Galf AC inaugura uma nova estação em sua carreira com seu segundo disco: Botando pra Ver Bicho part.1 (2021), previsão de fortes chuvas!
Acompanhar e muitas vezes re-descobrir elementos de uma caminhada artística no rap é um trabalho fascinante. Pegar o bonde andando, ou atacar o busu para dar aquele morcegão necessita de perícia e habilidade pois a queda pode ser até mortal. Galf AC é daqueles artistas que precisam de um olhar completo – ou pelo menos bem informado – para que se entenda diante do que se está presente. A forma como o MC presentifica sua poesia e seu flow, provém de uma formação muito diversa e extremamente singular. Do grind ao punk, como baterista e baixista, o MC explora no rap esse caleidoscópio de influências resultando numa lírica suja, agressiva e em cadências com uma musicalidade incrível.
Da mesma forma, o entendimento de momentos da vivência de um artista podem nos propiciar olhares onde o existencial e o estético, assim como o político e o ético presentes em uma obra se cruzam. Esse cruzamento nem sempre fundamental para o entendimento da obra, serve-nos por outro lado para enriquecermos nossa compreensão das linhas e da visão que o MC nos oferta. E nesse sentido, o segundo disco de Galf AC é um momento onde o artista condensa o que fazia na sua estréia Fragmentos de uma Mente Volátil (2016). Mas é bom que se diga, não há nesse processo de condensar tudo o que era volátil em sua mente, nenhum passo atrás, muito pelo contrário.
Como figura imersa na contracultura periférica, cena do grindcore, do rock e do rap, Galf AC acumulou uma produção magnânima, dispersa e nesse sentido o acesso a suas produções estavam picotadas por esses caminhos no vácuo da internet. Literalmente dezenas de feats com artistas do rap baiano, discos com suas bandas Fecal Feast, V.O.D. (Vomiting Organ Decomposition), mais recentemente Ivan Motosserra e Aplastar. Além de discos e singles com as bancas UGangue e Fraternidade Maus Elementos, estão em seu currívulo, mas que poucos sabem ou tiveram a oportunidade de ouvir, ver.
Essa imensa quantidade de produções acompanhava um modo de vida desregrado em todos os sentidos, o que começou a mudar com o Projeto Vapor junto ao seu parceiro Gil Daltro. Ironicamente, esse “vapor” agora começa a se condensar em suas plataformas de streaming e já dão sinais de que o tempo indica fortes pancadas de chuva, que certamente representam essa mudança de estados no corpo e na mente do artista. Enquanto essas águas caem dessa nuvem negra em movimento constante, as mesmas limpam as “ruas sujas” e são capazes de nos purificar, arrastando toda a sujeira dele e nossa.
Sem moralismos escrotos e empobrecedores da vida e da arte, Galf AC soltou o pesado Botando pra Ver Bicho part. 1 (2021) dentro de uma estética prioritariamente boombap contando com 7 faixas. E como dito acima, o que podemos ver é uma coleção de faixas que em sua junção conceitual propõem a re-pensar os temas que já lhe são caros desde sempre. Times que jogam bem mas nem sempre possuem objetividade necessitam “de um para pra acertar”, e é isso que Galf AC fez com primazia, reafirmando os valores que sempre cultivou, porém agora buscando regá-los e adubá-los com as águas e nutrientes necessários.
A faixa de abertura já nos apresenta uma pedrada totalmente ancorada na melhor tradição da relação frutífera entre as localidades da CBX (Galf AC) e Saint Keith California aka Brooklyn de Salcity aka São Caetano (Alladin), para a história e a forte tradição do rap baiano. “Alquimista” traz um beat do Gil Daltro, onde os MC’s Galf AC e Alladin transmutam uma série de problemas que atravessam os nossos tempos em obra de arte. Mostrando-nos como ainda hoje e cada vez mais, ao contrário do que pregam os incautos, o rap possui uma força de embate necessária principalmente e inicialmente no plano individual, já que o “coletivo” tá vendido e amarrado no virtual mercadológico.
Trazendo um beat do Quavase, beatmaker de Florianópolis onde o disco foi gravado, “Ghetto Sensei”, apresenta o MC num cenário poético pelo “socius” diagnosticando os diversos problemas que afetam esse corpo. Trazendo a certeza que a arte cura, que o hip-hop é ainda resgate possível de quem está à margem, Galf AC destila na faixa toda a sua variedade lírica e vocabular, com um flow sujo e citando referências incomuns. O beat do Quavase é sombrio e cria o clima perfeito para um samurai preto demonstrar toda a sua qualidade com a katana poética.
A riqueza das visões da Urbe que Galf AC nos oferece é a de quem de diversas formas seguiu rompendo as “blitz” visiveis e inviseis, políticas e simbólicas que determinam as vivências de jovens negros periféricos. E como filho da rua “Belamita (I Love CBX)” prod. Gil Daltro, nada como partir daí para produzir visões poéticas numa pegada gangueira já conhecida e admirada do artista. Parceiro do MC, Gil Daltro tem construído um fluxo de produções fenomenal e diversificado, seja nos beats ou nas linhas o MC e produtor tá na bruxa nos últimos anos. “Não Vê Nada” é uma parceria entre Galf e Gil onde o mote da track é exatamente sobre se afastar dos olhares maldosos dos conspirão e seguir trampanado, neste caso em alto nível.
A diversidade temática é uma outra qualidade presente em Botando pra Ver Bicho part;1 (2021), e as duas faixas: “Pode Castelar” e “Talismã” são a prova cabal e muito bem produzidas, disto. O beat criado pelo Gil em Pode Castelar é musicalmente evocativo, e diante dessa provocação Galf preenche o grito do sample com visões da cidade de Salvador, suas belezas na cidade alta, na cidade baixa, num rasante poético pelas orlas dessa cidade que nós amamos odiar. Ao mesmo tempo em que, como artista e homem. Galf preenche esse deserto social e político sofrido/ para a maior parte da população mais negra fora da África. Em “Talismã” o tema é o amor, faixa dedicada a sua companheira, e onde o MC dixava com maturidade, qualidade poética e até certo ponto apelo pop, os seus sentimentos.
Fechando o disco, a música que serviu como primeiro single para o anúncio do disco: Astronauta do Asfalto, um pequeno petardo digno de figurar no que de melhor se produz dentro do under no Brasil, assim como todo o disco. O mestre Matéria Prima foi convocado para o feat e a faixa ganhou um interessante audiovisual na conexão Salvador – Belzonte! Escrevemos na altura do lançamento um texto sobre essa música e sobre o audiovisual, que você pode consultar aqui.
Esse texto na verdade não possui fim, como a poesia de Galf AC também não tem, aqui fazemos apenas o recenseamento, o levantamento dos efeitos iniciais, das mudanças climáticas pelas quais o seu fazer arte atravessa. Aqui, apenas uma tentativa de entender esse novo momento do artista. E diante de tudo que colocamos acima podemos definir esse momento como: o inverno de Galf AC. Depois de muito tempo em um verão alucinatório e desnorteante, todo o brilho de sua poesia e de sua música, todo o seu envolvimento no under da cidade em bandas e coletivos começam agora uma precipitação das nuvens geradas pelo calor dos últimos anos. suas vivências produziram o aquecimento de suas maiores potencialidades artísticas, e o que começamos a presenciar é esse inverno chuvoso que começa a propiciar o florescimento de muitas obras ao longo dos próximos meses e anos.
É muito bom ver um artista preto e periférico que com muito talento aprende a regar o seu próprio jardim, que por conta de sua generosidade também é nosso!
-O inverno de Galf AC, começa Botando pra Ver Bicho part. 1(2021)
Por Danilo Cruz
Danilo
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