
If You Wanna Dance, álbum de estreia da Aloha Haole, é um tsunami que vem para entrar pra história do rock instrumental brasileiro
If You Wanna Dance, disco de estreia da Aloha Haole, banda do Piauí que define seu etilo como surf punk instrumental, chega manobrando forte do outside até o inside. A rapaziada não deixa de aproveitar nenhuma sessão da onda, conseguindo um bom percurso cheio de manobras radicais e fluidez. Sim, a agressividade está aqui combinada com a extrema suavidade na passagem de uma manobra a outra o que faz com que o high score esteja garantido.
O Aloha Haole produz um som instrumental calcado na surf music, porém adicionam pitadas punk/hardcore na pegada com que conduzem os temas. É uma espécie de cruzamento bizarro entre The Ventures e Ramones, produzindo um pequeno monstrinho de calças rasgadas com a prancha, ou o skate debaixo do braço. Os caras conseguem na base de muita criatividade e vigor, revigorar um estilo musical que para muitos pode parecer esgotado.
No Brasil, sempre tivemos uma tradição de bandas fazendo surf music: Os Ostras e Retrofoguetes, para ficarmos em dois exemplos mais ou menos recentes, produziram excelentes discos no gênero. Agora nos aparece mais uma excelente banda que mescla com inspiração a surf music com o punk/hardocre, alcançando um peso fenomenal e que com certeza instiga a dar uma caída, um rolê, ou simplesmente dançar como um louco na pista.
Tente ouvir a sequência de If You Wanna Dance, Hauzen Flauzen The Brotherhood e Haole on The Beach (um dos pontos altos do disco) e ficar parado. A reação é instantânea, se tiver onda pega a prancha, se não, pega o carrinho, se nenhuma das opções for possível, vai ficar se balançando sem parar, aumentando a instiga.
O clima contemplativo no início de Lucky Days, é atípico de uma música da volta da surf trip. Todos de cabeça feita, com aquele sorrisão estampado no rosto e o corpo moído, mas ela com certeza vai instigar a segunda sessão. Sweat, Beer and Skate, começa com sons de um rolê de skate e aponta para um riff digno de Dick Dale, para em seguida mandar aquela sonzeira que a essa altura você já viu que não para. É porrada seguida de porrada.
Apesar dos caras serem de Terezina no Piauí, uma cidade sem praia – haoles? – eles consagram (aloha!) o som aos melhores deuses da música. E é engraçado justamente esse jogo com as palavras havaianas, que de certa forma é parecido com o jogo que eles promovem entre os timbres, as melodias e os andamentos. O som dos Aloha Haole trabalha justamente nestas fronteiras como legítimos estrangeiros, nunca se fixando ou parando rapidamente. On The Drums é um excelente exemplo deste procedimento, a introdução e o andamento quebrado negociam desde o começo com o punk/hardcore e somente do meio para o final a surf music se insinua.
As últimas três músicas são um trio estranho – e nem por isso inferior – diante das anteriores. Enquanto Psycho Surf, aposta numa levada instrumental bem punk para só no finalzinho virar uma surf punk, Goodbye! Beertime aponta como a música mais puramente surf music para no final progressivamente acelerar até ensaiar um hardcore legítimo. Fechando o álbum uma Faixa Bônus onde aparece um… vocal. Enceramento primoroso e que demostra que o disco não peca em lugar algum e em nenhuma medida. Tudo está no local onde a criatividade e a força deste trio piauiense colocou, e soa redondinho.
O power trio é competente e afiado, a madeira come solta do início ao fim do disco, que possui nove músicas ao todo. Com toda certeza, você não precisa saber pegar onda, não precisa nem morar numa cidade litorânea. Aliás, não precisa nem ser adepto de nenhum esporte radical, basta ter ouvidos e um corpo. Porque com toda certeza depois de ouvir essa pedrada, vai sentir as boas vibrações que só chegaram depois de ter os ouvidos espancados por esta pedrada.
Boa audição.
Ficha Técnica
Albúm: If You Wanna Dance
Gravado e produzido por Fábio Gomes (antigo baixista da Aloha) em seu próprio estúdio
Ano de lançamento 2014
Integrantes: Guilherme Muniz – Guitarra e bateria – Fábio Gomes – Baixo
A formação atual da banda conta com Guilherme Muniz na guitarra, Fávio Alexandre no baixo e Anderson Sampaio na bateria.
Obs.: Todas as músicas são de autoria do guitarrista Guilherme Muniz, exceto a música “Goodbye! Beertime” que é uma versão de “Wipe Out” dos The Surfaris.
Danilo
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