé da serra, não haverá violão e fogueira, mas com certeza ele estará assistindo alguma edição de A Fazenda, ou um clássico contemporâneo do cinema hollywoodiano como o “Cara cadê meu carro”.
O percurso da carreira do Sergio é uma aula literal, seja por trabalhos lançados ou mesmo pelos que nunca viram a luz do dia. Afastado-se com leveza e plenitude do público médio do Rap brasileiro. Em seu início de caminhada na cultura Hip-Hop, ele fez parte do grupo Morlockz, mas nunca lançaram a excelente mixtape, gravada. Este trabalho apócrifo é uma não-certidão de nascimento duplamente certeira, pela proposta e pelo não lançamento. A mixtape está disponível no soundcloud e nunca foi mixada e masterizada, tá lá crua, como uma carta de intenções nunca enviada, apenas sendo, como a sua própria arte e forma de ser.
Após esse período, que vai de 2011 à 2014 como um dos “mutantes” que realmente vivem no “esgoto”, vem a fase “empreendedor” com a fundação do Rancho Mont Gomer, estúdio e coletivo do qual faz parte até os dias atuais. Com a turma do Rancho Mont Gomer, Sérgio Estranho lançou duas mixtapes: “A Procura da Batida Rancheira, Vol. 1 e 2 (2017/2018). E neste mesmo 2017 soltou “1h2min” de rap da melhor qualidade na clássica obscura “Luan Santana Mixtape”.

De lá para cá, são muitos episódios icônicos curtidos por uma audiência privilegiada, que viram, ouviram e curtiram dezenas de singles, mixtapes e beattapes. Destacando-se aí, a sua carreira como ator em “Busca do Amor”, emblemático programa do João Kleber, na Rede TV. Aqui, um dos elementos constituintes de parte das referências à cultura de massas que o MC e produtor utiliza bastante em suas composições, seja através da utilização de memes, programas “trash” da TV aberta ou mesmo parodiando nomes de ídolos da indústria musical.
Mais recentemente, veio à luz o projeto “Rap Delivery”, grupo formado por Sérgio Estranho, domrafa, 1cort3 e 82. O grupo surgiu no período da pandemia da Covid-19, e em um momento histórico cultural, onde projetos coletivos estão basicamente extintos do rap brasileiro em prol de um protagonismo individual cada vez mais meritocrático. Na altura do lançamento do disco “Rimas para Viagem” em 2022, escrevi uma resenha sobre, e você pode ler aqui.
Toda essa trajetória nos traz ao “disco mais humilde do ano”: “O Idiota”. Onde Sergio Estranho com o seu primeiro disco solo, trabalha questões muito caras ao espírito coletivo presente hoje em nosso país e nos artistas, mídias e público do rap. Um artista muito experimentado – como se pode notar acima – dentro da história recente do rap no Brasil, dentro de uma lógica própria de muito desprendimento, compôs um trabalho em “rimas e batidas” onde a “ingenuidade” é elevada ao que de mais genuíno seria possível hoje.
Lançado em dois movimentos: “O Idiota: Ato I” (o EP pixelado) e “O Idiota: Ato II (Deluxe HDMI)”, Sergio brinca também com os formatos consagrados no mainstream, por isso o Ato I traz 6 músicas e o Ato II traz essas mesmas junto à outras 7, totalizando 13 faixas em HDMI – o que pode ser constatado nas capas. Essa piada semiótica é parte do pacote que o beatmaker e MC entrega ao mundo.
Para muito além desse formato e desta campanha de marketing brilhante – “O disco mais humilde do ano” – a estreia do Sergio Estranho em disco com “O Idiota: Ato II (Deluxe HDMI)”, traz feats de nomes essenciais do under brasileiro como 1Lum3, 1cort3, os baianos Dieguito Reis, Matheus Coringa e Laiaboy, Erickillaz, Eloy Polêmico, Pizzol, Rodrigo Zin e Altamente 82. Em um disco conceitual que joga com dois sentidos para o adjetivo Idiota, em sua face ética e política e é aqui que a ingenuidade é de fato potência autêntica, logo genuina.
Longe de ataques através de Diss, Sergio Estranho brinca com nomes consagrados da Indústria: “Sé Jantiago”, “Sidoka Velho” ou “FBCergio”, são alguns exemplos. Quando cita nominalmente MC’s, ele apenas constata: a inspiração provinda da influência do Parteum, ou o apoio fascista do Shawlin ao Bolsonaro. Mas do que induzir, Sergio nos mostra a artificialidade do jogo, que é sempre nos apresentado como regras naturais, como valores negociados na bolsa da Indústria cultural, porém sem real aplicação prática – por sua intrínseca natureza virtual e, no limite, artificial.
Ao contrário da maior parte dos seus pares do rap no Brasil, a direita ou à esquerda, ele não posa como vencedor, defensor dos mais fracos, evoluído, revolucionário, rico, etc… Ele é O idiota do título. Inspirando-se aqui em um dos poucos livros que leu na vida – Sergio Estranho é um não-leitor confesso – ele busca no Míchkin, o personagem central do clássico do russo Dostoiévski, uma figura conceitual para o seu disco. Sua grande sinceridade é rir de si mesmo, algo bastante raro no campo lírico do rap no Brasil, mas também nos injetando compaixão diante do “game”, e nos fazendo rir do teatro de ilusões da indústria cultural assumido pelos cultores de celebridades.
Dono e rei em seu próprio quarto, fumando maconha sem parar e zerando animes e mangás, Sergio Estranho cultiva a nobre arte da rima de um modo que não existe igual no nosso cenário. É um esteta e dono de um estilo único no rap feito no Brasil, mesclando humor surreal com valores fora de moda. Como beatmaker ele transita pelo Trap, pelo boombap, música eletrônica e por beats mais experimentais, extraindo o que de melhor e mais empolgante cada sonoridade tem para fortalecer suas ideias líricas, criando paisagens sonoras adequadas para suas vinganças, contra-efetuações às suas/nossas questões.
Diante de uma realidade tão difícil, que nos apresenta tantos obstáculos em todos os níveis de nossa existência, Sergio Estranho nos traz a “Ira do Homem Gentil”, talvez o melhor rap que eu ouvi esse ano, pouco importa. Fuga, desistência, desengajamento, abrir mão, assumir a derrota antes do fim da partida, são as fúrias deste poeta. Onde a ambição corroi tudo hoje, e diante de tanta gente inteligente, tão bem informada, com tantas militâncias revolucionárias, tão bem controladas e monetizadas, Sérgio Estranho é um farol apagado, e por isso mesmo importantíssimo.
No mercado da música, sua banca está vazia, ele não tem “guia” alguma, sem capital de giro, deitado entre as prateleiras, sem investidores, mas tem muita poesia e música, muita rima e batida, sua própria política e uma ética incomum. O Idiota faz muito jus a sua carreira, como album de estreia, mas certamente está muito aquém de 90% do rap brasileiro atual e sobretudo além de qualquer forma de cooptação.
-Sérgio Estranho lançou seu primeiro album: “O Idiota”, o disco mais humilde do ano!
Por Danilo Cruz
Danilo
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