Obi’ Ebó – O Peso do Metal (2018) Em louvor de Ogum, projeto chega com um clipe que traz toda a força simbólico/musical de herança africana
O projeto Obi’ Ebó soltou nas ruas seu segundo despacho músical e poético, dessa vez acompanhado de um videoclipe bem produzido, dando continuidade ao seu projeto de resgate e combate. Resgate da cultura negra em diaspora, através da utilização do simbolismo do candomblé, combate ao racismo religioso mas também, às mais diversas violências que as subjetividades e os corpos negros sofrem.
Se você tem os ouvidos voltados ao hype, e ou segue apenas as recomendações pagas dos diversos serviços de streaming é provável que não tenha visto que os caras estrearam o projeto com a excelente Aquilo Que Não Morre (2018). Formado por Rone Dum Dum e Lazaro Erê (Opanijé) Tauamin Kuango (Afro Dendê) e Besoro, o projeto chega no segundo lançamento trazendo dessa vez uma música com o Orixá Ogum como tema central.
Visando homenagear os Orixás e seguindo a ordem em que os mesmos são cultuados, o Obi’ Ebó consegue pela força mesma de sua qualidade, mas também pela riqueza simbólica presente nessas entidades, atualizar elementos importantes de nossa cultura. Em O Peso do Metal (2018), os caras fazem excelente cruzamento entra os atributos de Ogum e os signos musicais e audiovisuais apresentados.
A começar pelo beat, produção de AquaHertz, que ficou também responsável pela produção audiovisual, o simbolo do metal é tratado em suas variadas formas. Seja no beat que incorpora um riff pesado, seja no cenário escolhido para o clipe, que coloca os mc’s dentro de uma oficina mecânica.
Ogum, orixá que possui diversos atributos presentes na cultura hip hop é aqui homenageado e atualizado de modo exemplar pelos versos de Rone DumDum, Lazaro Erê e Besoro, ficando Tauamin Kuango responsável pelo potente e pedagógico refrão. Nesse mesmo refrão nos é apresentada a filiação de Ogum, filho mais velho de Oduduwa, fundador de Ifé. Orixá do ferro e da técnica, apesar de ancestral está ligado aos aspectos mais presentes dentro do Rap: tecnologia e combate.
O Senhor do Ferro, conquistador e lutador implacável, é um excelente signo para pensarmos as relações da cultura hip hop com a cultura afro brasileira. Cultura essa que através do racismo religioso, precisou se esconder no sincretismo, sofreu perseguição oficial por parte do estado, e infelizmente ainda sofre hoje, através do fundamentalismo neo-pentencostal.
Dito isso, Ogum é aqui após Exu, o Orixá homenageado pelo Obi’Ebó, num momento em que o racismo entre outros procedimentos fascistas reemergem com força do chorume da nossa herança escravocrata. Se constituindo assim, O Peso do Metal (2018), numa força musical, religiosa, politica e guerreira, forte o suficiente pra inspirar a cultura hip hop ao enfrentamento dos perigos que nos ameaça a todos.
Não é atoa o combate às religiões afro descendentes, os senhores brancos sabiam que retirar a força espiritual de um povo, é o modo mais fácil de domina-los. E a cristianização de negros e negras, assim como dos nossos indígenas é e foi um dos caminhos mais sutis para a escravização mental.
Nesse sentido, esse trabalho de resgate e atualização perpetrado pelo Obi’Ebó, é de fundamental importância para a cena hip hop como um todo. A força dos Orixás será adubo e fundamanto de suas rimas e beats, e nos dois primeiros exemplos já percebemos a força desse lindo projeto, ao qual só resta-nos desejar muito axé.
Danilo
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