Pedro Salvador descarrega toda sua fúria em Traste, Ep que faz reverberar a raiva gerada pela atual situação política brasileira.

Desde o desfecho do golpe político de 2016, que depôs do governo a presidenta Dilma Rousseff, democraticamente eleita, nunca é demais lembrar, pondo fim ao curto período democrático, que ficou conhecido com A Nova República, iniciado com o fim dos anos de chumbo em nosso país, vivemos uma sucessão de episódios de pilhagem dos direitos sociais garantidos pela constituição.
Nossa carta magna tem sido constantemente desrespeitada. O atual governo, tendo à frente Jair Bolsonaro, não cumpre seus preceitos constitucionais básicos, ataca constantemente em seus discursos aleatórios as instituições democráticas, fomentando manifestações virtuais e reais pelo fim do Supremo Tribunal Federal (STF), pela volta da ditadura militar e do Ato Institucional 5 (AI5).
Bolsonaro promove a proliferação de um vírus que deveria combater, estimula as pessoas a desconsiderarem a gravidade da pandemia, desdenhando da gravidade do covid 19, classificado como “gripizinha” pelo excrementíssimo. Receita medicamentos ineficazes para combater o vírus, mas comprovadamente geradores de efeitos colaterais graves, entre os quais problemas cardiovasculares e respiratórios que podem levar a morte.
Reavivada sua memória de qual é o contexto que envolve sua atual existência, você já deve estar devidamente furioso, furiosa! No clima certo para captar a atmosfera de Traste, novo Ep do roqueiro alagoano Pedro Salvador (conheça melhor o músico nesta entrevista). Suas bandas Necro e Messias Elétrico revelam o gosto do guitarrista pela linguagem do hard rock, proto metal e rock psicodélico dos anos 60 e 70.
Traste faz uma conexão forte com esse universo sonoro, que fornece os elementos constitutivos dos arranjos das 4 faixas que compõem o Ep. São 4 faixas de diferentes compositores. Traste, música que batiza o registro é de autoria de um dos conterrâneos de Pedro que tem sua música no set list do Ep, Holanda Jr. O outro conterrâneo é Roberto Teodósio, que entra no álbum a partir da música Puro Pra Você. Ainda temos a faixa Cheiro de Gasolina, da bluesgirl carioca Carmem Cunha, da banda Carmem Blues além de Na Sujeira da Cidade Deixarei o Meu Penar Até Morrer composição do próprio Pedro Salvador.
Traste tem sonoridade cortante, revestida por elementos psicodélicos e “metálicos”, bebendo na fonte setentista, base referencial do compositor. O peso sonoro encontra ressonância no peso das letras das músicas, claramente dispostas a incendiar nossos sentimentos e acionar nossos instintos de sobrevivência diante de um quadro social caótico que coloca a vida das pessoas em risco.
O Ep abre com Traste, um dos termos apropriados para definir nosso atual presidente da república. O trecho abaixo expõe nossa atual condição política, sustentada por uma base de 30% da população, formada por viúvas da ditadura militar, tarador por borracha e botas militares, além de todo tipo de alienados que transferem suas responsabilidades civis a terceiros e anseiam por um pai disciplinador e autoritário que lhes digam o que fazer. Coisas do complexo edipiano.
Dá medo ver o traste fazendo das suas
Só se mantém de pé por ter sempre ao seu lado
Esse bando de tolos que o dá estrutura
Sendo esta a fonte de todas as mazelas que recaem sobre nossa sociedade, seria esperado que a população que sofre com as decisões e ações do traste se revolte. Contudo, passados mais de 1 anos e meio de declarações ofensivas, criminosas proferidas pelo presidentes dentre outros representantes do governo, somadas à ações que potencializam os flagelos que atingem a parte mais frágil social, política e economicamente da população, nada indica que haverá levantes populares no horizonte próximo. Por enquanto o inferno para o qual descemos vai ficar no completo breu por algum tempo.
Se vai ter embate a verdade é que eu não sei
Que leve a luz ao inferno onde descerei
Na sequencia vem Cheiro de Gasolina. Sua letra altamente inflamável é a metáfora do sentimento de fúria que consome a parcela da população ciente da sua condição e sedenta por tomar a história em suas mãos e botar o processo de luta em andamento.
Eu quero me vestir toda de preto
Tampar o meu rosto
Quero tomar de volta essa terra que é do povo
Ocupar o mundo
Eu quero revolução
Quero é tirar o poder de suas mãos
A faixa final, Na Sujeira da Cidade Deixarei o Meu Penar Até Morrer, serve-se de mais recursos literários pra criar uma percepção mais poética acerca do processo de enfrentamento da injustiça social que nos aflige. O título já trás uma imagem de resistência até o limite, e os versos constroem uma concepção coletiva de luta, apoiada no apoio mútuo, que gere a sensação de amparo.
Venha, me acompanhe, te estendo a minha mão
Olhe à sua volta, não saia da contramão
Eu estou chamando, mas não tenho onde ir
Estou caminhando nas brechas do existir
As faixas perfazem o caminho próprio das condições que levam à explosão de manifestações populares, culminando em uma alteração radical do quadro político e social de um país, seja lá qual for. Começa pela identificação do problema, a conscientização de que há um problema grave e que é necessário fazer algo. Passa-se a materialização dessa tomada de consciência através de atos ao longo das ruas. Molotov, pedras e fúria são as armas e o combustível necessário para tanto. Passa também pelo conflito pessoal de tomar a decisão de fazer algo, avaliar perdas e ganhos e se dá conta de que não há nada mais a perder.
Traste é a manifestação de um desconforto diante da situação em que nos metemos. A reunião de quatro músicas compostas por diferentes artistas que expõem diferentes perspectivas a respeito do mesmo problema. Pedro Salvador deu formas setentistas às músicas, servindo-se de elementos da psicodelia de São Francisco, um pouco do groove do funk e do r&b, acoplados no bom e velho hardrock responsável por marcar o rock naquela década.
Encerramos com a fala de Pedro sobre o álbum.
“De certa forma, “Traste” é uma continuação das explorações que fiz em “Glitch Witch”. Uma busca pelo equilíbrio entre agressividade e lirismo através dos caminhos sonoros do que se chamava antigamente “hardão setentista” – um amálgama de blues, funk, jazz e r&b tocado com instrumentos distorcidos em alto volume, a música negra do norte atravessando a eletricidade. Mas enquanto “Glitch Witch” foca, liricamente, nas fronteiras da percepção e cognição humanas, “Traste” pisa no chão com pés descalços. São canções urgentes, que transpiram raiva e frustração. A 3 primeiras, de Holanda Jr, Carmen Cunha e Roberto Teodósio, respectivamente, foram compostas há anos, no entanto dialogam perfeitamente com o Agora. E até que consigamos deter a marcha destruidora do capital sobre nossas sobrevivências e afetos, estas músicas continuarão poderosas e necessárias.”
(Pedro Salvador)
Carlim
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