Luedji Luna e DJ Nyack mostram grande entrosamento no excelente EP “Mundo” que reúne esses dois grandes talentos de nossa música.
A música é um eterno exercício. Dentro de todos os seus meandros, cada pequeno detalhe faz a diferença. Com o tempo, a experiência surge pra canalizar e balizar muita coisa que se relaciona com as notas, mas existe um longo caminho antes de perpetuar a arte nas veias do espaço tempo. Um dos detalhes que alimentam essa mística é a questão da perspectiva. É interessante observar como um referencial altera a dinâmica da produção musical, pois cada instrumentista possui um papel a desempenhar.
No entanto, o que chama a atenção é como, apesar dos papeis bem definidos, a percepção dos músicos muda. Cada caso é um caso e cada projeto possui sua sonoridade, mas conforme o passar das sessões de gravação, todo mundo parece compreender melhor a função de cada um dos profissionais que estão envolvidos no processo.
Apesar das diferentes perspectivas, as frequências vão se alinhando e no fim todos parecem focados no mesmo objetivo. É raro sentir esse alinhamento criativo, mas acontece. Quer um exemplo? Escute o EP “Mundo”, colaboração entre a cantora (baiana) Luedji Luna e os beats paulistas do DJ Nyack. Após o play, é notável como, apesar das diferentes perspectivas, ambos souberam como despertaram o melhor do trabalho de cada um deles.
DJ Nyack. A galera da quebrada o conhece como Fernando Carmo da Silva. O grande público conhece seu groove, principalmente por seu trabalho segurando os beats ao lado do Emicida, desde 2007. Quem é mais ligado na cena, sabe que ele também está sempre soltando as gemas de R&B/Funk/Soul nas dependências da Discopédia, ao lado do DJ Dan Dan e DJ Marco, isso quando ele não está colaborando ao lado de artistas do quilate do Curumin e do Max de Castro, por exemplo.
Quando não está fazendo nenhuma coisa nem outra, pode ter certeza que o Fernando está pesquisando pra não deixar o set do Nyack falhar na combustão do Funk. Da Bossa até o Samba, da Erykah Badu até o The Internet, o meliante dos loops mostra que o scrach é só um detalhe. Dono de um ouvido afiado, bom gosto e grande sensibilidade, Nyack faz um trabalho minucioso e esse EP ao com certeza ajudou a escancarar isso para o grande público, mas vocês já pararam pra entender a bucha que ele segurou?
A semente desse projeto foi plantada há pouco mais de 1 ano atrás, quando a Luedji participou do Air Max Day, um projeto de encontros musicais feito em parceria entre a Nike e o Red Bull Station. No rolê, Sérgio Machado, Illa J, Luedji Luna e Nyack destilaram o groove e depois do play o DJ já soltou a base de “Sunflower” – um dos temas originais de Illa J. – e encaixou “Banho de Folhas” no meio, logo na sequência. O resultado? A galera bateu o pesinho e hoje, pouco mais de 1 ano depois, o que começou numa brincadeira com apenas uma faixa, ganhou corpo e se transformou num dos melhores – e mais improváveis – lançamentos nacionais de 2019.
Mas por que improvável? Vamos voltar um pouco. Em 2017 a Luedji Luna lançou não só um dos melhores discos da música brasileira naquele ano – “Corpo no Mundo” – como também entregou um dos trabalhos mais interessantes que saíram do Brasil nos últimos anos. Disco de instrumentação riquíssima, vale lembrar que o som que sai dos falantes é tão miscigenado quanto a banda que o cunhou.
Formada pelo queniano Kato Change (guitarra), o paulista e descendente de congoleses François Muleka (violão), o cubano, Aniel Somellian no baixo (elétrico e acústico), o conterrâneo de Luedji Luna, Rudson Daniel de Salvador (percussão), o sueco – radicado na Bahia – Sebastian Notini, também na percussão, a música da cantora é de fato um espelho cristalino que reflete seus próprios ideias, não só como artista e ser criativo, mas sim como ser humano.
Agora imagina pegar um disco tão rico culturalmente e instrumentalmente e subverter toda essa linguagem em takes que estão longe de soarem datados, muito pelo contrário. Esse disco cria uma nova identidade e mostra como a compositora é de fato sua própria embarcação e sua própria arte, como ela mesmo diz na faixa que nomeia seu disco de estreia.
Também por isso que o trabalho do Nyack precisa ser exaltado, pois apesar do excelente resultado do EP, fica claro como ele poderia ter entrado numa fria. Vale lembrar que o som da Luedji Luna é muito orgânico, tal qual o néctar dos vinis do Nyack, mas em esferas completamente diferentes. No som da Luedji Luna é uma nota que reverbera até se perder no vácuo. Na mixtape do Nyack é uma base que se encaixa numa linha de baixo e faz a plateia ir ao delírio numa terça-feira de Discopédia lotada.
Nascida na Bahia, mas radicada em São Paulo desde 2015, Luedji interliga elementos intrínsecos à cultura negra em sua música. É o que o rapper (mineiro) Djonga – que também participa do EP – prega quando diz: “Pretos no topo”. É um levante e mais um exercício de resistência, algo que Luedji Luna e a também baiana Xênia França fazem como ninguém, principalmente quando levamos em conta o cenário mainstream nacional. Essa união de extremos também alimentou a excelência desse EP. A coragem do Nyack em aceitar o desafio e tirar não só os sons, mas própria Luedji Luna de sua zona de conforto, é digna de nota. Ele poderia ter errado no tom e surgido com bases sintéticas.
Esse era o maior risco, mas Luedji soube trazer o DJ para perto de si e arquitetar um trabalho que cumpre a difícil tarefa de recriar as ambiências do seu debutante de estúdio. Mas não foi só isso, a dupla não só conseguiu chegar num resultado que mantivesse as raízes do som da Luedji Luna, como também mostrou um lado novo do seu som, apontando principalmente para o mercado internacional, ao lado de nomes como a cantora britânica Yazmin Lacey e do tecladista/produtor (também britânico) Alfa Mist.
O EP ainda conta com participações do Sérgio Machado (Plim), Rincon Sapiência, Tássia Reis, Stefanie, Zudizilla e o já citado Djonga e é notável como as bases encurtam até mesmo distâncias estéticas. Quando a primeira faixa do EP ganha o play, “Acalanto” surge serena e com áurea revitalizada. Dá indícios de Vaporwave e se mistura maravilhosamente bem com a instrumentação tocada, principalmente nos timbres Cool Jazz do baixo e da guitarra de Vinicius Sampaio. E eu nem vou nem falar nada dos timbres ácidos do Samuel “Samjazzy” Silva no Rhodes e no sinth.
“Dentro Ali” surge com detalhes diferentes. É notável como o tilintar dos beats envolve o ouvinte. As notas profundas do baixo de Aniel Somellian, reverberando como suspiros ao redor da voz da Luedji Luna… É perceptível o grande cuidado na escolha dos timbres, e depois que aparecem os metais, Hugo Sanbone (trombone/trompete) e Eric Almeida (saxofone) abrem alas pra Tássia complementar o Lo-Fi Hip-Hop numa dobradinha ao lado do Rincon Sapiência. Mó brisa.
A forma como os instrumentos vão e voltam para o primeiro plano… Nyack teve o toque de Midas pilotando as tracks. É nítido como esse registro sustenta as grandes capacidades melódicas das faixas originais. A percussão de Sebastian Notini e Rudson Daniel em “Cabô” – com participação de Stefanie – recria a gênesis de religiões afro brasileiras, enquanto o atabaque se confunde nos ecos e envolve o ouvinte no mantra da pele preta.
Em “Saudação Malungo”, a batida tem clara conexão com a participação do baterista do Metá Metá, Sergio Machado. A grande surpresa, no entanto, é como a voz agressiva do Djonga se encaixou num contexto bastante diferente do habitual, mas é com “Banho de Folhas” que essa rapaziada toda se consagra.
Se liga no acabamento. A guitarra do Melvin Santhana incitando o groove. Depois do drop o rolê se transforma num misto de Disco com Lounge que é o mais puro veneno. É pra tocar na rádio, cantar no banho e dançar no show. Tem hora que a faixa relembra até o Trap americano, bem ali, na participação do Zudizilla, mas é impressionante a vibração que a faixa transmite.
A paixão permaneceu. As raízes negras continuam protestando. A instrumentação sinuosa que foi peça chave no primeiro disco, também colou pra somar no groove. As bases, longe de tentarem alterar a essência do som, complementam a voz de rara beleza de Luedji Luna, atingindo um resultado quase poético e que não teria esse nível de excelência caso não contasse com o DJ e a intérprete nesse grande exercício de perspectiva em prol da ancestralidade da música contemporânea.
– Luedji Luna e DJ Nyack: diferentes perspectivas, mesmo objetivo
Por Guilherme Espir do Macrocefalia Musical
Line Up:
Luedji Luna (vocal), DJ Nyack (produção), Aniel Somellian (baixo), Canela (Sinth pad), Sérgio Machado (produção), Hugo Sanbone, (trompete/trombone), Eric Almeida (saxofone), Tico Pro (programação de bateria), Samuel Bueno (baixo), Sebastian Notini (percussão), Rudson Daniel (percussão), Toca Mamberti (guitarra), Vinicius Sampaio (guitarra/baixo), Samuel “Samjazzy” Silva (rhodes/moog), Melvin Santhana (guitarra).
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