Sant & Diomedes Chinaski estão mais Brabos do que nunca num single do rapper carioca que nos levou a sentir/pensar o significado de disputa!!
Existe dentro da cultura rap uma noção de disputa que é de certa forma anterior ao próprio rap e a cultura hip hop ao sublimar a violência, não concluiu o serviço todo. É sabido como grafiteiros disputavam espaço pela Nova York dos anos 70, como as gangues territorializavam e controlavam sua área com mão de ferro. Mortes e uma juventude engajada numa guerra sem sentido, onde iguais se digladiavam por migalhas e pintavam o cenário que o sistema sempre necessitou pra manter sua hegemonia.
A história todos conhecem, a violência foi transformada em arte, as lutas viraram danças. Os insultos e a necessidade de auto afirmação à custa da aniquilação do outro se transmutou em tirações poeticamente bem elaboradas. No entanto, essa sublimação da violência, essa sua transformação em arte não acabou com o ciclo de violência de onde o sistema político e econômico no qual vivemos retira suas formas de controle. De certo modo o tornou vendável, “sintetizou” as disputas, tornando-as mera mercadoria, o que as levou novamente a disputa. Novamente violentas, e outras baixas foram sentidas dentro da história do rap, por conta de uma luta por mercado. Certamente outros fatores contribuíram para isso, e aqui estou de algum modo resumindo e simplificando a questão.
Se você teve o prazer de falar ou trocar uma ideia com o carioca Sant em algum momento, sabe que apesar da pouca idade, o garoto possui uma visão de mundo e uma postura que é difícil de encontra em outros da mesma faixa etária. E foi essa a sensação que tive quando o encontrei aqui em Salvador ano passado por conta de sua passagem na cidade para um apresentação.
Ao ouvir Brabos, pensei, levando o título em consideração que provavelmente se trataria de mais uma sequência de braggadocios e talvez ataques. Tática que hoje se tornou bastante comum no rap nacional. Para ajudar nessa minha impressão inicial corroborava a participação de Diomedes Chinaski – Ego trip Man – pois já é sabido que o mano pernambucano possui um funerária. E então qual não foi minha surpresa ao ouvir o single ao perceber que a afirmação que os versos nos trazem, é a afirmação da necessidade de pensarmos a cada dia nossos proprios destinos.Em afirmarmos a necessidade de estarmos em paz com nossas caminhadas. Em sabermos o quanto é preciso refletirmos sobre o nosso compromisso com a cultura. Nossas perspectivas, as nossas intenções e influências em declarações públicas, por onde pisamos e o porque dessas escolhas.
A coisas mais fantástica que o rap nacional nos legou e que certamente nos legará será a necessidade de pensarmos. O que não retira o mérito de quem propõe outras perspectivas, mas o sublime dentro da arte do rap brasileiro será sempre o enfrentamento. De nossas limitações, de nossas inseguranças, de nossas bobagens, da necessidade de construirmos um futuro melhor para todos e assim alcançarmos uma outra nação. Outra elevação espiritual e social em momentos onde rappers passam pano pra ditadura militar, pra “golpe democrático”.
É preciso sobretudo entender, de onde vem a Verdade – noção complicada – de cada um, o que motiva aquele mc, e se isso pode nos levar ou nos fazer sentir algo em determinado momento. E o quanto isso é pernicioso ou não dentro de uma cultura que se pretende transformadora.
Aqui nessa track temos dois dos melhores rappers reais dessa geração, caminhadas distintas e formações também distintas. Mas que nos legam uma pedrada plena de excelente reflexões, embainhadas em excelente técnica. Embainhadas por que não apontam, tanto Chinaski quanto Sant, falam-nos verdades sem aponta, numa espécie de ataque a si mesmos, como um exercício de introspecção pura.
A lírica, as multi-silábicas a qualidade poética, a produção sinistra de Dj LN, tudo isso termina sendo secundário, diante do peso das palavras e sons transformadas em música. Nos restando escrever divagações e ouvir uma e outra vez de onde vem e para onde vai a nossa brabeza.
Esse dois são Brabos demais e como eu divaguei demais deixo abaixo a ficha técnica dos outros grandes profissionais que participaram da realização dessa pequena pérola.
Ficha Técnica:
Produzido por DJ LN
Captação por Johnny Monteiro, Thiago Honorato
Mixagem e masterização por Luiz Café
Direção de arte por Gabriel Camacho
Artwork por Finho
Motion graphic por Nathan Ferreira
Danilo
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