Que Fim Levou Meu Sorriso mistura melancolia e lisergia, ingredientes recorrentes da sonoridade da Mopho, compondo ambientação sonora ideal para a realidade distorcida na qual vivemos.

Quando os acontecimentos desafiam as leis da natureza e mesmo a recorrência dos padrões de funcionamento da vida social, usamos a expressão “isso é muito surreal”. E o dizemos com ênfase, evidenciando a surpresa por testemunhar situações que parecem evidenciar a suspenção das leis físicas que regem a natureza e a suspensão dos juízos que responsáveis por orientar nossos raciocínios.
Vivemos sob um arco de acontecimentos reflexo de negacionismo histórico, científico, que tem gerado delírios coletivos que mais parecem bad trips causadas por consumo de ácidos produzidos por químicos negacionistas. Parece estarmos presos no looping do dia da marmota lisérgica, que leva o conceito de psicodelia a outros patamares.
Por isso mesmo um álbum cujo título é Que Fim Levou Meu Sorriso, lançado em meio ao caos gerado por um governo militarizado, igualmente caótico, que usa a pandemia para elaborar esquemas de corrupção que causaram até aqui a morte de mais de meio milhão de brasileiros e brasileiras, faz todo sentido levantar a questão onde foram parar nossos sorrisos.
Só está sorrindo quem vive alheio à esta realidade distópica na qual estamos vivendo. Quem não toma suas “doses seguras de crack”, expressão numa live alucinada na qual dois olavistas/ bolsonaristas, os foragidos Irmãos Weintraub, participaram, perdeu por completo a motivação para ter momentos de alegria, para sorrir.

Foi no dia 25 de junho que a banda alagoana Mopho, conhecida por moldar seu som a partir de elementos sonoros da psicodelia nordestina dos anos 60 e 70, lançou Que Fim Levou Meu Sorriso. Este é o quinto registro de estúdio da banda e conta com 6 faixas de caráter melancólico, que refletem bem o que já está expresso em seu título.
Este Ep se destaca por explorar o universo do cancioneiro popular nordestino, em especial de nomes como Ednardo, Fagner e Belchior, que articulados com a lisergia já presente no material sonoro da banda, resultou num registro que se destaca dentro da discografia da banda, bem como reflete os tempos sombrios em que vivemos, como exposto no início desta matéria.
Que Fim Levou Meu Sorriso também se destaca pelo retorno de Júnior Bocão (baixo e voz) e Hélio Pisca (bateria) à banda. Ambos membros da Mopho no passado, juntaram-se a João Paulo (guitarra e voz) e Dinho Zampier (teclado) para compor o quarteto original, responsável pela composição da essência da Mopho, bem caracterizada no álbum homônimo de 2000, que você pode ouvir clicando aqui. Este que pode ser considerado uma referência da música psicodélica brasileira.
Conforme informado pelo release deste trabalho enviado pela Tedesco Comunicação & Mídia, João Paulo é o compositor de quatro faixas deste Ep, cujas ideias e arranjos começaram a ser feitos a partir da produção do quarto álbum da banda, Brejo, de 2017. As outras duas faixas foram compostas por Júnior Bocão, quer iriam fazer parte do segundo álbum da Mopho, o Sine Diabolo Nullus Deus de 2004.
Segundo Bocão, as músicas imaginação e Mais Um Dia, com as quais contribuiu para este trabalho, haviam sido lançadas no álbum da banda Casa Flutuante, banda formada por Bocão e Pisca, que ganharam arranjos que as vestiram com a roupagem da Mopho. Não podemos deixar de destacar a participação de Júlia Guimarães, filha de João Paulo, vocalista do projeto Ladybug.
Ficha técnica
Nome do álbum: Que Fim Levou Meu Sorriso
Lançamento: 25 de junho de 2021 nas plataformas digitais
Gravado e mixado por Joaquim Prado no Estúdio Panda
Gravações adicionais no Divina Home. Masterizado por Brendan Duffey.
Projeto gráfico
Direção de arte: Júnior Bocão
Designer gráfico e arte finalista: Victor Caesar
Este trabalho foi financiado com recursos da Lei Aldir Blanc através de Edital público da Secretaria de Cultura (Secult) de Alagoas.
Carlim
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