Do Underismo de Matéria Prima – Pretos de Dread, um diálogo. Veteranos e novatos que tem algo de novo pra dizer ao hip-hop nacional!
As dezenas de singles lançados todos os dias no rap nacional sempre nos coloca em uma situação difícil: o problema de conseguir escoar essas produções e ter tempo de pensar com seriedade aquilo que apresentam. São tempos em que se recorre a estratégias as mais duvidosas em troca de atenção, uma busca incessante por clics. Por outro lado, também são tempos em que surgem gênios lançando as brabas o tempo todo. Esses dois singles nos parecem ser excelentes exemplos de músicas que valem de fato nossa atenção.
Dentro de um mercado inóspito aos mais velhos, Matéria Prima se mantém não apenas relevante como peça fundamental dentro da cultura hip hop. Certamente um dos melhores e maiores MC’s deste país, sua carreira deveria ser alvo de louvor incondicional e as loas não deveriam ser tão escassas. O respeito aos mais velhos não deveria ser um dogma, mas uma regra ética, válida dentro dos parâmetros onde os pilares da cultura sigam representando o conhecimento que é a liga da cultura hip hop. Sendo assim, nesse quesito Matéria Prima segue sendo um herói incansável do lirismo no underground, que na Bahia batizou um grupo de jovens: Underismo!
“Esse grave pede que eu bagace sem dó, esse beat pede que eu bagace sem dó”
Em plena pandemia, com a morte rondando a todos nós, com o fascismo do poder e toda carga de crueldade e ignorância intoleráveis que vivemos hoje, o rapper mineiro segue numa toada de produção invejável. Nesse exato momento, o cara ta escrevendo para vários discos diferentes feito por produtores diferentes, mas que tem no nILL aka O Adotado, a bola da vez. O single Sucesso feat 1Lum3 lançado no último dia 16/07 é o terceiro de uma jornada que desembocará no próximo disco do Matéria Prima, produzido pelo O Adotado. Trabalho esse que tem a assinatura do Fantasmatik na mix e na master tanto desse single quanto de todo o disco!
Em um beat classudo com timbres de uma elegância suave, cadenciamento tranquilo de bumbo e caixa, a doce voz da 1Lum3 ilustrando o refrão, as linhas que o Matéria Prima tece são para um tecido que projeta uma sabedoria ímpar. Mais do que o lucro, a elegia do lavor, melhor do que ser o queridinho das elites, um preto de dread, poeta da rua fazendo sempre o novo pois vive com inventividade a vida do seu povo. As imagens que são evocadas ao longo da faixa vão das percepções simples do cotidiano até as mais elevadas ideias sobre quais virtudes o MC cultiva.
Tecnicamente irrepreensível, Matéria Prima é um preto velho de dreads do hip-hop nacional com uma discografia gigantesca. Sem um único disco mediano no currículo e ainda assim, longe dos holofotes, pior para quem precisa deles. Seus singles são contra efetuações de todas as merdas que vemos na cena cotidianamente. Merdas que vão desde o MC cosplay de bandido e com falas racistas, até as questões de flow, métricas e construções poéticas tão incensadas pela cena, mas que aqui só com muito esforço encontram par.
Não bastasse tudo isso, a música Sucesso recebeu uma animação sinestésica do Projeto Ciberdelia, que transpõe para tela com bastante inventividade ideias presentes na música e na poesia. Dando continuidade ao projeto visual do disco, ainda a ser lançado, que tem tido a participação de excelentes artistas visuais produzindo vídeos de animação dos singles.
“Fugindo da Calamidade, Mentalidade cala Minha Idade”
Na outra ponta temos a facção de rimas e ritmos de rua que possui o nome de Underismo. Eles que se autodenominam um coletivo, lançaram no dia 17/07 o video clipe de Di Bombeira. O ano de 2020 tem se configurado como um enorme desafio existencial, e para jovens artistas que vinham construindo uma caminhada independente, o bagulho tá louco.
A Underismo tem soltado trabalhos solos de seus integrantes como foi o caso da demo de Ares, dos singles do Senpa. Kolx está trancado nesse momento produzindo o seu EP e rolam boatos de que Alfa também tem preparado material solo. Em termos de estética, o coletivo soteropolitano tem injetado uma forma de fazer rap que é de uma originalidade muito rara. O videoclipe de Di Bombeira segue nessa trilha.
O clipe teve as imagens captadas no nosso 2 de fevereiro desse ano, antes do isolamento, nas festividades em homenagem a Iemanjá. Apresenta os meninos no meio do povo curtindo como nossos pivetes de favela fazem. Depois de avançarem num trap pagodão e subverterem o gênero dando-lhe sua própria cara em Pretxs Chaves (prod. Mimoso), agora foi a vez de bagaçar num trap, no melody da lavra de NotaPanda.rar.
A dupla Alfa e Senpa são as cabeças que estão na voz dessa pedrada, esbanjando lírica, flow e tudo isso embebido até a medula da cultura soteropolitana. A linguagem que esses caras vem desenvolvendo é única em quaisquer subgêneros que queiram avançar dentro do rap. Não buscam parecer com nada principalmente do que é produzido no eixo e nas modas atuais. Antes fazem um jogo interessante de serem novos sempre. E essa novidade se dá muito pelo respeito que os caras possuem pela cultura hip hop.
Respeitar o hip hop não se trata de adequar-se à tradição de modo subserviente, mas antes, como em todo movimento saudável para uma cultura, enfrentar a tradição guardando em si os seus elementos principais. Nesse sentido, o Underismo tem feito bem a lição de casa, musical e audiovisualmente.
O toraJJJosu responsavél pela edição e pela estética audiovisual do bonde, utiliza muitos recursos que em suas mãos inquietas geram a cara dessas novidades estéticas que só a Underismo possui. Aqui no clipe de Di Bombeira, por exemplo, utilizando as técnicas do datamosh e do glitch, que nos oferece uma nostalgia do passado, uma lembrança das imagens de televisão, e de imagens de baixa resolução em geral, inserindo falhas em um período de imagens cristalinas. Toda uma reflexão poderia derivar daqui…
O jovem Alfa e o jovem Senpa, rimam com uma facilidade malandra, descarada, sujos, atenciosos as linhas sem perderem o peso das ideias. Flow Koskó, se você boiar eles te pegam na cocó, com a qualidade singular dessa e das suas outras produções. As adlibs, a variação de flows, as linhas sempre bem humoradas e verdadeiramente fruto das ruas, os manos dão aulas.
Esperamos em breve uma mixtape, onde pelas nossas investigações preliminares pudemos apurar que já está sendo pensada. Os caras também estão com alguns singles engatilhados, e ao que parece o disco deles ainda demorará um pouco. Porém, uma lição tem sido dada por esses jovens ao longo dos poucos anos em que eles tem caminhado pelo cenário do hip hop baiano.
Não há necessidade de lançar muitos singles soltos, com uma demotape, um EP, um DVD tresloucado e alguns singles e clipes, não é exagero dizer que todas as suas produções lançadas até aqui tem marcado o nomes do Underismo na história.
Enquanto Matéria Prima segue pelo Underismo, o Underismo segue buscando Matéria Prima própria para criar. São dois exemplos ímpares, um mais velho e uns mais novos, fora do eixo, longe dos holofotes, todos de Pretos Dread, reais inventores da cultura, o resto é filho do fakegame, cosplay de bandido ou e mob de vacilão!
-Do Underismo de Matéria Prima – Pretos de Dread, um diálogo
Por Danilo Cruz
Danilo
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