A série “Mo Bop” é o resultado de 3 gravações em trio, unindo músicos do Japão, Camarões e Cuba, com liderança de kazumi Watanabe.
Existe um submundo de música japonesa que mais parece uma realidade paralela. A música asiática explorou e criou muitas estéticas diferentes, partindo de um viés exploratório bastante próprio e que teve influência da tecnologia presente no país, principalmente durante as décadas de 60, 70 e 80.
Ao passo que você tem caras como o Stomu Yamashta, por exemplo, um percussionista, tecladista e compositor japonês que promoveu a fusão da tradição percussiva oriental com Rock Progressivo, você também tem nomes como o guitarrista Kazumi Watanabe, capaze de groovar o mais cabuloso Jazz-Funk na guitarra, sem fazer a menor cerimônia
Contudo, o mais interessante é que apesar disso tudo, o músico oriental é visto como um instrumentista sem alma. É patético ouvir ou ler isso, mas ainda é algo relativamente comum, mesmo quando falamos sobre virtuoses do nível de Hiromi Uehara por, exemplo. Pianista japonesa das mais requisitadas no Jazz contemporâneo, seu fraseado impressionou caras como Chick Corea e Herbie Hancock, por exemplo.
Existe a necessidade de desconstruir esse estereótipo e também de pesquisar mais sobre a música japonesa e o seu impacto no Hard Rock, pré Heavy Metal, sua contribuição para a cultura psicodélica e principalmente a cena de Yacht Rock, AOR e City Pop japonês que conta com diversas gemas musicais antológicas.
E para começar a ressignificar esses grooves, o primeiro projeto escolhido foi o “Mo’ Bop“, uma trilogia do Kazumi Watanabe que lançou algum dos melhores discos de Fusion/Funk dos anos 2000, tudo no formato de power trio.
Ao lado do talentosíssimo baixista camaronês, Richard Bona e o baterista e percussionista cubano Horacio Hernández, Kazumi lançou o seu trio e modulou o formato elétrico com 3 distintos lançamentos.
New Electric Trio – Mo’ Bop
Line Up:
Richard Bona (baixo)
Kazumi Watanabe (guitarra)
Horacio Hernández (bateria/percussão)
O primeiro disco que foi lançado em 2003, não só inaugura o projeto como já apresenta a diretriz da cozinha de maneira contundente. Com um som que explora o lirismo do Jazz Rock e o balanço do Funk, Kazumi arquiteta um som sólido e vigoroso, muito em função do DNA rítmico no baixo de Bona e da percussão latina de Horacio. A virtuosidade existe, mas em cada um dos lançamentos é apresentada de maneira diferente.
Kazumi Watanabe – Mo Bop II
Line Up:
Richard Bona (baixo)
Kazumi Watanabe (guitarra)
Horacio Hernández (bateria/percussão)
É um groove globalizado e que apresenta diferentes perspectivas, disco após disco. Com “Mo’ Bop II”, o segundo lançamento do New Electric Trio – liberado em 2004 – a banda surge com a gravação mais pesadas das três, de longe.
Com uma abordagem que faz muita banda de Hard-Heavy parecer uma reunião de manicures, Kazumi, Richard e Horacio mostram um entrosamento azeitadíssimo e preparam o terreno para a sessão de estúdio que encerra a trilogia.
Mo’ Bop III
Line Up:
Richard Bona (baixo)
Kazumi Watanabe (guitarra)
Horacio Hernández (bateria/percussão)
Com o terceiro volume – liberado em 2006 – a banda parece resumir toda a empreitada dos discos anteriores. Se no primeiro o som foi mais Fusion e menos Funky, o segundo disco já veio com o volume no máximo e com uma mão mais pesada no groove.
Para contrapor os experimentos anteriores, o terceiro lançamento aparece com abordagem mais sincopada na percussão, com contribuições categóricas de Richard Bona e Horacio Hernández. Japão, Camarões e Cuba: um prato cheio para a rítmica e para os grooves.
É bem interessante acompanhar esse projeto, pois mesmo num formato em tese “limitado”, o trio entrega 3 possibilidades distintas, apresentando um repertório autoral bastante distinto e que passa longe de alienar o ouvinte, em função da virtuose dos músicos envolvidos.
A única parte triste nisso tudo é conseguir os discos. Como o Kazumi é japonês, todos as edições (“Mo Bop I, II e III) saíram só no Japão e custam uma fortuna, mas você ainda acha com relativa facilidade, pois os discos foram remasterizados em 2016.
O problema mesmo é o preço, inclusive tem até um DVD dos caras – lançado em 2005 – que apesar de ser complicado de achar, também é fantástico e se é pra se lascar, vamos fazer dívidas com a discografia completa.
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