O som que sai das caixas precisa atingir o ouvinte, como um texto que não faz o leitor parar de passar os olhos pelas linhas, como um filme que não tira o foco do telespectador ou como o estouro do cronômetro dentro de um jogo de basquete. Aqueles milésimos de segundos onde o que mais importa é a bola que está no ar e precisa cair na cesta.
Todos esses são momentos em que você não sabe qual será a próxima reação. São segundos em que você não tem um chão debaixo de si e é, exatamente nesse frio na barriga, justamente a base dessa sensação que, a primeira vista espantaria qualquer artista, que o Portishead gosta de viver perigosamente. Com os ingleses cada nota é valorizada e, para ela sair a perfeição, tem que servir de parâmetro o som dessa reunião de mentes que consegue criar o novo; deixá-lo abstrato, nomear significado e ainda cumprir a tarefa inicial, fazer diferença no mundo.
Line Up:
Beth Gibbons (vocal/guitarra)
John Cornick (trompa)
Geoff Barrow (bateria)
Dave Ford (trompa)
Adrian Utley (moog/guitarra)
Will Gregory (trompa)
John Baggot (teclado/piano)
Ben Waghorn (trompa)
Clive Dreamer (bateria/percussão)
Jim Barr (baixo)
Andy Hague (trompete/trompa)
Nick Ingman (condutor e arranjador da orquestra)
New York Phillarmonic (orquestra)
Track List:
”Humming”
”Cowboys”
”All Mine”
”Mysterons”
”Only You”
”Half Day Closing”
”Over”
”Glory Box”
”Sour Times”
”Roads”
”Strangers”
Aqui as sinapses se conectaram de uma forma nunca antes vista. Primeiro porque as músicas do Portishead em estúdio já eram absurdamente complexas pelas camadas e camadas de samples e partes tocadas, segundo porque o segredo da banda é a atmosfera, pois ninguém grita em um show desses caras. Existe o apluso entre as faixas, mas jamais durante, ou seja, faltava equacionar a densidade sonora novamente, deixar o culto a par do nirvana que antes era eletrônico e, agora, seria orquestrado.
E quando isso foi feito e, o material sob o palco chegou a impressionante marca de 50 pessoas, era hora de encontrar um local para abrigar o evento. Foi quando o Roseland Ballrom caiu como uma luva e o resto é história e a música, um exemplar de raríssima qualidade. Que começando com ”Humming”, ”Cowboys” e ”All Mine” (grandes hits do debutante ”Dummy”), deixam os telespectadores e ouvintes plenamente aclimatados a esta nova atmosfera de sentimento retumbante, de um instrumental rico e um sentimento que quase dói.
Tema após tema nossos ouvidos são desconstruídos, é uma performance absurda atrás da outra, e o incrível é o que a banda fez com tão pouco conteúdo, afinal de contas eles só tinham dois trabalhos na bagagem. E isso parece não ter significado nada. A elaboração dos arranjos recriou takes como ”Mysterons”, ”Only You” e ”Half Day Closing”, só que em NENHUM momento essa parede de notas orquestradas abafou o trio principal, especialmente a porta voz disso tudo: a fantástica Beth Gibbons e sua voz que sente e acalanta cada nota,
É um momento que todo mundo anseia viver para poder contar aos filhos, aos amigos… Uma passagem de tempo que para ser traduzida em palavras leva anos! Escuto faz uma década e ainda não sei como relatar tal fato. O que sei e o que sinto é que toda vez que aperto play nesse som é como se ficasse de joelhos, como se o oxigênio que faz minha mente funcionar dependesse das notas dessa faixa e, que sem ela, tenho um colapso. Quando tudo chega ao fim, volto para a realidade e quando se escuta Portishead isso é o que seus ouvidos mais temem: o retorno a vida em silêncio, embalada à vácuo e ar… Ainda bem que existem balões de oxigênio.
Matérias Relacionadas
Assine a nossa Newsletter
*Conteúdo exclusivo direto no seu e-mail
No ar!
Samba Bedetti
Felipe Bedetti já lançou seu terceiro álbum, mas aqui vamos falar do single “Samba Gerais”, uma música que indica novas aspirações do jovem compositor mineiro. A essa altura do campeonato, o novo álbum do cantor e compositor mineiro Felipe Bedetti já está batendo em tudo…
Os Passarinhos carcomidos do Orelha Seca
Orelha Seca, banda soteropolitana cheia de ódio desse mundo fabricado antes da gente nascer e onde a gente só se fode lança o Ep “Corvos, Abutres e Pardais”, que é pra você ter certeza que estão te fudendo, e não é de um jeito gostoso. …
Killa Bi em “É Nosso Tudo O Que Eu Olho”, a expertise de uma grande MC
Em seu disco de estreia, Killa Bi mostra-nos por que é uma das grandes MC’s surgidas no Rap brasileiro nas últimas décadas, “É nosso Tudo O Que Eu Olho” Nos últimos 6 anos, o nome de Killa Bi se tornou obrigatório para quem está atento…
NEGGS & YANGPRJ, arte e cultura Hip-Hop piauiense expandidas e renovadas, e agora?
Após 3 discos lançados, NEGGS & YANGPRJ expandiram e renovaram a arte e a cultura Hip-Hop piauiense, “Libertador part. II, o fim de um ciclo! Em seu último movimento, a dupla de artistas piauienses NEGGS & YANGPRJ, lançou o disco “Libertador part. II”, no final…
Zadorica e a sua “Sina”: “o Rap ninguém me apresentou, ele aconteceu” – Entrevista
Entrevistamos a Zadorica, MC e produtora que acaba de lançar o seu disco de estreia: “Sina”, para você saber melhor sua caminhada e ideias! A agência entre formação pessoal e desenvolvimento artístico não opera por causalidades, a todo um trabalho de “reflexão” – flexionar para…
Tigran Hamasyan: folclore, erudição e improviso – o escape para encontrar a liberdade musical
Tigran Hamasyan é um pianista armênio, que conseguiu atenção mundial quando sua interessantíssima visão sobre música folclórica, clássica e improvisação começou a receber atenção do público e das grandes gravadoras. Sempre registrando projetos por selos proeminentes, principalmente do mercado europeu e norte-americano (como Nonesuch Records…
A revolução que vem de Rondônia,o MC kami lauan é o “tTrazedor de Notícia Ruim”
Com dois discos lançados em 2025, o rondoniense kami lauan chega com “tTrazedor de Notícia Ruim”, um disco fora da curva! kami lauan e o seu disco “tTrazedor de Notícia Ruim” é um acontecimento para o rap nacional em 2025. Se você acompanha de fato…
“Tertúlia” de Galf AC & DJ EB, lírico e rítmico, a música e a poesia Rap – Entrevista!
Com muitas participações, Tertúlia de Galf AC & DJ EB é um disco raiz do rap nacional com uma roupagem atual e consistente! Um dos grandes discos do ano até aqui, “Tertúlia” contém 11 músicas e diversas participações de nomes como Rodrigo Ogi, Ravi Lobo,…




