Faceliftt, um dos álbuns responsáveis por fornecer as bases para consolidação do Grunge, comemora hoje 27 anos.
Por Dalton Sanches
Lançando a 21 de agosto de 1990, o disco de estreia da banda Alice in Chains, formada em Washington, mais especificamente na cidade de Seattle, por Layne Staley (vocais), Jerry Cantrell (guitarras), Mike Starr (baixo) e Sean Kinney (bateria), aponta para um horizonte ainda não muito claro, creio, aos próprios membros do grupo, no que diz respeitos às potencialidades nele contidas. Em outras palavras, não sabiam os jovens músicos que, além de um estilo, estavam fundando e consolidando uma escola, um movimento, apropriado rapidamente pela indústria cultural, que o vendeu como Grunge.
Facelift, ouso dizer, é obra-síntese de três décadas, pois situa-se na zona fronteiriça do, àquela altura, já desgastado Hard Rock, gênero que hegemonizou o mainstream durante finais da década de 1970 até o fim da próxima, e o sombrio e marcadamente melancólico estilo que, salvaguardando as diferenças e particularidades, consagrará todas aquelas bandas da fria e chuvosa Seattle, as quais, a exemplo de Soundgarden, Screaming Trees, Nirvana, Pearl Jam e muitas outras, se reuniam em torno do selo independente Sub Pop Records e assinarão com as grandes multinacionais ao longo da primeira metade dos 90, tornando-se conhecidas mundialmente.
Entrando no disco: já na faixa de abertura, “We die young”, presencia-se um autêntico e poderoso riff de Hard Rock – porém ressignificado mediante texturas e acordes dissonantes em tonalidade muito mais baixa, com ganho de drive que a maioria das bandas do gênero não ousaria à época escrachar –, seguido de um vocal cuja linha melódica e cadência são também tributárias do estilo, mas expurgada toda a retórica farofeira da festa, da quebradeira de hotéis, das tietagens de camarins, drogas, bem como outros clichês rockistas e sexistas muito ao gosto do gênero da moda ao longo dos anos 80.
No lugar, temas como melancolia, isolamento, angústia, frustração amorosa, apatia, depressão, alienação, ceticismo e, no limite, niilismo, combinados aos lampejos inovadores, tanto em termos técnicos quanto estéticos, que já anunciam alguns dos elementos que, dois anos depois, serão responsáveis pela consolidação da identidade da banda, alçando-a, por exemplo, à sexta posição na parada Top 200 da Billboard com o disco Dirt. Para se ter uma ideia mais clara da rápida ascensão do Alice in Chains, não custa lembrar que, já em 1993, quando pisam pela primeira vez em território brasileiro, a fim de se apresentarem no festival Hollywood Rock – com cobertura quase que integral da Rede Globo (!) –, o enorme público presente na Praça da Apoteose, Rio, cantará em uníssono, e para o espanto da banda, hits como “Man in the box”, “Would?” e “Angry Chair”, atestando assim a já bem-sucedida recepção do álbum no país do samba.
Por fim, o famoso rosto desfigurado estampado na capa do disco, o qual sugere uma “facelift” malsucedida, pode bem representar a face sombria e desesperada da dita “Geração X” da qual nasce a leva dos indivíduos que formariam seus grupos ao redor de Seattle, num contexto de ressaca geral do Pós-Gerra Fria, onde, além do anúncio em alto e bom tom do “fim da história” – com o qual entrona-se o capitalismo tardio, a democracia burguesa e a “potência” norte-americana como única e cabal possibilidade de sociedade e organização humana –, presencia-se, naquele mesmo mês de lançamento do disco, a investida dos Estados Unidos de Bush pai no Oriente, dessa vez com um aparato tecnológico e cobertura em tempo real até então nunca vistos na história da barbárie perpetrada pelas grandes guerras.
No mais, pra quem é de vinil: agulha na bolacha! Pra quem é de CD, Youtube ou stream: play na parada e bora bater cabeça com uma das melhores produções do rock noventista!
Ficha Técnica:
Lançamento: 21 de agosto de 1990
Gravação: Dezembro, 1989 – Abril 1990 no London Bridge Studio, Seatle
Captol Recording Studio, Hollywood
Mixado no Sound Castle, Los Angeles.
Duração: 53 min 54 seg
Gravadora: Columbia Records
Produção: Dave Jerden
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