Alumínio Roots percorre uma longa caminhada, e é uma das senhas para compreender seu terceiro disco de carreira: Eu sou o Barro (2016 )Fyah!
É improvável que uma pessoa que tenha mais de 30 anos e perambulou pelas ruas do Centro de Salvador no início deste século em busca de música de qualidade, entre outras experiências sensoriais, não tenha ido pelo menos uma vez na Rocinha do Pelô. Este local, às margens do principal complexo turístico da cidade, foi o berço de um dos movimentos mais autênticos da música baiana, onde foram revelados grandes artistas que se tornaram referências do Reggae soteropolitano, e do qual Alumínio Roots se consolidou como o principal representante.
O músico que iniciou sua carreira como percussionista da banda Bem Aventurados, assumiu a posição de compositor e vocalista de um novo trabalho, a banda Carruagem de Fogo, e durante muito tempo foi a atração principal das noites de sexta-feira na Rocinha. Após lançar dois discos autorais, o primeiro em 2003 intitulado “22 de Setembro”, que segundo o próprio artista faz referência à tentativa de massacre do Movimento cultural da Rocinha pelo Estado. E o outro em 2011 denominado “Para todas as tribos”. Agora o Reggaeman apresenta o seu mais novo trabalho batizado, “Eu sou o Barro”.
Um time de peso foi convocado para acompanhar o Rastaman nessa nova empreitada musical. A escalação de craques começa com um outro remanescente da Rocinha, o baterista Jorge Dubman que, originalmente, fazia parte de um outro grande grupo revelado por esse movimento, a banda Shamayin Zion. Devido às composições marcantes e a qualidade das apresentações, esta banda atraiu a atenção de um público cada vez maior e que fazia questão de chegar cedo para ouvir a banda que dava início ao evento. Nesse contexto, Dubman se destacou pela técnica apurada e pela linguagem no instrumento que remete a bateristas clássicos como Sly Dunbar e Horsemouth Wallace, e em pouco tempo se tornou um dos bateristas mais requisitados de Salvador, tendo acompanhado praticamente todos os grandes nomes do Reggae baiano.
Ao lado de Dubman está outro dos músicos de maior atividade da cena soteropolitana, o contrabaixista Alan DuGrave. Essa parceria rítmica de longa data já rendeu ao público apresentações memoráveis ao lado de artistas como DaGanja e Dubstereo.
Uma outra parceria vem dando certo e contribuindo com grande parte da nova safra de canções do Reggae de Salvador. Assim como no Ep de Bruno Natty e Raízes Rebeldes, as guitarras ficam sob a responsabilidade dos experientes Millan Gordilho e Alex Pantera, cujos timbres equilibrados e contrapontos melódicos combinados com o vocal sincopado de Alumínio produzem um diálogo rítmico que prende a atenção do ouvinte, absorvido pelos riffs mântricos reproduzidos em uníssono com o contrabaixo de Alan Du Grave.
O talentoso tecladista Allan Santos acrescenta um toque de elegância à sonoridade da banda com o uso de harmonias sofisticadas, típicas do jazz. Também demonstra conhecimento da linguagem e dos timbres tradicionais do Reggae ao utilizar sabiamente os orgãos característicos do estilo. O tecladista assina também a direção musical deste novo trabalho de Alumínio Roots.
Outra contribuição interessante fica por conta do naipe de metais composto por Val Souza, Jaquisson Amparo, Romério Santana que dão uma cara ainda mais Jazzística ao som de Alumínio Roots, remetendo quase que automaticamente ao som produzido por artistas como Burning Spear e Misty in Roots.
As harmonias vocais entoadas pelas cantoras Ana Pereira, Julia da Silva juntamente com o tecladista Allan Santos representam um acréscimo importante e um salto qualitativo em relação aos trabalhos anteriores.
A identidade Rastafari pulsa no Nyahbing bem conduzido pelo percussionista Marco Jones, além do uso bem dosado dos instrumentos de efeitos. Nesse aspecto contou com a parceria e sensibilidade do produtor Luciano Almeida responsável pela gravação e mixagem deste registro histórico do Reggae baiano.
Quem acompanha a trajetória de Aluminio Roots desde a Rocinha terá a oportunidade de ouvir faixas que se tornaram clássicos das sextas feiras soteropolitanas como “Quem sou eu”, “Torre de Babel”, “Princesa”, “Uma estrela”, “Abacateiro”, amadurecidas pelo tempo e trazendo arranjos inéditos. Outras menos conhecidas, mas familiares para quem já teve a oportunidade de apreciar uma apresentação de Aluminio Roots, como “O Ceu é alto” demonstram que o Reggaeman está em plena atividade e conectado com o que há de mais atual no cenário Reggae mundial.
Dono de uma performance diferenciada, criou um estilo de canto original, profundamente enraizado na cultura popular e na linguagem das ruas. Neste novo trabalho apresenta a síntese de anos de experiência acumulados desde a Rocinha, assim como das diversas apresentações em palcos no Brasil e na Inglaterra.
Aumenta o som e acende o Chalice. Fyyaahhhhhhhhh!!!!!!!!!
Você ouvir o disco e compra-lo aqui no Bandcamp de Aluminio Roots.
Por: Bobo Tafari
Aqui abaixo, um dos discos do mestre na integra:
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