A Manger Cadavre? lançou, no final de setembro, o clipe da música Imperialismo, música esta que dá nome ao seu mais recente álbum de estúdio.
Manger Cadavre? e a necessidade da crítica sociopolítica no metal.
Quando as nuvens, carregadas de propaganda e ideologia fascista, pairam sobre nossas cabeças tal qual espectros sinistros, infiltrando-se sorrateiramente no aparato estatal através da política institucional, seduzindo as mentes das novas gerações, bandas, como a Manger Cadavre?, politicamente engajadas, surgem como faróis em meio à escuridão.
Possuídos e possuída pela verve rebelde de quem não se conforma com a exploração, suas canções se erguem como bastiões de resistência. Apontam o dedo acusadoramente para as instituições que fomentam a máquina do capitalismo, sempre se movimentando freneticamente.
Entre as estratégias para manter essa engrenagem funcionando a todo vapor, a propaganda desempenha um papel preponderante, pois ela é a cortina de fumaça que mantém os trabalhadores e trabalhadoras alheios às raízes de suas mazelas sociais e econômicas, que, irônica e cruelmente, residem no próprio coração do capitalismo e em seus agentes.
Sabemos bem que o imperialismo, apresenta-se como uma besta que subjuga territórios e mentes com suas garras afiadas de rapina e sua lábia sedutora de serpente. Ressurgindo sempre como um monstro, atuando violenta e inabalavelmente para garantir o fluxo perpétuo de espólios coletados nas nações do Sul Global para serem transformados em lucro, que por sua vez, converte-se nos ditos estados de bem estar social, orgulho dos povos do Norte Global e fonte de sofrimento inesgotável dos povos situados geopoliticamente ao Sul do planeta.
Por isso a Manger dedicou um álbum a esta questão, traduzindo em imagens o espírito anti-imperialista que permeia a letra e a harmonia da faixa título de seu mais recente trabalho de estúdio.
Manger Cadavre? entrega um clipe forte e catártico!

O clipe se apresenta como uma peça forte e catártica, merecedora da apreciação de qualquer um interessado por metal extremo e crítica política e social.
A Manger Cadavre? encena uma trama ácida que intercala momentos de sua performance incendiária no palco com o planejamento meticuloso do sequestro de um adepto fervoroso do viralatismo e do culto entusiástico aos Estados Unidos. De forma enfática os membros da banda se convertem numa unidade de operações especiais, com um único objetivo em mente: atacar o imperialismo e aquilo que o representa.
O que chama a atenção é a abordagem escolhida pela Manger Cadavre? para sua narrativa, uma abordagem destoante das convenções. A banda opta por usar imagens simbólicas que representem o alvo de sua ação, em vez de criar uma trama linear. O que se revela diante de nossos olhos é um caleidoscópio de flashes, onde símbolos do combate ao imperialismo e tudo o que ele abraça se manifestam.
Parte dessas cenas são momentos nos quais os integrantes da banda estão planejando a ação. Como a cena em que a câmera foca em papeis sobre a mesa e podemos ler parte da letra da música. Noutros, vemos o alvo do grupo. Nisso capricharam, puta que pariu! Mostram esse paga pau dos Estados Unidos portando símbolos populares deste país, o maior representante do imperialismo desde o final da Segunda Guerra Mundial.
Numa das cenas o janota arrombado aparece em seu terno, óculos escuros e mordendo lascivamente um hamburguer. Enquanto do lado oposto do sanduiche, o ketchup escorre, um nó de repugnância se forma no estômago do espectador, pois a cena é, ao mesmo tempo, repulsiva e emblemática, evocando o sangue dos que foram engolidos pela voracidade imperialista. Em outra cena, ele empunha uma pistola, apontando-a para a cidade que se estende abaixo, simbolizando o braço militar imperialista usado para subjugar suas colônias.
O hambúrguer, metaforicamente, poderia representar as nações e povos do Sul Global, devorados vorazmente pelos “demônios do norte”, como a própria letra da música sugere. O desfecho apoteótico acontece quando a bandeira dos Estados Unidos é utilizada para cobrir a cabeça do janota, agora prisioneiro do grupo, enquanto ele é conduzido para o cativeiro.
Em uma das cenas, o grupo se reúne para uma fotografia ao redor do paga pau incondicional do imperialismo, devidamente amarrado a uma cadeira. E antes desse ápice, testemunhamos o início da ação, quando um dos integrantes, mascarado e determinado, arremessa um coquetel molotov, o símbolo máximo da resistência contra a opressão armada.
Essa cena particular evoca a imagem de uma ação revolucionária, um levante popular contra as nações imperialistas, em que os oprimidos lutam para conquistar sua independência política, econômica e cultural.
Prefiro adotar essa perspectiva interpretativa, na qual os membros da banda personificam as nações oprimidas, enquanto o ilustre “viralata” representa os capatazes do imperialismo, que se submetem a fim de garantir os interesses de seus senhores.
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Carlim
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