Saxofonista norte americano do mais alto escalão, Gary Bartz – que possui gravações históricas em selos essenciais, como Atlantic, Blue Note e Milestone – mostra como seu groove segue se modernizando.
O groove contemporâneo da Jazz Is Dead
Um dos músicos presentes no estelar elenco da Jazz Is Dead, Gary Bartz foi responsável por cunhar o sexto lançamento da série, mesclando composições próprias com colaborações ao lado de Adrian Younge e Ali Shaheed.
Entrevistamos o Marcos Valle – com foco em dissecar seu disco liberado como parte da série, que foi o terceiro volume lançado pela JID – e essa questão da dinâmica musical que abordamos na entrevista é bastante interessante e faz total diferença no processo final.
Segundo o próprio Marco: “Eles tem uma ideia de sonoridade e de concepção que é muito deles e que é o seguinte: você passa 4 dias ali no estúdio com eles e faz tudo. Lógico que a gente já chegou com algumas ideias de melodia e etc. Ali é tudo em parceria o que a gente fez. Coisas que eu comecei, eles terminaram e coisas que eles começaram eu terminei. Eu fiz todas as letras também e precisava terminar dentro do estúdio. Os arranjos também foram todos feitos ali dentro. E o carioca ainda finaliza: “eles querem pegar os primeiros takes. Não só da instrumentação, mas da voz também. Eu fiquei pensando: que coisa louca, mal comecei a cantar, mas é justamente isso que eles querem: aquelas primeiras impressões e emoções do artista. Foi aí que eu entendi. Existe uma sonoridade que é meio Jazzística, mas não é só isso e eles conseguem captar essa essência.”
Dessa forma, tanto o artista, quanto o núcleo criativo formado pela dupla Younge-Shaheed, pode complementar as experimentações feitas no estúdio, o Linear Labs.
Esse tom cordial de colaboração é que dá o tom não só para o sucesso da Jazz Is Dead, mas também para a áustera identidade sonora que eles conseguiram criar em tão pouco tempo. O disco do Gary Bartz é um grande símbolo dessa empreitada, pois mostra o compromisso do selo no sentido de não só resgatar legados musicais importantes, mas também demonstra preocupação fidedigna para cunhar registros autorais que superem a barreira do revisionismo.
É exatamente isso que acontece no disco que Gary gravou. Nesse projeto, fica claro como o som do saxofonista não só continua atual, como também – muito em função da mão de produção de Ali e Adrian – o resultado sônico mostra que Bartz não está devendo nada para a leva de lançamentos recentes da música negra norte americana, o que ressalta a importância do encontro entre ambas as partes para a concretização desse interessante lançamento.
Track List:
“Spiritual Ideation”
“Visions of Love”
“Black and Brown”
“Blue Jungles”
“Day By Day”
“Distant Mode”
“The Message”
“Soulsea”
Gary Bartz, Ali Shaheed e Adrian Younge
Lançado em março de 2022, esse disco mostra de maneira categórica como Adrian e Ali estão conseguindo subverter a história. Não é só uma oportunidade de gravar num estúdio meticulosamente planejado e analógico, mas sim desafiar o lendário elenco de artistas reúnidos, além do próprio trabalho da dupla, para conseguir criar retratos verdadeiros onde Adrian e Ali, funcionam como o cordão umbilical para decodificar como um dos maiores saxofonistas da história do groove (e que tocou ao lado de nomes como Miles Davis e Keith Jarrett, por exemplo), soaria se gravasse um disco de estúdio em 2022.
Eles conseguiram novamente e quem conhece a profundidade da carreira de Gary Bartz deve estar aplaudindo o resultado. Gary possui um vocabulário musical muito amplo, que dialoga com a música dançante (Funk e R&B), mas que também possui conexão com a música modal, Spiritual Jazz e etc. Nesse disco ele apresenta todas essas referências e com um belo punhado de temas autorais, trouxe uma música que viajou desde 1940 até 2022.
Foi esse espaço tempo de mais de 80 anos que Adrian e Ali conseguiram contornar, eternizando um acetato de curta duração, mas com uma roupagem musical que é uma verdadeira aula para projetos que buscam revitalizar a carreira de grandes lendas do groove para um público totalmente novo e que faz parte de outra geração.
Disco preciso e cirúrgico, formado por 8 temas e pouco menos de 30 minutos de duração, o sexto registro da série revela um repertório quase 100% instrumental, onde Gary se mostra imerso em novos timbres, possibilidades musicais e um contexto de temas bastante objetivo, mas que não são tolidos pela falta de oportunidade de improvisação.
Apesar de compactos, faixas como a abertura, “Spiritual Ideation”, mostram o bem que essa parceria fez para o som de seu saxofone. Orbitando o sax de Gary, as teclas, grooves de bateria ao melhor estilo dos samples da Tribe Called Quest e um trabalho de base que apenas engrandece o faro melódico e harmônico do líder da gravação.
Esse detalhe é também bastante importante, a maneira como Ali e Adrian trabalham sem sem esquecer – nem por um minuto – que os discos não são deles. É possível observar isso em “Visions Of Love”, por exemplo, onde o Rhodes, baixo e bateria apenas iluminam o caminho do soprano.
Temas como “Black and Brown”, por exemplo, mostram o poder de síntese do compositor. Um groove digno de ser tocado por horas pela sessão ritmica, a faixa termina com menos de 3 minutos de duração e o que impressiona é como Gary continua entregando tudo.
A cada faixa, é impossível não pensar na sessão de gravação desse disco, pois o plano de fundo musical está bastante coeso. Gary com certeza deve ter gostado de levar sua música para novos territórios, como é possível notar nas baladas “Blue Jungles” e “Day By Day”.
A segunda, particularmente, surge com belos adornos, cortesia dos angelicais vocais que emolduram a faixa e ressaltam a única passagem cantada do play. “Distant Mode” surge com uma bateria eletrônica de fundo que mostra bem o quanto Gary experimentou no Linear Labs. É impressionante como ele desconcerta os tempos quebradas da base – junto com a guitarra que deixa rastros como um cometa – e entrega uma melodia que acompanha os picos e vales da canção sem ter que aumentar a pressão no gogó. O nome disso é feeling.
Com uma mão cheia para preencher acompanhamentos hipnóticos, Adrian e Ali conseguiram experimentar muitas coisas nessa sessão e Gary claramente encontrou um novo lugar musical para explorar. As composições são pungentes, o trabalho de mix e master traduz essa verve num corpo de 82 anos com uma vitalidade que apenas a música dos grandes mestres conquista conforme a passagem do tempo.
Ouvindo temas como “The Message” e “Soulsea” é impossível não pensar na importância desse trabalho, onde tanto os artistas convidados quanto os produtores, cumprem uma missão dificílima a cada disco lançado: captar a essência da música de cada artista.
“The Message” e “Soulsea”, o tema que fecha o disco, revelam esse traço de forma nítida. O interessante no entanto, é que as últimas gravações de Gary – com o trompetista Theo Croker e o grupo de Spiritual Jazz britânico Maisha, não chegam nem perto da verdadeira novidade estética que é a sonoridade que foi alcançada nesse disco.
Não significa que os discos não sejam interessantes, esse detalhe apenas mostra a força dessa colaboração e revela como o trabalho do Gary continua bastante relevante e ainda influencia os caminhos das notas em tempos modernos.
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