Heartbeat EP (2020). O sorriso do gato da nabru, a MC mineira expõe sentimentos em novo trabalho com uma qualidade inaudita!
A autenticidade é algo fundamental, dentro do campo artístico é certamente aquilo que separa o joio do trigo, e nesse quesito o novo EP da mineira nabru é mais um tijolo fundamental na sua construção. nabru vem com uma produção muito intensa e do ano passado pra cá já lançou os EP’s Marquises e Jardins (2019) e 0701 (2020) – este em parceria com o gxtv – a mixtape Porque Prefiro Falar de Amor(2019), e um bootleg Ao vivo no @MartheFestival (2020).
Heartbeat EP (2020) é um quadro que reúne ritmo e poesia construindo uma pintura, um mural onde o seu objeto de desejo é envolto por toda uma paisagem, por um horizonte que o atravessa e nos apresenta um mundo. O mundo da nabru, aquele que ela tem construído, com o qual ela luta, nesse em que ela entra no seu devir mulher negra, um acontecimento sútil como sua voz, com a força de sua poesia.
Em qualquer que seja o seu enlace, romance, amor a manhosa é ela, que zunha, ronrona, se abre toda a espera do afago, foge dos encontros, retorna quando quer. E aqui pouco importam as pessoas, são os afetos presentes em Heartbeat (2020), as ideias e a forma de sua arte quem nos conta desse mundo, desse território conquistado, desse acontecimento. Evento, ou séries de eventos que se materializam ao longo das 7 faixas presentes no EP, com a força que suas rimas carregam. Os beats desse novo trabalho da nabru seguem no estilo em que ela tem se firmado como uma das MC’s mais originais do underground nacional.
A presentificação da saudade, a rememoração das noites quentes, a safadeza e o amor, as angústias e os desencontros, a luta por uma vida melhor, o compromisso com a arte. As batidas do coração fogem aqui dos clichês e fundam de modo temporário o momento da vida que a artista atravessa, quase como um amor de verão dada a duração da obra. Porém o trabalho curto nesse caso, carrega um bloco gigantesco de sensações e afetos que estão aqui com a força que a arte carrega de despersonificar, desindividualizar mesmo que obviamente possua uma forte âncora no real. É o que fazem todos os poetas né? Transformar vivências em arte de modo transcendental ao ponto de nós conseguirmos nos identificar ali.
Vivemos todos um momento histórico do qual não sabemos quais os efeitos, quais as mudanças que carregaremos para o futuro, ao mesmo tempo em que estamos todos assustados diante da morte eminente. O EP Heartbeat (2020) é uma das tantas obras que aparecem agora nesse contexto, não apenas fruto dele, mas como uma série de outras obras – as que importam – projetam um futuro. Essa projeção não é fantasmagórica, mas antes um ato que carrega em sua concretude a necessidade de reafirmar o amor, a luta, um plano de consistência saudável onde possamos quem sabe vivenciar uma outra forma de passagem do tempo.
A ausência das alegrias vividas possuem na memória o local onde é possível encontrar a possibilidade de assentar-se num futuro que transmuta a ausência do sorriso em alegria, proveniente aqui da amizade e do respeito. Se são as experiências e a memória o grande impulso e a subjetividade através de onde se retira o material através do qual se faz arte, o EP Heartbeat é uma aula. É por um lado uma carta para o futuro de todos nós que buscamos entender melhor a experiência humana e nesse momento complicado entendemos a necessidade de reafirmar “o amor em tempos do cólera”! Os momentos de caos, quaisquer que sejam eles, pessoais ou coletivos, necessitam de verdade no enfrentamento para que sejam superados. A MC mineira nabru se expõe de um modo inaudito na história do rap nacional e por mais que seja doloroso, entendemos ser essa a única forma de melhor se entender.
Em meio de excelentes produções, a MC no processo de criação da obra estraçalha-se num mosaico de recordações sem deixar a peteca cair. Delira Tereza Batista cansada de guerra, e segue na luta, com o coração-maracatu que tem marcado o ritmo de toda sua prolífica carreira. As produções de CJR Beatz, Dro, gxtv, Eric Beatz e Devaneio, a mix e master do Alice Piink e a captação de voz e vozes adicionais do Graça, são conexões que técnica e artisticamente fazem desse EP alcançar o tamanho que tem. Variados beats carregam as batidas que o coração lírico da mineira segue com o flow que é só seu. Variando nas levadas, e entonações de acordo com o bloco de sensações que quer passar e dos afetos que transmite.
A identidade visual é da Myrella e o trampo foi gravado no estúdio Organdi Trama, um trabalho grandioso, mesmo totalmente independente, totalmente underground, uma obra imensa mesmo sendo um EP de uma jovem MC. Do infinito particular de si mesma e através do seu olhar clínico de viés político e ético, com a qualidade poética que tem nos dado a ver nos últimos trabalhos, ela arranca um sorriso sem gato, como no clássico Alice no País das Maravilhas. Todo construído de rimas e batidas, da força de falar de si sem ser vulgar ou ordinária, com tato e carinho, com respeito e amizade. Algo que talvez ela realmente não consiga falar, mas que traduz com muita força em sua arte, uma língua que devemos contemplar, cultivar, aprender.
-Heartbeat EP (2020), O sorriso do gato da nabru
Por Danilo Cruz
Danilo
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