Davzera – Vale do Silício (2019) Rimas são tiros de Colt, mano parece ter munição infinita, tipo quando a gente brincava de policia e ladrão
ISSO NÃO É UMA RESENHA
Acordo e coloco Vale do Silício para rolar e de repente tudo fez sentido, ouvir música é um exercício que não deveria se confundir com o culto da personalidade, muito pelo contrário, é observar a máquina abstrata que trabalha na ausência generosa do silêncio. Um exercício de admiração à distância que já faz um tempo direciono a Davzera aka Beirando Teto, pelas ruas de Salvador, muitas vezes rindo, em outras tendo hojeriza ao contrapor as imagens presentes em suas linhas, com o contexto social e político da cidade, do estado, do mundo.
A música de Davzera é um emaranhado de humor ácido, ironia, surrealismo e como bem disse alguém por aí, um flow tedioso. Um cansaço sempre assalta as faixas, nunca o ouvinte, como se o autor estivesse entregando sempre o resultado de um processo exaustivo. Sempre no limite, sempre ardendo, queimando num fogo frio, uma caneta drogada, o resultado de alguma religião pagã, um estranho sacrifício alienígena.
Nesse almoço nu, tudo é exótico, por aqui é temaki, ceviche, ravioli de pasto, carne vegana temperada com sal rosa e heinekens a vontade. O fato é que as refeições dessa cozinha mágica nunca nos deixa empanzinados, o que colabora bastante para voltarmos outras vezes nesse master chef. Sempre nos servindo os pratos mais finos, e que são plenamente indicados para todos os paladares, é sempre transformador. Forma e conteúdo celestialmente adequados ao inferno que relata com o riso dos deuses no canto da boca.
Salvador é também um Vale do Silicio quando se trata de música, disso todos sabemos, e essa evocação nos parece plenamente adequada. Se levarmos em conta a pobreza existente por lá, tudo faz mais sentido ainda. Se a terra é realmente plana, é verdade também que o Brasil é um duplo dos E.U.A em alguma outra dimensão bizarra. Nessa cidade, Davzera é um carteiro do infinito, dentro de uma corporação (SSA) onde modalidades e substâncias encontram os mais diversificados agentes. O destinatário sempre encontrará a diferença como conteúdo.
Vale do Silício (2019) é o resultado de uma longa preparação, de dezenas de singles impactantes que Davi vem produzindo primeiro sob as bases de outros, depois ele mesmo metendo mão. Adquirindo um controle total de sua artesania, que o faz chegar com uma peça rara cozinhada com o já conhecido talento e sem se adequar aos padrões. Costumo pensar em beats como espaços musicais, e Davzera, costuma passear sobre esses espaços lombrando tudo, sempre no molde mais insano e diferenciado.
Dentro desse espaço Davzera beira tetos, cozinha substâncias alucinogenas, atravessa a avenida Augusto Franco com Mukamo na direção, joga descalço ou de rainha volei, eslásticos fantásticos, drible de corpo, toca que me voy, lançamentos embaçados, tipo Riquelme, curte o Buras de sunga bronzeando o terceiro mamilo, se materializa numa quebrada qualquer, no alto de um morro e desenha crimes hediondos como Salvador Dali pintava quadros. Se Jodorowski ouvisse faria filmes, Davzera como El Topo, dentro de uma megalópole qualquer, em estilo de animação.
Nessa última trip sempre numa pegada Castanêda. Davzera convidou Dig$ e VXamã (que também assina a arte da capa) para destilarem também suas linhas e obviamente os manos amassaram também. Somente mais uma reafirmação em tamanho de EP, das mesmas ideias e os mesmos procedimentos que Davzera vem construindo desde 2015. As mesmas Sinapses elevadas a enésima potência pela repetição constante, produzindo a cada vez uma diferença nova, outras intensidades, pocando caixas de modos diferentes.
A cada lançamento uma garrafa estoura na quadra e para quem está realmente castelando as mensagens, sonoridades, ideias e avaliando com clareza, percebe que muitos não conseguem mais jogar por ali. Dessa feita foi um engradado, quem vai pedir a dupla, o de fora? Habitando o underground, zero brecha, zero falha, é muito interessante acompanhar esse baba talibã, e entendê-lo como um meta comentário ao próprio game.
Enquanto o rap para adolescente cresce, outros fluxos (OverFluxo), surgem de dentro de bueiros limpando ou infectando tudo. A necessidade de buscar ser o mais real possível, cavalgando uma estrada onde a crítica social encontra o apuro da poesia; onde a chapação é um dos caminhos para a abertura das portas da percepção desse mundo louco, violento e corrupto em que vivemos. Dando ao mesmo tempo, risada da desgraca e batendo palmas em sinal de desaprovação, uma politica do inconsciente que não busca mais a interpretação, mas a invenção de outros caminhos. Corpo firme, objetividade nas missões musicais, intensidade máxima e calma nos passos dados. Algum desleixo é tão necessário quanto o rir de si mesmo. A música de Davi funciona assim nos meus fones, é tipo o copo d’água depois do gole de vinho.
Davzera se apresenta como um dançarino de mambo, meio mariachi meio trompetista, ouvindo Bobby Womack em Puerto Escondido, fumando um e preparando drinks num quiosque a beira mar. Sete faixas que caminham sempre pro mesmo lugar, o desconhecido, com imagens surreais produzidas por Arcanjos Atiradores, que no morro não morrem. Cenografia por Buñuel e roupas do Tonhão, todos os braggadoccios explodem o ego enquanto Baggi filma tudo de dentro da fogueira.
O fato é que é pra isso que eu pago internet:
Danilo
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que matéria foda!