O flow debochado do Hot & Oreia no disco de estreia Rap de Massagem (2019) foi um dos grandes lançamentos do ano passado no hip-hop nacional!
O maior medo do playboy é que alguém “descubra” o brinquedo que ele achou debaixo da cama. Qualquer um que abre o Ableton hoje em dia pensa que virou produtor. É engraçado que a galera da cena cobra seriedade.
Nêgo quer ver tu lançando a braba de segunda a sexta, sem intervalo, mas ninguém sabe de onde veio a linha. Cadê a caneta? E essa métrica? A galera aperta play, cobra referência, mas nem sabe o que a própria caminhada teve que fazer pra passar por ali.
Quem cria o tecido é cada vez menos importante. Por isso que é uma aula observar os campos criativos de quem sabe pensar, enxergar, ouvir e explorar os ecos mundanos das mentes que reverberam como cacofonias de uma cuíca pelo centro de São Paulo.
O Hot & Oreia é um dos maiores exemplos dentre os novos artistas proeminentes da cena, mas não só pela exploração da linguagem, a interação entre os MC’s ou pelo flow em si. A dupla mineira formado por Gustavo Rafael Aguiar e Mario Apocalipse do Nascimento, está fazendo barulho na cena – com uma agenda que cobre todo o território nacional – justamente pela abordagem peculiar que eles utilizam para criticar desde a polarização política que domina o Brasil, até a ala do “olha meu dry-ice como é cheiroso”.
Formados a partir da crew da DV Tribo – que ainda inclui nomes como Djonga e FBC – o duo impressiona por fazer um Rap de mensagem que apesar de botar o dedo na ferida, não deixa aquele clima de velório no ambiente, muito pelo contrário.
Contrariando a escolástica do Racionais e do Facção Central, por exemplo, o Hot & Oreia passa o recado sem aliviar pra ninguém, mas nem por isso a roupagem do disco precisa ser emoldurada pela raiva ou pelas punch lines que são a tônica de discos como o “ONFK” (Amiri) e “Psicodelic” (Coruja BC1), por exemplo.
Eles provam que dá pra ser crítico, mas a grande sacada é a leveza com que eles conseguiram eternizar isso no “Rap de Massagem”, debutante da dupla, lançado em julho de 2019. Num momento bastante complexo no Brasil, coube aos 2 conseguirem dialogar sobre temas densos, com uma leveza até então nunca antes vista, justamente pra deixar as coisas mais leves, até por que, vamos ser francos: é necessário.
É claro que as injustiças são o combustível para a bereta do Hip-Hop, mas é importante “debochar legal”, como diz o mestre Cleiton Rasta. Esses tons de escárnio blindam o disco com um toque implícito aos versos que faz o ouvinte pensar na hora de sacar as referências.
É possível questionar e dar risada ao mesmo tempo. É completamente viável utilizar o auto tune sem proporcionar uma overdose no ouvinte. Além disso, é 100% praticável brincar com a estética do Trap sem pagar pau para o Travis Scott. Esses são os principais pilares desse disco e apesar das 9 faixas e seus poucos menos de 30 minutos de duração, o trampo impacta o ouvinte de forma duradoura e extremamente versátil.
Com um disco munido de diversas participações especiais e alguns dos clipes mais interessantes que saíram no Brasil em 2019, o Hot & Oreia consegue colocar a Luedji Luna e o Djonga no mesmo contexto e, isso por si só, já é algo louvável.
Desde a abertura com “Eparrei” – faixa que conta com a participação de Rafael Fantini – os MC’s já mostram uma interação bastante fluída e bem versada. Citando cânones do Rap nacional, como o Parte Um, Black Alien e Speedfreaks, eles mostram conhecimento histórico e deixam claro que não vieram aqui pelo open bar.
Outra característica interessante do disco é a versatilidade do flow. Dependendo da participação, é possível perceber uma mudança de comportamento. Na faixa com o Djonga (o rei dos feat, “melhor num convidar”), isso fica nítido. Em “Eu Vou”, os 2 surgem com linhas mais viscerais para harmonizar a metralhadora verbal do maior Rapper em atividade no país. Com dezenas de referências que orbitam o universo do “Auto da Compadecida”, os 3 dichavam as mazelas do Sertão da Paraíba e no fim é até fácil perceber por quê talento é só um detalhe.
Mas é na sátira que eles mostram o DNA criativo desse projeto. Ao som de “Rappers” fica claro como as críticas tiram sarro do hype. Em “Xangô” a dupla conta com a maior voz feminina do país pra pegar respeito às religiões afro brasileiras. A colaboração ao lado da Luedji Luna é improvável, mas enaltece o lirismo de Gustavo e Mario, mostrando que é impossível colocar esse som dentro de uma caixinha.
As estéticas das bases mudam o tempo todo. Na faixa título, por exemplo, a dupla surge meio vaporwave, com um som que brinca com essa cobrança por “Rap de mensagem” o tempo todo, 24h por dia, durante 7 dias por semana. É uma vinheta muito charmosa e que antecede a participação de Marina Sena em “Tema”, o maior love song desse disco.
É notável como esse trampo dialoga com muitos ouvintes diferente do Hip-Hop. Chega na casa do fã Old School com “Bicho da Goiaba”, aterrissa nos ouvidos de quem curte um Trap + auto tune com “Estilo” – e sua linha minimalista – mas é que com “Cigarro” que os caras se consagram.
É até óbvio perceber como esse disco possui uma penetração diferente. Ao dialogar com diferentes estéticas, a dupla encontra admiradores oriundos de outros nichos sonoros. O flow e a interação entre os 2 é um show à parte e a letra desse groove em particular cumpre a difícil tarefa de resumir o plano de fundo esquizofrênico do nosso país.
-O flow debochado do Hot & Oreia
Por Guilherme Espir
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