John Cale nos brinda com um álbum de ambiência fria, jovens parceria, expondo-nos a um terror quase apocalíptico e mostra a necessidade de conexão humana.
Um álbum que reflete nossa época
John Cale, um dos membros fundadores da banda favorita de 11 entre 10 hipsters, a Velvet Underground, vai se aproximando dos 80 anos e segue criativo e sensível como podemos ver em Mercy, seu 17o álbum solo lançado no dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião.

O álbum tem um clima sombrio devido aos recursos eletrônicos usados para os arranjos, sendo o principal deles as texturas sonoras abstratas emitidas pelos sintetizadores. A bateria eletrônica imprime uma atmosfera sci fi, remetendo a um contexto de tecnologia e imersão digital.
Em Mercy, John Cale reflete sobre os rumos da humanidade através de sua captura pelas tecnologias digitais que nos afasta cada vez mais do convívio social no mundo material. Estamos cada vez mais vivendo logados em algum app, interagindo nesse ambiente abstrato que nos individualiza e isola.
Podemos essa sonoridade como o caminhar rumo ao despenhadeiro da extinção enquanto espécie. Ou, na melhor das hipóteses, se é que podemos dizer isso, sobrevivermos num planeta estéril e inóspito, no qual as mazelas socioeconômicas se intensificarão ainda mais.
Essa preocupação se estende a outras espécies animais e vegetais, que tem sua existência comprometida pela ação predatória do ser humano. Podemos ver isso na letra da incendiária The Legal Status of Ice, na qual, de modo irônico, faz um brinde aos ursos polares presos num iceberg.
O fato de se aproximar dos 80 anos, somado às parcerias com artistas de gerações mais distantes da sua, acentua essa preocupação com o futuro da humanidade. A preocupação de quem teve uma vida longeva, bem vivida e que sabe não ser essa a realidade das próximas gerações.
Encontro de gerações
E pra criar essa sonoridade o cara convidou uma crew de “novinhos” composta pelos caras do Animal Collective, a cantora Weyes Blood mais os caras da Fat White Familly. A cama sonora experimental é bem arrumada por essa galera para o Cale repousar sua voz volumosa e esparsa, que gera uma camada sobre o arranjo instrumental que captura nossa atenção da primeira à última música.
Sem dúvida, as ideias de Cale para esse álbum só poderiam ser executadas a partir desse encontro geracional. O instrumental pra tanto, a meu ver, está sob o domínio desses artistas mais jovens, que tem na música eletrônica e sua variedade de segmentos os recursos para tanto.
Vão ouvir Mercy e confiram vocês mesmos mais este precioso trabalho do bardo incansável John Cale e seus e suas jovens menestréis eletrônicos.
Carlim
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