Má Dame fazendo slackline No Fio da Navalha EP (2020). Diretamente do Ceará a rapper lança seu primeiro trampo cheio, muito importante!
Muitas coisas me chamam atenção em trabalhos como o da Má Dame, mas a questão social e política tal qual ela cultivou nas suas linhas é aquilo que pula primeiro a minha frente! Em sua estréia nesse EP os temas giram em torno da preocupação com os aspectos sociais e políticos que a atravesam como faz com toda a sociedade, mas que encontram na artista um outro direcionamento.
Esse atravessamento é traduzido em uma lírica que conjuga as angústias políticas e sociais, com base numa perspectiva de classe, mas que certamente não esquece questões de gênero e sexualidade. Se ancorando na história, a MC cearense busca em uma referência visual muio importante para a história da arte: a Gernica do pintor Pablo Picasso, elementos para pensar sua própria realidade.
Um corpo tão atravessado por problemas quanto a cidade de Guernica, imortalizada pelo clássico quadro, mas que ainda assim encontra no exercício da alteridade e no fazer generoso da arte, sua razão de ser. Má Dame, transforma o que poderia parecer uma terra arrasada em trincheira onde encampa sua luta através da arte, portadora de uma consciência critica que é transposta para a maior parte de suas entonações.
Ser LGBTQI+ é um exercício de luta constante, de combate initerrupto num território – aqui no Brasil – onde mais se cometem crimes de ódio contra essa parcela da população. O corpo e a existência das pessoas que fazem parte dessa minoria são sempre testados, suas subjetividades são sempre levadas a viver no limite. E é nesse sentido que a rapper cearense Má Dame pode afirmar “fazer slackline” No Fio Da Navalha (2020), termo que dá origem ao título do seu bom primeiro EP.
O disco é composto por faixas combativas e por beats que abrem espaço para o discurso potente da artista, mas que não abrem mão de se fixar como uma parte importante da obra! Fio da Navalha não se resume às lutas que tem na questão de gênero seu principal campo, antes aborda de modo interseccional os problemas sociais de uma cidade na visão de um indivíduo. A sensibilidade artística faz desses “comentários” sociais e políticos a passagem para a poesia.
Neste sentido, Má Dame é a personagem e a pintora do quadro musical de uma Fortal que é alegoricamente um equivalente da pequena Guernica espanhola, com seus correlatos trágicos, sem necessitar de bombardeios da esquadra da Luftwaffe. Portanto, é nesta dialética entre corpo e sociedade que a busca em encontra uma sinonimía do clássico quadro de Pablo Picasso, se dá ao longo das 7 faixas que compõem No Fio Da Navalha (2020).
Para quem acha que já sabe o que esperar de um trabalho no rap feito por pessoas LGBTQI+, aqui está um belo exemplo para que você repense seus conceitos, ou melhor, seus pré-conceitos. e em “Am itrila”, o eu lírico da rapper passeia pelas ruas fazendo o levantamento das dores e das contradições que atravessam a cidade, em “Holocausto Capital” é sobre as razões que produzem os escombros dessa cidade bombardeada por desigualdades.
Os beats do EP vão do boombap ao trap, negociam com o funk carioca, mas o flow de Má Dame permanece sereno, talvez até um pouco frio. Não há demonstrações de desespero ou raiva, o que nos parece ser um atitude estética onde a MC pretende realmente pintar um quadro, não participar dele. Apesar de saber bem seu local na escalda de violências e exclusões:
“Bandido Favelado, Fardado, Engravatado, Quem me mata primeiro?
Cada uma das faixas possui uma capa, pois o projeto visual do disquinho foi pensado com referência ao quadro supramencionado e na capa da faixa “Lágrimas Maternas”, é uma senhora negra olhando para o céu. E aqui, além de tratar das violências, trata-se também de saúde mental, diante de um quadro tão bárbaro a que se está submetido.
O tema prossegue em “Andanças (interlúdio)”, numa poesia recitada que prega a ação direta contra esse quadro. Na música de mesmo nome, temos a rapper de rolê pelas ruas de Fortal, a mais gangsta do disco batendo de frente contra os homofóbicos e contra toda forma de opressão. Todos os beats do disco foram feitos por 777ad, IaFi e Aurora foram responsáveis pela mix e master. produção é da GainLab Studios e direção executiva de Yasmin Rocha, Shoshandra e do Igor Range(In Memorian)!.
Um dado curioso é que as letras foram escritas em 2017. Ora, estamos falando de um momento que apesar de caótico ainda não tinha entrado de fato no fascismo escancarado em que vivemos hoje. Ao mesmo tempo, no ano em que o terrível bombardeio completava 80 anos, prenuncio dos escombros de corpos em que viveríamos apenas 3 anos depois.
A faixa que encerra o trabalho, homônima ao título do disco, é onde a MC se reivindica parte integrante desse quadro que pintou ao longo das músicas anteriores. É aqui também que ela sob o seu tom e reivindica Marsha P. Johnson como referência de luta, assim como por fim encarna todas as mazelas relatadas e produz o sentido mais forte da expressão: NO FIO DA NAVALHA.
Toda a conceituação que dá a substância do trabalho encontra bastante coesão nas artes do Fluxo Marginal que ilustram as músicas, assim como no tom musical do disco, nas letras , nos beats e no flow. Se Alain Resnais e Robert Hessens produziram a versão cinematográfica do quadro em Guernica (1950), o Brasil na emergência do fascismo institucionalizado, recebe sua atualização desse quadro clássico pelas mãos e pela força que é esse corpo da Má Dame.
Escute e reflita sobre as obras… Em Breve O EP estará em todas as plataformas digitais e atualizaremos!
– Má Dame fazendo slackline No Fio da Navalha EP (2020)
Por Danilo Cruz
-Má Dame fazendo slackline No Fio da Navalha EP (2020)
Por Danilo Cruz
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