Durante 70 anos Lemmy foi uma pedra no sapato da Morte. O líder do Motörhead a fez sentir na pele a dificuldade de cumprir o seu dever.
Hoje foi um dia incomum para mim desde o momento que me levantei. Antes de sair de Salvador para visitar amigos e familiares em Ponte Nova planejei caminhar todas as manhãs pela Beira Rio. Passada uma semana desde minha chegada á Ponte Nova não dera sequer um ínfimo sinal de que levaria a cabo meu plano. Hoje, porém, após tomar o café da manhã, fui caminhar pela orla do Rio Piranga. A concretização, mesmo que parcial, do meu planejamento fez com que esperasse ter um dia promissor pela frente.
O que parecia o sinal de um excelente dia, revelou se tratar de um mau agouro. Acabo de chegar em casa, já passa da meia noite, estou no facebook. Minha timeline fora inundada por uma torrente de notícias, homenagens e lamentações pela morte de Lemmy. Por mai debilitada que sua saúde estivesse não era esperado que algum dia daria seu último suspiro. Ao longo de 7 décadas Lemmy driblou a Morte, mostrando-se um verdadeiro Garrincha na arte de escapar da ceifadora de vidas. Teimosamente o cara se recusava a aceitar o fim. Não deixou os palcos. Deixava sim as cama dos hospitais para mais uma vez liderar o Motörhead. Este ano cancelou o show da banda no Monster of Rock, mas cumpriu seus compromissos em Porto Alegre e Curitiba. Se era pra cair, que fosse no campo de batalha.
Lemmy incutiu no som do Motörhead fúria e peso, ingredientes que temperavam seu estilo de vida. Muitas gerações cresceram ouvindo o Motörhead e cultuando o mito sobre a imortalidade de Lemmy. Muitas festas foram embaladas pelo som da banda. Lembro-me bem das festas que fazíamos no início dos anos 2000 em Salvavdor e o quanto a banda de Lemmy estava presente em nossos tímpanos, mentes e boca. Sim, até na boca. Fazíamos drinks, bom, se é que podemos chamar aquelas misturas assim, e os batizávamos com nomes de bandas. O nome era dado de acordo com a quantidade de álcool presente no “drink”. Quando a bebida continha uma proporção adequada de álcool, limão e açúcar a chamávamos de Beatles. Quando havia o desequilíbrio na mistura e a presença do álcool inibia a presença dos outros ingredientes, a bebida levava o nome de Motörhead.
Essa energia que identificamos no som da banda, que nos leva a nomear tudo que é forte e intenso com o nome Motörhead, estava em Lemmy e certamente foi isso que o permitiu escapar das garras da Morte, mesmo nos momentos em que esta já dava por certo o sucesso de sua caçada. As idas e vindas entre Lemmy e a Morte lembram a famosa cena de O Sétimo Selo do diretor Ingmar Bergman.
Descansando na praia após anos de luta nas Cruzadas, Antonius Block encontra-se cara a cara com a Morte. Ao ver a misteriosa figura Block pergunta:”Quem é você?”, recebe a reposta “Sou a Morte”. O cavaleiro lança uma nova pergunta: “Veio me buscar?” e a Morte responde: “Estou com você a muito tempo.” Block diz saber disso. Vem a pergunta derradeira: “Você está preparado?” e o cavaleiro responde “Meu corpo está, mas eu, não.” Troquemos os interlocutores da Morte. Botemos Lemmy no lugar de Block. Se relembrarmos a vida de Lemmy chegaremos à conclusão de que este diálogo ocorreu muitas vezes entre o roqueiro e a Morte. A parte em que Block afirma que seu corpo está preparado para a Morte, mas ele mesmo não, ilustra bem a atitude de Lemmy nos últimos anos. O corpo solicitava o descanso, enquanto Lemmy recusava, claramente por não estar preparado.
Block faz um acordo com a Morte. Sabia pelas pinturas medievais que Ela joga xadrez. Então propõe à sua algoz uma aposta. Caso fosse vencida por Block no xadrez, deveria deixá-lo viver. Na certa as apostas entre Lemmy e a Morte não foram feitas diante do tabuleiro de xadrez, sem dúvidas envolvia uma mesa verde e cartas de baralho. Lemmy se saiu muito bem! Conseguiu por muitas e muitas vezes afastar a Morte, aumentando seu tempo de vida. Isso é o máximo que um pobre mortal pode fazer quando o assunto envolve a Morte. Para nossa felicidade Lemmy não sucumbiu aos 27, conseguiu vencer suas apostas até chegar aos 70, fazendo muitos acreditarem que jamais morreria. Lemmy está descansando em paz, mas não sem antes humilhar sua adversária.
Carlim
Matérias Relacionadas
Assine a nossa Newsletter
*Conteúdo exclusivo direto no seu e-mail
No ar!
Samba Bedetti
Felipe Bedetti já lançou seu terceiro álbum, mas aqui vamos falar do single “Samba Gerais”, uma música que indica novas aspirações do jovem compositor mineiro. A essa altura do campeonato, o novo álbum do cantor e compositor mineiro Felipe Bedetti já está batendo em tudo…
Os Passarinhos carcomidos do Orelha Seca
Orelha Seca, banda soteropolitana cheia de ódio desse mundo fabricado antes da gente nascer e onde a gente só se fode lança o Ep “Corvos, Abutres e Pardais”, que é pra você ter certeza que estão te fudendo, e não é de um jeito gostoso. …
Killa Bi em “É Nosso Tudo O Que Eu Olho”, a expertise de uma grande MC
Em seu disco de estreia, Killa Bi mostra-nos por que é uma das grandes MC’s surgidas no Rap brasileiro nas últimas décadas, “É nosso Tudo O Que Eu Olho” Nos últimos 6 anos, o nome de Killa Bi se tornou obrigatório para quem está atento…
NEGGS & YANGPRJ, arte e cultura Hip-Hop piauiense expandidas e renovadas, e agora?
Após 3 discos lançados, NEGGS & YANGPRJ expandiram e renovaram a arte e a cultura Hip-Hop piauiense, “Libertador part. II, o fim de um ciclo! Em seu último movimento, a dupla de artistas piauienses NEGGS & YANGPRJ, lançou o disco “Libertador part. II”, no final…
Zadorica e a sua “Sina”: “o Rap ninguém me apresentou, ele aconteceu” – Entrevista
Entrevistamos a Zadorica, MC e produtora que acaba de lançar o seu disco de estreia: “Sina”, para você saber melhor sua caminhada e ideias! A agência entre formação pessoal e desenvolvimento artístico não opera por causalidades, a todo um trabalho de “reflexão” – flexionar para…
Tigran Hamasyan: folclore, erudição e improviso – o escape para encontrar a liberdade musical
Tigran Hamasyan é um pianista armênio, que conseguiu atenção mundial quando sua interessantíssima visão sobre música folclórica, clássica e improvisação começou a receber atenção do público e das grandes gravadoras. Sempre registrando projetos por selos proeminentes, principalmente do mercado europeu e norte-americano (como Nonesuch Records…
A revolução que vem de Rondônia,o MC kami lauan é o “tTrazedor de Notícia Ruim”
Com dois discos lançados em 2025, o rondoniense kami lauan chega com “tTrazedor de Notícia Ruim”, um disco fora da curva! kami lauan e o seu disco “tTrazedor de Notícia Ruim” é um acontecimento para o rap nacional em 2025. Se você acompanha de fato…
“Tertúlia” de Galf AC & DJ EB, lírico e rítmico, a música e a poesia Rap – Entrevista!
Com muitas participações, Tertúlia de Galf AC & DJ EB é um disco raiz do rap nacional com uma roupagem atual e consistente! Um dos grandes discos do ano até aqui, “Tertúlia” contém 11 músicas e diversas participações de nomes como Rodrigo Ogi, Ravi Lobo,…

