A música de Bob Dylan possui raízes negras profundas, determinantes para que chegasse ao som que o caracteriza. Isso é revelado em seu livro/ diário Crônicas.
Se você gosta de Bob Dylan, tem interesse pela sua música, certamente ouviu falar a respeito da ligação pessoal que ele estabeleceu com Woody Guthrie. Nele, Dylan encontrou algo diferente de tudo que havia conhecido até então. Identificara um vínculo indissolúvel entre aquilo que define a personalidade de Guthrie e as músicas por ele compostas. Perceber esse vínculo levou Dylan a acessar algo dentro de si até então desconhecido. Ainda jovem Dylan conseguiu através da música de Guthrie fazer algo que a maioria das pessoas não consegue durante toda uma existência: encontrar a si mesmo. Em Guthrie, Dylan percebeu que a música não é um meio, mas um fim.
A intensidade do efeito que isso causou sobre o jovem Dylan fez com que não poupasse esforços em colocar em prática aquilo que ouvira nas canções de Woody. Quis encontrá-lo para agradecer, foi visitá-lo no hospital a fim de revelar ao seu herói a mudança perpetrada em sua vida através das músicas que havia composto. Em suas Crônicas – Volume Um, publicadas no Brasil pela editora Planeta, Bob Dylan relata o modo como entrou em contato com a música de Guthrie e de que maneira esse contato o motivou a se enveredar nas sendas musicais. Como dito anteriormente, isso aí a maioria das pessoas que curte a música de Dylan já sabe há tempos.
Contudo, o que chama atenção em suas Crônicas é a revelação de uma outra fonte de influência musical determinante no modo como Dylan viria a conceber sua música. Ele fala a respeito da influência que sofreu por parte dos bluesmen que tocavam o country blues, ou blues rural, estilo de blues nascido e tocado no violão por homens que trabalhavam em fazendas de pequenas cidades do sul dos Estados Unidos. Essa influência segundo Dylan, se deu principalmente no seu estilo de tocar o violão e posteriormente a guitarra.
Ao longo do livro cita vários nomes entre essas influências, Reverend Gary Davis, Lightnin’ Hopkins, dentre outros grandes do gênero. Mas ele se detém em um nome específico: Lonnie Johnson. Lá pela página 170 ele compartilha seu encontro com o mestre do country blues e fala como este lhe transmitiu valiosos ensinamentos acerca da melhor forma de dedilhar as cordas do violão. Dylan queria se desfazer do estilo country à la The Carter Family, o qual moldava seu estilo até início dos anos 60. Conhecer Lonnie Johnson permitiu essa guinada em seu estilo musical do ponto de vista técnico.
Lonnie revelou a Dylan um estilo que este último desconhecia e que lhe causou forte impressão. Disse que pareceu estar recebendo um precioso segredo, algo revelado a poucos. Dylan expõe em detalhes esse encontro e a técnica que lhe fora transmitida por Lonnie durante aquele encontro no início dos anos 60, portanto, antes de Dylan gravar seu primeiro álbum.
Cientes dessa informação podemos entender as raizes da sonoridade criada por Dyla, algo perceptível mesmo a ouvidos carentes do apuro técnico, pois há no som de Dylan desde suas primeiras gravações algo que destoava do country branco, que ate então parecia ser a única filiação de Dylan. Possuindo essa informação acerca das raízes negras da música de Bob Dylan, estamos diante de outra maneira de ouvir e compreender sua sonoridade.
Lonnie lhe mostrou como desenvolver uma estrutura harmônica e rítmica que servisse às particularidades de seu modo de cantar. Mostrou como articular a parte instrumental e a melódica como forma de atender às suas necessidades particulares. Isso levou Dylan a aperfeiçoar tecnicamente seu modo de tocar o violão e cantar suas composições sem mimetizar músicos que vinha ouvindo até então. Em outras palavras, os ensinamentos de Lonnie Johnson permitiram a Dylan criar sua própria identidade musical.
Embora seja perceptível a presença do white country na sonoridade de Dylan, há sempre a presença de algo que aponta outro caminho, que dissolve muitas características dessa influencia white country inserindo outra coisa no lugar, gerando outra sonoridade. Foi surpreendente quando descobri, lendo as Crônicas, que se tratava de elementos do country blues. Passei anos sentindo essa estranheza no som do Dylan, faltando-me conhecimento técnico que permitisse elaborar alguma teoria acerca do que poderia explicá-la, tive que contar com o acaso, personificado na leitura de suas Crônicas.
Carlim
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