Na trilha de soltar o seu novo disco colaborativo Malbec e Fettuccine, Mattenie desfila elegância nos loops e beats do Barba Negra
São muitos monstros da nossa cultura trabalhando em silêncio, sem ficar falando merda nas redes sociais, sem investidores e sem mídia. Em um país de dimensões continentais, pesquisadores seguirão tomando sustos, ao se deparar com figuras como Mattenie e Barba Negra. Apesar de serem nomes fundamentais do cenário, muitos ainda não os conhecem, e eu sou um dos que só recentemente tomou contato com o trampo desses monstros.
No ano passado já tinha pirado com o projeto Braselda feito por Barba Negra e o Mistah Jordan, até descobrir que o Barba Negra aka O Terrível Ladrão de Loops é também o MC Ralph, com diversos trampos insanos junto ao Rato. Já o Mattenie tomei contato primeiro com o trampo de design gráfico e com as rimas no AntiLock. O barril é quando você descobre, tudo que esses caras já lançaram…
Porque no final das contas é isso né? Conhecer artistas é adentrar outros universos, tentar compreender o desenvolvimento destes, entender os climas e texturas. E para um pobre professor dando aula 48hs em sala por semana é um trabalho hercúleo apreciar obras volumosas já lançadas para chegar no atual. Calcule que o Ralph aka Barba Negra aka Terrível Ladrão de Loops está no rap como MC desde 99 o século passado. É trabalho, é Pau de dar em Doido.
Já o Mattenie é o “novinho” da dupla, só tem 11 anos de estrada, com o lançamento do seu EP Minha Visão… Quase um pré adolescente mas ainda assim, com uma obra de respeito até então. Contando com o disco Outro Plano (2014) e projeto E-Zílio: Do Silêncio ao Centro (2018) junto ao Rato, e mais os EP’s Mattenie & Pedro Simples – Desconocido (2020) e Tudo Azul (2020). Tá bom pra você? Pois bem, façamos esse dever de casa aos poucos e com a atenção que ele merece.
São João das Barras!
Atualmente, já na parte do cozimento da mixagem e masterização, Malbec E Fettuccine chegará às melhores praças no dia 12/12 de 2022. Disco colaborativo, o trabalho já ganhou dois excelentes audiovisuais e um deles, se configurando como um verdadeiro trailer que informa e empolga. A faixa “São João das Barras” recebeu uma saída criativa muito única no anúncio do trabalho, naquele pique “Coming Soon”.
Nesta primeira faixa lançada do disco, Mattenie cospe barras pesadas ao sabor do bom e velho São João da Barra, conhaque de alcatrão que a favela conhece. Um signo, porém muito ao acordo do que a música entrega nas suas barras em que o MC mostra o quão desvirtuada está até demais as nossas quebradas e quem sai delas para cantar ostentação. Em meio a um cenário de pobreza galopante, da miséria crescendo em nosso país, se tornou algo fora de moda falar das nossas mazelas.
Com raras exceções, o discurso é raso e envolto em muito bumbo e “refrões chicletes” no máximo embalando um produto hoje em alto no mercado: o racismo. Pois é, o Pop tornou o racismo e como importante pauta de debate é mero produto, em capital simbólico, a negritude é a nova mercadoria a ser vendida e consumida, mas prestem atenção, apenas a negritude que sabe se comportar aos ditames do mercado branco.
No audiovisual, o que temos é uma ideia simples e genial, o MC sendo flagrado em movimento a caminho do estúdio Cômodo Alquímico e lá encontrando os parceiros desta nova produção: Barba Negra, Sintese, Killa Bi, DJ Sleep. Além da rapaziada da técnica como a captação que ficou a cargo de Matheus Melo e a mix e master que ficou na responsa do mestrão Cabes (Track Cheio).
Ainda pesando nas ideias, Mattenie rima num flow que por vezes parece que vai sair do tom do beat, um loop insano do corsário das produções Barba Negra, com uma linha de baixo chavosa ao extremo. Se eu quisesse exagerar diria que o flow e o beat nos dão uma sensação de balanço do mar groovado, com o agravamento de que no Vale do Paraíba não tem praia, logo o mar dos caras são os sons e as palavras!
“Tá Tudo Caro”, pra Desgraça!
Outro dia, 250 gramas de café, um kilo de açúcar e um quilo de farinha de copioba, paguei 20 reais, é desesperador, não é uma peça de ficção, não é um sentimento subjetivo, é algo tangível, sentido por qualquer um que coloque comida em casa. É nessa realidade econômica que estamos existindo, tentando né? E hoje saiu o clipe do segundo single do Mattenie, Tá Tudo Caro, desde já um documento histórico, três dias antes da eleição pela qual lutamos para que Lula seja eleito e possamos novamente ter o mínimo de dignidade.
Como é bonito ver um DJ em um clipe de rap né? Tá, os mais novos não possuem esse hábito e nem esse gosto, mas Mattenie segue honrando a tradição e DJ Sleep abre o audiovisual, riscando sem miséria. Propondo logo de saída um sample do clássico C.R.E.A.M. (Cash Rules Everything Around Me) do Wu-Tang Clan, para servir de diálogo sobre as rimas atualizadas para nossa realidade por Mattenie.
As aliterações com a utilização da frase “Tá Tudo Caro” serve à poesia com uma fixação ao presente que encontra seu comentário final através da imagem do disco retirado da estante por DJ Sleep, um vinil do Trio Esperança. Conceitos muito bem urdidos entre a música e vídeo, para nos fazer pensar no presente em que estamos e no caso do do Barba Negra e do Mattenie de um futuro projetado na obra por vir.
Arrisco a dizer com tranquilidade que o trampo do Barba Negras nas produções pelo menos desde o Braselda merecia muito mais atenção. Aqui, em “Tá Tudo Caro” o produtor mete mais um dos seus loops furtados à custa de muito estudo, e produz um beat drumless incensado, com um vocalzinho feminino inserido que abrilhanta o instrumental. Mattenie responde a altura, flow nervoso, desabafando a indignação que é a substância de muitas das nossas conversas hoje!
Enfim, aguardem Malbec & Fettuccine da dupla Barba Negra e Mattenie, e como disse bem o MC: dá uma atenção para essa cena do rap underground que tá acontecendo em nosso país, pois tem muita coisa boa!
-Mattenie x Barba Negra: “O pobre é a riqueza do mundo” – Singles de Malbec e Fettuccine
Por Danilo Cruz
Danilo
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