Diante do espaço alcançado por mulheres do Rap nacional (Rap Feminino?) no mercado musical, algumas questões ainda precisam ser debatidas.

Quando pensei no que estou prestes a escrever confesso que jurei não estarmos prontos para essa conversa, mas defendo que são justamente as conversas que não estamos prontos para ter que se fazem necessárias de encarar. Então lá vamos nós: por de trás do termo, tão discutido recentemente nas redes sociais, “rap feminino”, existe um forte estereótipo do ‘’ser mulher’’ dentro do rap nacional.
Independente do lado que você esteja desta discussão: o lado daqueles que acreditam que a caixa exista ou o lado daqueles que pensam que rap é rap e ponto final e sendo assim o termo é desleal e inapropriado, há também uma faceta perigosa e não admitida neste assunto popular no cenário do rap atualmente e que se faz mais popular ainda em decorrência do mês da mulher.
Esta faceta não encarada da discussão é a diferença exponencial entre o que chama-se, ou não, de rap feminino e o rap feito por mulheres, o plural de mulher se coloca como o início da discussão. Talvez seja óbvio dizer, mas as mulheres e suas mulheridades são diversas, múltiplas, muitas. E não é de hoje que se questiona em vias de debate sócio e antropológico o que é afinal ser mulher, definitivamente não sou eu a dona de tal resposta, mas sei que isso não está nem próximo do que a indústria fonográfica decidiu veicular em vozes femininas dentro do mercado do rap nacional. Não são todas as mulheres que são contempladas dentro do espaço que tem sido aberto, isso não diminui a importância dele, contudo seria uma espécie de cegueira ideológica acreditar que as coisas estão mudando da forma que precisam e deveriam.

Há realmente, inevitavelmente e indiscutivelmente uma crescente dentro do mercado fonográfico do rap no Brasil que tem dado mais espaço e visibilidade para as mulheres, mas isso sobretudo não significa que a gama da representatividade feminina seja contemplada por essa crescente. Devo frisar aqui a diferença do que chamo de mercado pro que é, de fato, o cenário do rap nacional. Contudo, não se quer admitir que há, sim, uma limitação das temáticas permitidas para que as mulheres sejam reconhecidas por uma parte significativa do público e da indústria musical. Isso não quer dizer que o que se escuta ser pautado nas playlists editoriais destinadas ao chamado, ou não, rap feminino, não é válido ou necessário, o que eu gostaria de salientar neste artigo é que ainda se limita o que uma mulher pode ou não pautar, para ter notoriedade ao fazer rap, como ela deve ou não ser para alcançar as graças do público médio de rap e os holofotes midiáticos. O que antes era um espaço reservado apenas para músicas de amor em colaboração com homens ou refrões melódicos agora é, em suma maioria, sexualidade, rivalidade feminina ou ostentação, e isso não é um problema, é apenas onde encontramos a limitação. É salvo aqui que a negritude das meninas brasileiras, o empoderamento e a liberdade também são assuntos em alta, isso é em extremo revolucionário mas não necessariamente tem amplo engajamento e compreensão de quem consome. Vale dizer que nenhum tipo de abordagem aqui é errônea ou desnecessária, muito pelo contrário, o que ocorre é que há uma exclusão de outras possibilidades de debate, sonoridade ou de outras formas de abordar estes mesmos assuntos em alta. Parece haver uma proibição de certas profundidades e reflexões mais filosóficas da vida, que nunca foi negada aos homens do rap nacional. E resta uma fórmula secreta não admitida de como entrar em playlists e viralizar no tiktok.
Por isso tenho notado que as listas, posts, vídeos e divulgações das mídias, produtores de conteúdo e plataformas não acolhe toda a diversidade de mulheres que fazem rap nacional, pois há um critério pré estabelecido do que é aceito, ou não, como rap feminino, nós queiramos ou não, deixamos de fora assim uma parte expressiva do rap produzido e protagonizado por mulheres no Brasil. As coisas são mais do que o algoritmo oferece e como ampliar isso, é um desafio que precisamos encarar coletivamente.
Eu gostaria muito de dizer que todo espaço conquistado por mulheres no mercado da música é válido, mas como mulher, negra, periférica, e às vezes rapper, ainda não alcancei a conformação com a conquista parcial das pautas que me atravessam. Sendo assim, trago aqui, com toda a humildade que me cabe, uma seleta de rap nacional feito, com excelência, por mulheres que não protagonizam, ainda, as listas de março, as graças do algoritmo e as trends do público.
- Tamara Franklin – Para Não Me Contaminar, faixa do álbum de 2015 intitulado Anônima, onde a rapper descreve sem economizar lírica uma coragem urbana e feminina extremamente necessária. Passando das relações interpessoais, reflexões filosóficas sobre a cidade, a sociedade, a periferia, seu corpo e o que observa no entorno e dentro de si.
- Negra Li – Fake, trazendo uma discussão sobre as redes sociais, o status quo, a hipocrisia da sociedade, a faixa do álbum O Silêncio que Grita, 2025, tem versos ácidos e refrão emocionante.
- Colombiana – Mãe de Menina, a artista dialoga com sua filha ao longo da faixa, advertindo e ensinando com objetividade e transparência as dores que ser mulher reserva para nós, um debate necessário que pode salvar e proteger nossas meninas ao longo da vida. track de 2026.
- Sé da Rua – Saia da Cyclone, no rap lançado em 2025, a artista versa sobre a vida urbana na ótica periférica, fala de si e do seu entorno, deixa claro porque é da rua, destila maldade e vivência numa faixa ácida e quente, rap!
- Valente – Romaria à Lira, rap presente no álbum Muitas Mortes Inteiras Pra Uma Vida Pela Metade, 2025, aqui sem poupar poética, Valente discorre de forma rica seu sentimento de amor pela filha, as transformações que a maternidade provoca, as belezas e as dores do mundo encantado que sobrevivem juntas.
- Maria Preta MC – Armadilha, track de 2026 que também tem um videoclipe lindíssimo, aqui a rapper se apresenta de forma atual e ancestral, cheia das malícias que se aprende nas ruas mostra quem é, reflete sobre a vida em urbana, homenageia os povos originários, e firma seus pés na luta por uma vida melhor, mais justa e igualitária com reconhecimento de quem é e de onde vem.
- A-Ka – Nunca Vou Viver O Amor, 2024, essa faixa é praticamente um ensaio, digno de bell hooks, sobre o amor destinado às pessoas racializadas, sobretudo as mulheres pretas e faveladas, aqui ela admite suas carências, reflete profundamente sua dor, sua caneta não esconde a fragilidade e isso denota uma força partilhada por muitas.
- Killa Bi – utópico, uma verdadeira canção de amor, com toda poética que se pede, com toda melodia que se deseja, literalmente, já que se sente o desejo, o encanto, uma paixão amorosa, ancestral e certamente libertadora.
- Alra Alves – Alma com R, faixa de 2025 que dá nome a um álbum inteiro, é uma perfeita faixa de abertura, Alra se apresenta com teor filosófico, reflete sobre si mesma ao passo que se apresenta e abre alas a um projeto cheio de lírica e acidez.

É óbvio mas deve ser dito, a seleta não chega mesmo nem perto de contemplar todas as mulheres que eu gostaria, mas é de forma honesta uma proposta para fugirmos do algoritmo e expandirmos nosso conceito do que é rap nacional feito por mulheres. Um fato histórico que a indústria veicula quando quer. Mulheres sempre estiveram e sempre estarão quebrando tudo no ritmo e poesia feito no Brasil, e eu espero que cada vez mais e com mais pluralidade.
Um expressivo abraço a todas que constroem o rap nacional, não só em março, mas desde sempre e adiante, independente do quão dificultoso é.
-Rap feminino e o esteriótipo não assumido – Artigo
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