O Calabetão é um bom lugar… Hip Hop nas quebradas outro sabor, outro sentimento, uma tomada de posição necessária para pensarmos o movimento!
Domingo é geralmente o dia internacional da maresia, dia em que eu e minha consagrada ficamos de boresta “vendo filmes” na cama, pra evitar a fadiga. Nesse último domingo dia 26/01 nós estavamos eu e ela repetido as doses na cama, e lá pras tantas vendo a última temporada de Hip-Hop Evolution (Netflix) me ocorreu que eu precisava colar no evento que aconteceria às 17:00hs no espaço Mada Pub, no bairro do Calabetão. Enfrentei a preguiça, acionei alguns parceiros no whatsapp (Paulo Brasil sugarman) mas sem respostas favoraveis, acordei a dona da cama ,e correndo perigo de vida por esse ato, ela topou e partimos.
Desde que passei a acompanhar a cena hip hop em Salvador mais de perto, sem dúvida alguma os espaços onde me senti mais perto do verdadeiro Hip-Hop foram nos enventos de quebrada. Lugar de fato e de direito dessa cultura, e o local mais necessário dela se fazer presente. Certamente vi excelentes shows no Pelourinho e no Rio Vermelho, na Pituba ou na Paralela, mas no Pau Miúdo, na Massaranduba, no Solar Boa Vista no Engenho Velho de Brotas, no Pela Porco, no São Caetano e na Cariri na Santa Mônica foram os locais onde o bagulho vibrou com uma vivência onde você realmente percebe que realmente tudo faz sentido, que é ali que você deve acessar.
O grupo da Cariri e uma dos maiores pilares do hip hop soteropolitano Okaris tem uma música que deixa isso muito evidente: “Minha Area”, onde Tibe bagaça um storytelling sensacional sobre nossa vivência nas favela. É uma das maiores e melhores composições do rap baiano, e emociona muito quando pensamos no hall complexo de vivências que tivemos e temos vivendo nas quebradas. Amizades, sentimentos, vivências, percepções, criticas que partem dele na música, mas que é de todos que viveram ou vivem nas periferias com senso, ali temos várias questões atuais e históricas que são finamente relatadas com muita poesia!
A música é ambientada num dia de domingo num rolê pela quebrada de Tibe, Marão, Otto e DJ Palozo, e num certo momento o rapper nos diz:
“Gente que sossega e desfaz de onde veio esquece seu sufoco e pinta a bunda de vermelho, sempre no comento eu vou sair daqui, aqui não é lugar, que se foda a Cariri.”
E muitas vezes esse exemplo que ele retira do seu contexto é uma postura do rap, mas nunca do real hip-hop. Sempre me falam que o hip hop está morrendo, mas sempre que olho pras periferias vejo que sempre temos aqui e ali, em todas as periferias alguns guerreiras e guerreiros mantendo a chama acessa. Essas pessoas correm sem grana, sem mídia, na força e na coragem metendo mutirões de poesia, saraus de poesia, batalhas de freestyle etc…
E foi essa a lição que se fixou em nosso corpo depois desse domingo no Calabetão! “No rolê vou lá e cá, mas sabendo onde chegar, pode crer e acreditar o Calabetão é um bom lugar”. E foi o convite para o evento organizado pelo Neto Kbção no Mada Pub em sua quebrada que trouxe nomes de ponta do rap local e grupos que estão na caminhada buscando seu caminho como : Nova Era, Zidane, Makonnen Tafari, Digs Driller, U7r33m, MaDamma, Trampo Raro, Mr. Jack, Cabça de Nego e Leo Souza.
Um final de tarde delicioso num espaço diferenciado, confortável e com cerveja a preços justos – a não ser que você tome 14 – no coração da favela. E estamos falando de um domingo de muita chuva em Salvador, com o transporte público – nosso meio de transporte – com a frota de ônibus diminuída, mas que não impediu que tivéssemos shows de altissíma qualidade e uma troca fantástica. Com a presença de um bom público dada todas essas circunstâncias, eu e Gringo (A Rua se Conhece) metemos no bate cabeça, junto com minha BB, que badala tudo.
Makonnen fez uma apresentação de peso como sempre – ainda dedicando um boombap ao Oganapazan – com DJ Akani e Biel Gomez numa sincronia fantástica, assim como o outro trap star baiano Zidane que veio de Camaçari para uma apresentação que hipnotizou a todos. As manas do MaDamma foram uma excelente surpresa mostrando um entrosamento, uma postura de palco – no chão – e ainda por cima metendo uma versão de Sabotagen que emocionaram.
O Rap Nova Era despreza apresentações e corre pelas quebradas do Brasil inteiro, representando uma postura e uma arte que vai muito além do mero rap, mandaram naquele modelo e foi bagaço. Trampo Raro é um mano do selo Estilo Solto das Cajazeiras que não tínhamos tido a oportunidade de ver ao vivo ainda, mas que representou com músicas bem produzidas e um bom flow, representando a luta de modo digno. Digs Driller fez uma apresentação pesadona, metendo um drill de primeira qualidade e que ficamos sabendo mais tarde está no caminho do seu primeiro trampo mais robusto em breve.
Digs Driller que tem produzido com o selo Karma, que reúne ainda o NetoKbção e o U7r33m, vem em breve com um EP coletivo, além de lançamento do Neto que fez um show junto a Léo Souza fechando o ciclo do seu trabalho Várias Queixas (2016) e já abrindo as portas para uma repaginada na carreira.
Mas para nós que acompanhamos realmente as apresentações a grande surpresa foi o U7r33m que não conhecíamos. Os caras fizeram uma apresentação daquelas que faz você cantar as músicas sem nunca ter ouvido antes, pela empolgação e pela atenção que eles obrigam você a ter nos refrões pegajosos. Letras fortes e uma apresentação enérgica junto a batidas que caminham mais no trap, são a fórmula dos caras. O grupo tem apenas um ano de caminhada, mas demonstra muito potencial, se souberem colocar seus trampos na rua com a preparação necessária vão conseguir a atenção que merecem;
Enquanto os shows não começavam tivemos a oportunidade – na gostosa varanda do Mada Pub – de conversar com Silvio Humberto. atual pré-candidato a prefeitura de Salvador pelo PSB e que foi um dos apoiadores do evento. Comentavamos a tristeza da morte de Kobe Bryan, sobre arte, mas sobretudo sobre a necessidade de espaços como esses em nossas periferias. A economia entendida como uma dimensão política que lhe é necessária, e que muitas vezes é subestimada ou ignorada pela gestão pública, mas que é um modo de fazermos nossas quebradas aflorarem cultura, pensamento, comunhão e renda. Uma equação que o hip hop precisa pensar também, pois eventos como esse ajudam além do evidente levar da cultura para nossas comunidades que precisam, a levar renda e oportunidades econômicas para a cadeia produtiva local.
Se Salvador está escaldado certamente é também por não distribuírmos nossa renda e nossos conhecimentos entre os nossos, por não ocuparmos os espaços que são nossos e onde estão nossos iguais. Nos respeitarmos num nível de não mais darmos dinheiro para os brancos que apenas sugam o nosso povo e a nossa cultura. No movimento inverso, dispensamos muito mais nosso dinheiro e esforço para atravessarmos a cidade e vermos um show de uma atração de fora, com uma line composta por outros artistas locais que muitas vezes não são pagos por isso, ao invés de fortalecermos um evento local com os nossos na grade.
O evento chegou ao fim apesar do gostinho de que poderia durar mais, quase 22:00h, o batente batia na porta, a semana vai começar dali algumas horas. Enfim, voltamos eu e minha rainha Gonesa Gonçalves, parceira de vida logo de bate cabeça, no metrô extasiados com a delícia de domingo que tivemos, com um dos melhores acarajés (Acarajé da Vilma) que comemos nos últimos tempos, para começar a semana revigorados.
Não é preciso que o rap baiano parta para a dicotomia ou casa de show de boy, ou evento de quebrada. Mas é necessário criar um circuito que atravesse as nossas quebradas com calendário e tudo. a Freedom Soul na Massaranbuda, o Mada Pub no Calabetão, são dois espaços necessários e outros precisam surgir. Sugiro que você preto ou preta que curte o hip hop em nossa cidade, arrisquem o mesmo, quando aparecer o próximo evento de quebrada. E aprenda a ficar de quebradinha, de keke, entre os nossos, aprendendo a entrar e sair, isso também é conhecimento hip hop. Isso é o hip hop!
O mestre já deu o papo no melhor modelo: O Calabetão é um bom lugar!
-O Calabetão é um bom lugar – Hip Hop nas quebradas tem outro sabor
Por Danilo Cruz
Fotos por: Marcelo Max
Danilo
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