Lançado em 2012, o filme Beware Mr. Baker é um documento instigante sobre um dos maiores bateristas de todos os tempos. Ginger Baker
Um dos frutos melhor acabados do contato da juventude inglesa com a música negra americana, o baterista Ginger Baker rompe de cara com a velha história comum a 10 entre 10 músicos ingleses do período. Em geral, os músicos ingleses dos anos 60 tiveram no blues e no rock’n roll negro, o impulso inicial para a música, se inspirando e posteriormente se apropriando dessa sonoridade.No caso de Ginger Baker, foi através do contato com jazz e em especial com a bateria de Max Roach quando este fazia parte de um dos maiores quintetos de jazz de todos os tempo: The Quintet, que o jovem se apaixonou pela música.
O filme escrito e dirigido por Jay Bulger tem origem em sua admiração e curiosidade pela figura excêntrica do baterista, que inicialmente ele transformou em artigo para a revista Rolling Stone. O diretor constrói uma narrativa pessoal do seu contato com o músico e ao mesmo tempo apresenta a sua história de vida sem julgamentos morais, dando-nos uma sensação de partida constante. Os projetos musicais grandiosos dos quais Ginger Baker fez parte são todos muito curtos em termos temporais, no entanto, a duração de sua genialidade é algo incontornável na história da música.
O talento e o approach jazzístico logo foram encaminhados para o então movimento da british invasion em sua participação nos grupos Blues Incorporated Graham Bond Organisation, onde começou seu tour de force com Jack Bruce. Em seguida, funda o Cream junto a Eric Clapton e Jack Bruce, o primeiro super grupo do rock mundial, o formato que inspiraria o Experience do Hendrix. O sucesso imenso do Cream, junto ao abuso de drogas pesadas rapidamente levam a dissolução da banda, assim como seus embates com Bruce, que levavam Clapton às lágirmas.
Para a surpresa de Clapton que tinha sido convidado por steve Winwood pouco depois, Ginger Baker aparece num ensaio do recém formado Blind Faith, ficando no grupo. Aqui sem a presença de Jack Bruce, Ginger Baker seguia “tranquilo” com seu estilo único de bateria se encaixando perfeitamente e o imenso sucesso da banda só foi interrompido pela partida do Clapton. O guitarrista abandona o barco para ir tocar com Delaney % Bonnie no auge da banda, sem maiores explicações.
Seus traumas familiares, Ginger perdeu o pai muito novo durante a segunda guerra, a violência da sua mãe em aplicar-lhe corretivos, e o péssimo pai que o baterista foi, são traços retratados com vigor ao longo do documentário. Em certa medida, é possível sintetizar suas descrições do som das bombas caindo durante a segunda guerra, o amor instantâneo pela música africana que lhe foi passado por Phil Seaman, e a construção de uma personalidade violenta e inconsequente ao longo do filme. Seja através de suas próprias narrativas, ou da bengalada no nariz do diretor abrindo a película. O que é impossível é não observar a grandiosidade da obra que esse homem legou e do seu amor compulsivo pelo instrumento.
Certamente, em tempos de cancelamento e de um controle maior do público a atitudes escrotas por parte de artistas, o tribunal das redes condenaria sumariamente os comportamentos/hábitos de uma figura como Ginger Baker. O primeiro grande baterista do rock mundial legou-nos um arte, um pioneirismo e sobretudo um amor à música que hoje parece faltar, um momento onde as boas almas proliferam mas a autenticidade está em baixa. Aqui como em geral ocorre, nos é solicitado o pensar no quanto as doenças psíquicas, os distúrbios e adicções do Ginger Baker não eram a mesma substância que ele utilizava para criar os projetos e a música que criou. É muito menos justificativa de sua amoralidade do que análise fria, somos o que somos.
O documentário o acompanha pela Nigéria num momento onde não era chique ainda falar de música africana, e onde o baterista montou um estúdio em Lagos e por lá viveu por seis anos. Parceiro e chegado do grande Fela Kuti, com quem gravou, se desentendeu com o mestre do afrobeat por jogar Polo com os poderosos da cidade. Mas conta, que assim como Anikulapo Kuti também foi perseguido pela polícia que o tentou matar, levando-o a fugir do país numa Range Rover.
A despeito de todos os exageros, Ginger Baker viveu muito tempo, tendo gravado ainda com os projetos Ginger Baker Air Force, Baker Gurvitz Army no final dos anos 70 e com o Master of Reality nos anos 90 e 2000. Além de ter tocado e gravado com nomes como Hawkwind, Plubic Image LTD, Atomic Rooster e com os jazzistas Bill Laswell, Charlie Haden e com Bill Frisell; Tem longa discografia solo, seja assinando como Air Force, seja como Ginger Baker. Reencetou um projeto no jazz quando residiu por um tempo nos EUA, e conheceu Max Roach que o elogiou, tocou/disputou ainda com dois de seus heróis: Art Blakey e Elvin Jones.
O filme ricamente montado com material de arquivo e entrevistas, recolheu o seu depoimento enquanto o baterista morava na África do Sul e vivia com sua quarta esposa e enteados. Ginger Baker é nas palavras de Eric Clapton: um adorável canalha, um dos 10 maiores bateristas da história do rock, um pai escroto e um marido ausente, um dos artistas mais importantes do século XX para a música popular e um espécime humano em extinção, para o bem e para o ma! As entrevistas com nomes do passado e do presente do rock mundial são unânimes em apontar, um dos bateristas mais influentes que já pisaram nesse planeta.
Ginger Baker, o homem que mudou a forma de tocar bateria no rock’n roll, trouxe do jazz a ideia de longos solos de bateria para esse gênero e que influenciou nomes como Neil Peart, morreu em 2019 aos 80 anos de idade Se você gosta de música vai se encantar com a sua obra. Até onde conseguimos pesquisar o filme infelizmente não foi lançado em DVD nem em Bluray no Brasil tendo passado em alguns cinemas. Encontramos legendas em espanhol e o torrent bem saúdavel dele pela internet. Abaixo deixamos um vídeo fantástico de um de seus grandes projetos
-Ginger Baker, um adorável canalha: Beware, Mr. Baker (2012)
Por Danilo Cruz
Danilo
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