“Vento de maio rainha dos raios de sol”. Quando li o nome que batiza o novo álbum de Alice Caymmi não pude evitar a lembrança de Vento de Maio do Lô Borges. Certamente os raios súditos de Alice não são aqueles emitidos pelo sol, mas os produzidos pela tempestade, em si mesmos carregados de eletricidade e poder transformador!
Recorro a esta imagem afim de apresentar o traço marcante do álbum, ou seja, seu caráter artificial. Vejam só, eu uso o termo artificial como oposto ao natural, aquilo produzido pela natureza. Artificial representa a capacidade humana de produzir não apenas aquilo que necessita, mas principalmente o que deseja! Os raios da tempestade, embora efeitos naturais, tem suas propriedades dominadas pelos simples mortais que somos. Através desse domínio moldamos o mundo à nossa volta criando tecnologia, nos igualando em termos de poder à toda poderosa natureza.
O desvio gerado por essa pequena divagação nada mais é do que a trilha de tijolos dourados para trazer à tona os segredos de Rainhas dos Raios. A referida artificialidade do álbum se deve à presença marcante da tecnologia em sua produção. Ouvindo Rainha dos Raios faço associações com elementos futuristas o tempo todo: ciborgues, naves espaciais, viagens no tempo, androginia, androides, exterminadores do futuro, robôs, skynet e por ai vai. Acho que a imagem do ciborgue acaba sendo a mais apropriada para representar a sensação de ouvir o último álbum da Alice Caymmi. Isso porque o ciborgue, assim como Rainha dos Raios, é composto de elementos humanos e tecnológicos (artificiais). Este sem dúvida o elemento vital do álbum, que lhe garante o diferencial de tudo que vem sendo produzido por ai. Diogo Strausz com seu toque high-tec consegue a combinação perfeita entre natural e artificial.
A originalidade alcançada por Alice nesse álbum apaga por completo todo o peso genealógico de sua família, que poderia atrapalhar sua carreira. Muitos parentes de nomes consagrados da música brasileira tiveram suas carreiras musicais naufragadas por não conseguirem dissociar sua música da feita por seus ancestrais. Foi por acaso que me deparei com a Alice Caymmi. Até um mês atrás não fazia ideia da existência de uma nova linhagem musical da família Caymmi. Inevitavelmente fui ouvir o álbum esperando encontrar algo muito próximo ao feito pelo pai (Alice é filha de Danilo Caymmi), pelos tios e claro pelo avô. Nada disso, Alice anda com as próprias pernas sem usar o sobrenome mais famoso da música brasileira como muleta para sua carreira. A primeira impressão causada pelo nome da cantora se apaga quando o dedo alcança o play.
Apenas as músicas Meu Recado e Antes de Tudo são composições de Alice, a primeira em parceira com o já consagrado hit-maker Michael Sullivan. Todas as outras são regravações de músicas dos mais diversos compositores entre os quais estão Caetano Veloso, Gilberto Gil, Bruno Di Lulo e MC Marcinho. Alice acertou na mosca ao escolher as canções para compor Rainha dos Raios. Digo isso pelo fato de não haver nenhum hit de massa desses compositores. Talvez só Princesa do MC Marcinho seja.
O ponto é que por não haver musicas saturadas pelo gosto massificado da industria cultural, já consideradas “obras primas”, o álbum não se contamina com aquele ranço bilioso de regravações dessas pérolas eternamente marcadas nos repertórios de músicos de barzinho Brasil afora. Esse constitui um dos elementos que compõem a fórmula de Rainha dos Raios. O principal abordamos anteriormente, trata-se do uso muito bem feito dos efeitos tecnológicos em todas as músicas. Ouvintes pouco familiarizados à música brasileira ouvirão Rainha dos Raios e certamente pensarão se tratar de um álbum de músicas inéditas.
Rainha dos Raios traz outra novidade, a figura da intérprete sob uma nova perspectiva, mais preocupada com a forma, comprometida com os arranjos e sua combinação com o modo de cantar as músicas. O timbre vocal de Alice Caymmi é muito particular! Há uma ressonância forte gerada pela gravidade da voz que preenche todos os espaços que alcança. Impossível ouvi-la e não reconhecê-la depois, seja lá o que estiver cantando. Sinceramente eu não aguentava mais ouvir vozes padronizadas vazando por aí às torrentes, pasteurizando tudo.
Já bebi algumas doses de uma cachacinha muito especial para comemorar a voz, o som e a criatividade de Alice Caymmi. Saúde!!
Ano de Lançamento: 2014
Gravadora: Jóia Moderna
Produção: Diogo Strausz
Carlim
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Refer, je1 corrigi, e elpcixo: minha intene7e3o era colocar na interpretae7e3o do MPB-4, e escrevi o texto primeiro. Mas acabei ne3o achando nenhum veddeo com a mfasica completa. No veddeo com a faixa do LP de Gabriela, que tenho aqui, a mfasica se interrompe grosseiramente. No fim, optei pela verse3o do Dori em show, e ne3o atinei de corrigir o texto. Obrigade3o e sorry!