Pedro Kief lança o EP Mergulho em Pedras (2019), com diversas participações e produzindo um sobrevoo em revoada no rap underground nacional!!
Há uma busca, há um processo de desenvolvimento na música do Pedro Kief, que é igual em todas as manifestações do underground nacional. Aqui localizado no rap, mas em nosso país fazer música underground é um ato inglório, sempre restringido – não restrito – a um pequeno nicho. Há um espírito próprio da juventude em Pedro, essa busca que todos nós tivemos de que querer ser algo. Aquela moleza espiritual/corporal que a idade adulta enrijece ao nível do rigor mortis. Quando se entende o envelhecer como adaptação da vida às normas, às regras e decoros sociais, a lei e a ordem, às palavras de ordem.
Em seu novo EP, Pedro Kief faz uma observação que é também um diagnóstico do exercício de resistência necessário a não adequação à mediocridade: Mergulho em Pedras(2019) é muito sobre isso. O primeiro extended play do rapper paulista que é de Vinhedo, um dos fundadores da Batalha do CC, chega com o ímpeto jovem e uma sabedoria bem velha, ou se se quiser uma busca atemporal, aqui o rap é o escafandro para mergulhos profundos, onde o hip hop “encanta a sabedoria”…
As linhas de Pedro Kief, de seus e sua comparsa são sempre o mais bonito crime e a mais delicada violência que somente a arte pode produzir. Em se tratando de vida cotidiana maquinal, ninguém quer sequer contemplar o abismo da existência, colocar-se questões fundamentais. Na maior parte dos casos, nosso povo não tem tempo para tais questionamentos, a luta pela sobrevivência tolhe sempre o tempo necessário para que tais questões possam se desenvolver. Em outras muitas vezes – hoje – não resistindo às imposições cruelmente hipócritas da nossa sociedade, alguns sucumbem a tentação de querer o nada a nada querer e se jogam rumo ao nada.
Em sua estréia Pedro Kief se junta a nomes mais ou menos conhecidos no rap nacional, como os cariocas d4crvz e Anti-Herói, o paulista Sergio Estranho (Rancho Mont Gomer), Herick Olx de Manaus, assim como os baiano Matheus Coringa e Kolx, e mais a mineira Nabru, Dc Calmob, Vector e Matheus Dvs. Uma quantidade grande de participações para apenas 7 faixas é verdade, porémo efeito conseguido coletivamente aqui é amplo e precisamos entender bem.
O Mergulho em Pedras (2019) que o Pedro nos propõem aqui é complexo e imenso, carregado de múltiplas possibilidades de entendemento, nos toca o se lançar ao desconhecido, que é o enfrentar o caos e consequentemente organizá-lo em beats e linhas, musicais e poéticas, que sejam capazes de nos dar asas, ou de nos deixar mais pesados que o ar, mas que certamente não nos deixa chegar ao fim do mergulho. É uma vida que se movimento constantemente rumo a morte, o fim do mergulho consciente na existência, ou se se quiser a queda de Alice no buraco do coelho, que não parece ter fim.
O título aqui nos parece serve a esse propósito, avisar aos ouvintes o destino que a poesia pode dar a uma vida: torná-la imortal, quando transformada em obra. Deixa-la leve, transformar o ser, uma espécie de ressureição em vida, um tornar-se outro!
Esse se tornar outro está presente aqui como efeito desse agenciamento coletivo de enunciação que o Pedro Kief operou ao convidar tantxs mcs para o seu trabalho de estréia. Não que sua singularidade não esteja aqui afirmada de modo veemente. Mas o fato é que é possível perceber devires animais ao longo da obra, em linhas das poesias diversas, um transformar-se que nao é o mesmo que indentificar-se. Oras uma minhoca a tempo de se tornar comida, em outros momento uma lesma enfrentando desafios impossíveis. Em outro momento observamos uma gata perambulando pela rua, se mantendo elegante e independente em meio a sujeira da rua. Na maior parte do tempo um pássaro sobrevoando por sobre o abismo sem relógio no pulso, uma coruja talvez, dado o aspecto filosófico presente no trabalho.
Existe também um elogio muito bonito do erro, sua valorização como passo necessário para o aprendizagem, há as criticas políticas e existenciais, existe também aqui uma ética de tentar o entendimento e o enfrentamento diante de tantos problemas que nos assaltam desde sempre e hoje mais do nunca. O se arrenbentar nas pedras é também uma possibildade para aqueles que arriscam. e esse aqui, é um caminho arriscado, tomado por um jovem talento.
Os beats que compoe o trabalho e que dão a tônica do tamanho do risco que todos estão correndo são produções de Sopa Preta, Leo Franciozi, DRO, Churi, Sono TWS, Sub e do próprio Pkief. Sempre dentro da estética do boombap, utilizando-se de samples muito bacanas, constroém o espaço musical onde a queda vai se dá através da malemolência dos flows e linhas.
Bote um café, acenda um cigarro e deguste esse som, vale a pena o risco, vale a pena a queda!
Danilo
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