Rilex se desdobra em quatro distintas performances sonoras nessa Cypher que coloca a base contra os opressores.
A chypher é um formato interessante. Por ser uma expressão coletiva de um som onde se convergem pensamentos, percepções e anseios em comum. A criação coletiva feita por várias mentes, realizada por vários MC´s, fortalece cada qual individualmente e ao mesmo tempo passa a mensagem de que o hip hop é fortalecimento coletivo, não um trampolim para catapultar carreiras solos. Produzindo o isolamento de pseudo rappers em suas torres de marfim, postas como altares para se cultuar falsos ídolos, cujos egos necessitam da pagação de pau para manter o nível de soberba e vaidade sempre em níveis altos.
Essa articulação se fez pelas mentes afiadas de Sonâmbulo, Bob Carcará do Sertão, Bhigg Mc e Brendim Mac, quatro rappers batalhando por mostrar seu trampo e expor as feridas abertas de nossa sociedade. O beat pesado, marcado pelos graves que imprimem uma dimensão dramática aos versos erigidos a partir dele, impõem uma tensão ao ouvinte. Tensão essa produzida em duas frentes, pela palavra e pela música.
Estamos diante de mais uma prova da força do rap baiano vinda do interior do estado. Bob Carcará do Sertão, Bhigg Mc e Brendim Mac são de Maracás, no Vale do Jequiriçá, e afirmam suas raízes regionais no balanços dos versos que desembolam a cada novo trabalho lançado. Sonâmbulo, natural de Curitiba, consegue se entrosa bem com os demais Mc´s tornando o som mais vertiginoso.
Existe uma aparente contradição entre o título da música e seu conteúdo. Contudo, os rappers dão um novo significado para a expressão Rilex, já evidenciada na mudança de sua grafia. Aqui rilex não significa baixar a guarda e relaxar, mas estar ligado quanto ao perigo à espreita. No refrão percebemos essa re-significação: “Estou mais do que rilex com meus inimigos”.
Talvez ainda signifique estar de boa quanto aos inimigos por já saber quais seus planos, suas intenções. Nos versos fica bem claro quais são esses inimigos, ocupantes de posições de poder na sociedade, sempre articulando estratégias de dominação e exploração da massa trabalhadora. Essa consciência acerca da condição de oprimido nos é apresentada logo no início do refrão: “Por toda minha vida vou ser perseguido”.
Importante ver que o rap mantém viva sua força contestadora e revolucionária. Vivemos tempos que exigem conscientização para identificar o real inimigo para construir em conjunto meios de nos defender e mais importante, atacar. Estejamos atentos aos trabalhos feitos nas periferias, nos interiores, nos vales e sertões, pois é de lá, onde a opressão se faz sentir mais latente, que virá a resistência.
Carlim
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