Você leu direito, o rapper Galf AC largou na rua a mixtape Fragmentos de Uma Mente Volátil (2016) apesar de uma obra que já é bem grandiosa!!
São muitos anos de atuação no underground soteropolitano, pois aos treze anos já botava pra arrepiar em bandas de Grind Gore, de modo pioneiro (Fecal Feast ,Traumatic Adutive Pollution , Vomiting Organ Decomposition). Essa formação em sons extremos foram ao passar dos anos e com seu engajamento no rap, transmutados e aprimorados nas letras e flows. Nessa caminhada Galf A.C. acumulou dezenas de participações em diversos trabalhos no rap baiano. Como se não bastasse esse reconhecimento do público e dos diversos atores da cena, o mano ainda se configura como um verdadeiro agente duplo.
Atualmente, Galf AC é o único mc em Salcity a fazer parte de duas das maiores bancas do rap em nossa cidade a U-Gangue e a Fraternidade Maus Elementos. Produzindo no ritmo e nas temáticas dos dois com a mesma qualidade. E nessa trajetória de agente duplo, só fortalece as duas bancas, afirmando sempre sua singularidade. Galf A.C. só possuia uma falha em sua carreira até aqui, não tinha lançado nenhum epzinho, nenhum trabalho que reunisse as inúmeras participações. Os admiradores de sua arte eram obrigados a sair catando em trabalhos solos a sua participação, ou esperar os lançamentos dos coletivos acima citados.
Uma obra digna do monstro de Frankestein, feita de pedaços de sua lirica esquartejada, mas capaz de uma consciência própria e dando pala do seu criador. Mary Shelley criou uma história capaz de traduzir com muita fidelidade o que era até aqui a obra de Galf A.C. Um rimador com uma interioridade muito complexa trabalhando em coletivos de modo a fazer com que a sua arte fosse aproveitada pelo coletivo.
No entanto, a produção do próprio não para e voar é um impulso primordial dos humanos desde Ícaro. Ser volátil, no sentido forte da palavra, é coisa muito própria deste rapper. Porém, ao contrário de Ícaro, que moscou com asas de cera próximo ao sol, o seu voar, a exterioridade da obra de Galf A.C. é a rua. E o seu voar se faz tanto como uma baforada soprada fortemente, como naquelas em que deixamos a fumaça sair aos poucos saboreando-a.
É a beleza da velocidade que ele imprime em suas rimas, em suas criticas ácidas, a alternância entre as marchas, um eterno “capoto mais não breco”. A naturalidade entre flows mais cadenciados e outros numa rapidez alucinante, sem perder no entanto o essencial, a mensagem. E as mensagens são variadas, e passeiam com influências que vão de Chico Buarque a Dead Kennedys, com a mesma qualidade.
A mixtape Fragmentos de uma Mente Volátil (2016) chega muito forte, com Galf AC transpirando força e muita qualidade na lírica, diversificando ritmos, e a agressividade contumaz. São 12 pedradas que passeiam por temas e ritmos variados demonstrando toda a versatilidade do rapper.
“Alarme“, como o próprio nome indica é a abertura e pede atenção para esse momento, que se confunde com o mc narrando com imagens muito fortes, um passeio, num flanar volátil por uma Salcity caótica. Questionando a vida nas cidades, as desigualdades, as misérias subjetivas. numa especie de oração laica, contra as feiúras e a força das cidades. A necessária malandragem e sua visão critica capaz de se desviar do ódio e da poluição que nos cerca, em nome da ecologia urbana.
A critica que Galf AC apresenta, congrega a necessidade de uma articulação ético – politica capaz de barrar a degradação do meio ambiente, das relações sociais e da subjetividade humana, é uma constante na trinca inicial que junto a Alarme, tem “Cravaram” e “Enigma“.
Em “Servos da Guerra”, com participação forte dos parceiros da UGangue de Ravi Lobo e Kiko Mc, a critica aos porcos fardados e a violência criminal é o tema. ” Ou vive para servir, ou serve pra causar guerra”. É uma forma interessante de traçar um caminho entre as meras condenações morais e pregar um ethos do real hip hop, uma partilha do sensível que mira no bem comum.
O desejo de queimar a Babilônia inteira, é a temática da enfumaçada, gastadora e panfletária “Ganja Livre” que casa perfeitamente e encontra sua complementaridade na reggae “Se Potencialize“. A evocação e o humor da primeira, encontra-se plenamente com a good vibration da segunda, com a contribuição valiosa de Emijota. Um jogo interessante de ser percebido entre duas músicas que não estão intercaladas mais que dialogam tematicamente. Uma mente fisgada pela Mary Jane, “sensimilada” que passa a trabalhar em outra chave de entendimento da realidade, com a visão marcada pela força da resistência e pelo amor a natureza.
Outro jogo intertextual possível se dá entre “Manicômio” e “Libertando Monstros”, enquanto no primeiro caso o rapper disseca com sua poesia a vida louca dos meninos do movimento, no segundo caso com o parceiro de F.M.E (Fraternidade Maus Elementos) Diego 157, o canto é de resgate e superação. Duas imagens, duas entidades míticas aí se contrapõem como posições distintas e que ilustram as perspectivas apresentadas nas duas músicas: Gárgulas e Harpias. O pesadelo vivido como realidade pelos gárgulas das lajes e becos, que podem encontrar – e encontram – no hip hop uma outra visão (de harpia) capaz de superar essa realidade grotesca. Real essência.
Vagabundo também ama e “Sentimento Mermu” é uma linda declaração de amor a sua amada, o desejo de formar uma família. Sem cair em imagens pueris, sem negocio de metade incompleta e entendendo o amor como essa relação de forças que é. E o mano quer essa alegria que o faz mais forte e capaz de seguir na caminhada dolorosa que é a existência, com mais potência.
O mano Yuri Loppo, comparece na não menos forte “Recomeço”, onde o título entrega, o papo é sobre a capacidade de ultrapassar os percalços, canta o mano: “Laranjada é continuar no erro, isso sim.” Mais uma das enormes parcerias e composição que o disco comporta. “Antes da Chegada”, é mais uma pedrada, na busca pela paz, evocando a beira mar da península Itapagipana. Curtição no ritmo da Jane, mudança de comportamento, fuga dos buracos negros das drogas que enfraquecem a vida. Carpem diem do verdadeiro malandro.
Penúltima faixa da mixtape, a pesadíssima Ouro de Tolo junto ao mestrão Dimak, música que foi um dos hits do crássico Paciência e Disciplina (2013). Descortinando os falsos caminhos para os quais a busca do vil metal encaminha os nossos. Sistema genocida, violência programada pelos gamers do estado racista, combatido pelo duplo punho que nomeia o disco.
E fechando com chave de ouro essa união do gueto, Hey Joe, um dos hinos presentes na segunda mixtape da firma UGangue, que nós resenhamos aqui. Tornando o trampo circular, com sua coletividade veloz, em uma volatilidade capaz de elaborar um pensamento complexo sobre a cidade e sua agruras, cheio de alquimia nas palavras. Junto dos coringas Vandal, Kiko Mc e Leo Soulza, numa das firmas mais fortes do rap nacional.
Uma estreia veterana que com certeza servirá para os mais desatentos pegarem a visão sobre esse rapper e sua obra, que ora se personifica numa identidade, mas que apresenta uma miríade de singularidades. Evidentes para os ouvidos mais atentos, fazendo-se ouvir em sua qualidade lirica, no traquejo capaz de rimar em cima de muitos beats diversos. Com a agressividade de ideias e flows. Pare de ler agora e corra pra escutar.
Danilo
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