A pioneira Sister Nancy tem a sua estreia clássica completando 40 anos este ano, e a rainha do Dancehall segue firme.
Imagine a cena: um admirador e conhecedor da história do reggae entra em um banco de Nova Jersey EUA no final da década de 90 do século passado para trocar um cheque e é atendido por Ophlin Russell. Esse nosso personagem imaginário iria tomar um susto pois reconheceria que estava diante da Rainha do Dancehall: Sister Nancy aka Mumu Nancy. Pois é, ali por volta de 1996 uma das maiores artistas da história da música negra exercia sua formação em contabilidade.
Porém, nem esse período conseguiu parar Sister Nancy. A artista que este ano completou 60 anos no dia 02 de fevereiro segue firme e forte fazendo apresentações e lançando música, como o seu mais recente single Mumu is Coming (2022). No entanto, há quarenta anos atrás a DJ jamaicana materializou um desejo através da sua força de criação rompendo mais uma barreira em sua vida e forjando um clássico absoluto da música: One Two (1982) seu disco de estreia.
Nascida em Kingston, em uma família pobre e bastante devota, com 15 irmãos e irmãs, logo cedo a garota se apaixonou pela música. Essa sua paixão lhe levou a romper com os desejos de seu pai de que seguisse uma vida conservadora, formando uma família e se dedicando a igreja, onde era pastor. Foi seguindo os passos de seu irmão Brigadier Jerry que Nancy conseguiu aos poucos se tornar DJ fixa do soundsystem Stereophonic junto a General Echo, após passagens pelos soundsystens: Twelve Tribes Of Israel e Jahlovemuzik.
A desbravadora começou sua carreira como DJ dos sistemas de som aos 15 anos, e apesar da proteção do seu irmão, que ela considera sua maior inspiração, Sister Nancy não deixou de passar por constrangimentos em um cenário onde era a única mulher operando. Ela conta em entrevista que nunca foi bloqueada, mas que recebia críticas pesadas, o que para quem enfrentou o pai para seguir o sonho e que ao invés de ir pra festa de formatura foi tocar, foi fichinha!
O grande sucesso de público em suas apresentações no Stereophonic sound system chamou a atenção do produtor Winston Riley que lhe convidou para gravar. Em 1980 saiu sua primeira gravação com o single “Ball-A-Roll” junto a faixa “My Woman” de Barry Brown. O ano de 1982 é fundamental não apenas pelo lançamento do seu disco de estreia One Two, mas também pela participação de Sister Nancy no disco A Dee-Jay Explosion Inna Dance Hall Style (1982) todo gravado ao vivo no Skateland Roller Disco.
A produção do Mike Cacia e com o selecta Archie The Operator reuniu uma banca nervosíssima no estúdio numa session literalmente lendária. A performance de Sister Nancy nos dá uma ideia muito forte de como ela operava no mais alto nível naqueles anos. É importante ressaltar, a única mulher entre Eek-a-Mouse, Lee Van Cliff, seu irmão Brigadier Jerry entre outros.
Nesta altura, o single One Two lançado antes do disco já alcançava sucesso pelas ruas de Kingston, enquanto Sister Nancy buscava terminar seu disco. Já com 9 músicas gravadas restava uma para fechar a bolacha. Neste mesmo período, já trabalhando com Yellowman com quem lançou singles como “King & Queen” e “Jah Mek Us Fe A Purpose”, ela viu o Yellow trabalhando em “Bam Bam” e conta que teve a idéia na hora.
Entrando no estúdio e fazendo um freestyle pesado em cima do Bam Bam emprestado do amigo, Sister fechou o seu disco. A faixa “Bam Bam” hoje é um clássico reconhecido mundialmente e a música mais sampleada da história do reggae, mas nem tendo rompido todas essas barreiras e se mostrado uma figura de proa desta geração riquíssima que despontava no dancehall jamaicano do começo dos anos 80, o reconhecimento chegou.
A história da música “Bam Bam” certamente é um capítulo à parte, pois ela possui origens diversas, já tendo sido gravada em 1966 por Toots and The Maytals, utiliza-se de um riddim muito conhecido do Ansel Collins, o clássico “Stalag 17” e tem o seu refrão tomado de empréstimo do Yellowman que gravou o seu “Bam Bam” junto com Fathead. Neste momento, nós podemos facilmente perceber o quanto de similar há entre o reggae e o rap.
Com o disco One Two lançado, outra faixa que fez algum sucesso foi “Transport Connection”, em 1985 Sister Nancy cansou e se afastou do cenário, segundo ela, para dar uma chance a outras mulheres. Poucos anos depois ela voltou ao cenário e rompeu mais uma barreira se apresentando no grande Festival Sunsplash em 1990. Em 1996 a artista imigrou para os EUA seguindo os passos de sua mãe, que já tinha ido para lá em 78, lá começou a descobrir o imenso sucesso mundial da música “Bam Bam” ao redor do mundo e motivo pelo qual o nosso personagem fictício do começo do texto a reconheceu.
O fato triste é que Sister Nancy foi roubada pelo produtor Winston Riley que recebeu 32 anos dos royalties de Bam Bam, somente em 2014 a artista ganhou um processo que lhe deu 10 anos de royalties e 50% do seu disco de estreia. O que a fez se aposentar definitivamente do banco e se dedicar 100% a música, que ela já vinha voltando a cultivar.
Como muitos foi atráves de Bam Bam que eu descobri a Sister Nancy e ouvir o disco One Two (1982) é perceber que estamos muito longe de uma artista de apenas um sucesso. O disco é um desfile do alto nível artístico e técnico conquistado durante a adolescência por Nancy. Aos 20 anos, essa pioneira chegou ao estúdio e escreveu um capítulo importante do dancehall, estando lapidada pela sua atuação nos soundsystens, com um flow variado e hipnotizante como na faixa título.
Todo o seu primeiro e único disco é uma aula de reggae music, em faixas como “Ain’t no Stopping Nancy” onde a artista desfila uma confiança e um bom humor fabuloso, começando a faixa com a provocação: Pergunto a todos, vocês acham que tem como parar a Sister Nancy? Recuperando suas raízes religiosa como em “I Am Gideon”, levando a palavra aos corações e mentes através do dancehall, que por sinal ela não considera um gênero musical e sim apenas o lugar onde as pessoas vão para dançar e ouvir o reggae.
Na faixa “Gwan a School”, uma defesa da importância da educação para o seu povo, nos mostra uma artista muito preocupada com a importância política de sua mensagem para os jovens. Nancy critica abertamente hoje, os rumos tomados pelo esvaziamento político de alguns artistas do reggae jamaicano, alertando sobre a formação dos jovens, ela diz “eles vão viver o que aprendem”.
A ficha técnica do álbum One Two (1982) é composta por um elenco de estrelas que vão de Sly & Robbie até Earl “China” Smith (guitarras), Ansel Collins e Winston Wright na tecladeira e muitos outros nomes que eram vezeiros nos estúdios jamaicanos. Se um single presente nesta estreia a projetou e foi o responsável por fazê-la voltar aos palcos e às produções, o fato é que o seu disco é uma obra iniciática fenomenal para o dancehall. Nada, nunca conseguiu para a Sister Nancy e na medida em que ela avançou conseguiu abrir espaço para diversas outras mulheres seja na reggae music, seja como exemplo, ficamos felizes por isso!
-Ninguém conseguiu parar Sister Nancy, 40 anos do clássico One Two (1982)!
Por Danilo Cruz
Danilo
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