Novo disco do MC e beatmaker mineiro Lheo Zotto é mais uma contribuição grandiosa para a história do rap nacional!

Quem não sabe rezar, xinga Deus!
O mineiro Lheo Zotto é um dos muitos hérois da nossa cultura. E em seu novo trabalho ele nos apresenta produções bonitas, potentes e que nos levam a pensar sobre a imensa importância subversiva da cultura hip-hop. Porém, há uma ignorância muito grande estimulada pela indústria que faz com que uma cultura negra que deveria valorizar a ancestralidade se transforme em uma expressão do etarismo, representado pela pouca reflexão que existe entre muitos que estão na cena no que tange ao tempo. Transformando a noção basilar de Ancestralidade em uma mera palavra de ordem.
A pouquíssima abrangência que a cultura hip-hop de fato tem dentro do mainstream, esse completamente rendido aos jogos e as regras da indústria cultural, tudo isso é contra efetuado por Lheo Zotto em seu mais novo EP. Nossa Senhora do Boombap (2023) é mais uma contribuição do MC e beatmaker mineiro àquilo que ele elegeu como centro de sua vida: a cultura Hip-Hop.
Mas perceba, não caia na armadilha do “sincretismo”, que de certo modo pode ser visto neste trabalho como um duplo de como hoje o rap lida com a indústria, numa tentativa sempre frustrada de um equilíbrio entre a cultura, a política e o rap de viés mais comercial. Esse acordo nunca foi possível, e se hoje o sincretismo religioso é duramente criticado, apesar de ter sido durante séculos uma boa estratégia de sobrevivência, não é sem razão.
Em seu novo trabalho, o MC e produtor Lheo Zotto cria uma aula para pensarmos as armadilhas do colonialismo. Apesar da referência ao catolicismo, o disco é preenchido apenas de referências pretas, sejam religiosas ou não. Tomar o sincretismo como uma alegoria à indústria cultural é aqui fundamental, pois não adianta termos uma santa negra dentro de uma cosmologia, de uma visão de mundo onde a negritude é sempre inferior, enquanto pressupostos civilizacionais.
Minha Nossa Senhora do Boombap Sagrado abençoe todos nós!
Como Malandrinhação Beatz, o grande Lheo Zotto, já cheio de fios brancos na lata, abraça o drumless com a mesma potência de quem outrora foi pioneiro no Ebó da Rima. E é nessa tensão que firmamos nosso texto. A leitura que fazemos desse novo EP, está na verdade buscando a ironia dessa devoção, que sabemos pela história do artista que é mera alegoria!
O novo trabalho de Lheo traz 5 faixas no spotify e conta com 6 faixas no youtube, que se inserem no que de melhor é feito hoje no rap nacional, a começar pela belíssima capa, arte do Carlos Tigutin. Em “Linhas Aleatórias”, o MC reafirma sua missão: “Seguimos na proposta hip-hop de raiz, não viramos a tendência que você sempre quis”. Sabemos o quanto é difícil fazer uma arte que não “vira”, pelo contrário, vai cada vez ficando mais reta, com a sinuosidade se evidenciando apenas nas qualidades estéticas e na malemolência do flow. Neste sentido, aquilo que não virou é sinônimo de uma integridade que não é passível de ser “aguada”, não é feita para ser facilmente digerível. Necessita de um tempo – olha ele aí de novo – de aproximação e escuta, e consequentemente de maturação. Essa é a arte de Lheo Zotto e aqui sim está a sua oração continuada.
Estamos diante de um artista que com mais de três décadas de completa e total entrega a cultura hip-hop domina seus elementos como partes de seu próprio corpo. Um homem que se entende como batizado por essa cultura: “nasci em 76, renasci em 86” é um dos versos mais impactantes presentes no EP, para quem sabe da força de transformação que a arte possui e admira quem se entrega totalmente a ela. “Quebrando a Casca” é uma faixa que mostra muito bem como o artista mensura sua vida diante da arte, sampleando-se, abraçando os loops mais melancólicos diante de um fracasso constante, porque sabe que isso é mera ilusão.

Aliás, esse beat é de uma beleza pouco vista, coisa que somente “fracassados” como Lheo Zotto são capazes. Ainda não sabemos reverenciar artistas como ele, porque não sabemos pensar a cultura e a arte para além dos números. Em vida, Lheo vem se tornando um ancestral, ouvir uma faixa como “Irreal” é uma ode das mais fortes para todos que acumulam “fracassos” em uma sociedade como a nossa, onde os fakes, onde os rendidos, a linha auxiliar da branquitude são os vencedores.
Toda a obra de Lheo Zotto é atravessada por uma noção de ancestralidade em que ele mesmo vem se tornando, é uma construção temporal que para quem se aproxima causa uma impressão de suspensão do próprio tempo. “Ampulheta” traz uma reflexão sobre o tempo – Iroko – como poucas vezes vamos ouvir, mas que é presentificada pelo próprio artista em seus esforços de apresentar-se sempre dentro do tempo em que vive, da cultura que ama.
Dito isso, vocês deveriam ouvir “Nossa Senhora do Boombap Sagrado” com toda a ambiguidade que o sincretismo, que a indústria cultural, que as noções de sucesso e fracasso em nossa sociedade capitalista branca apresenta. Assim, talvez vocês percebam que Lheo Zotto na verdade trafica uma crítica das mais eficientes a tudo isso, sua própria vida já o é, mas aqui temos um excelente retrato em 3×4 que dura 13 minutos e 34 segundos. Apresentando um dos nossos grandes de todos os tempos!
-Lheo Zotto em mais uma oração para a Nossa Senhora do Boombap Sagrado!
Por Danilo Cruz
Danilo
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