Yzalú, R.B.F (Rapaziada da Baixa Fria) e Negro Davi, proporcionaram aos presentes uma festa muito bonita, cheia de ritmo e mensagens fortes!!
No último sábado 30 de julho, a rapper nascida na cidade de São Paulo, Yzalú, fez o show de lançamento do seu primeiro disco “Minha Bossa É Treta” em Salvador, numa noite de pura resistência. Unindo as diferenças entre classe, cor e gênero, Yzalú fez da Praça Pedro Arcanjo no Pelourinho um espaço aberto, com uma verdadeira demonstração de como é possível unir forças em prol de luta e boa música.
O disco “Minha Bossa É Treta” foi lançado virtualmente no dia 8 de março deste ano, como um grito contra toda forma de opressão sofrida pela mulher negra e periférica, um disco “para suportar o machismo, os tiros, o eurocentrismo”. Misturando o rap com alguns ritmos populares brasileiros, como a bossa nova, o disco é uma das grandes porradas no cenário musical do país em 2016.
O show com ingressos a preços populares começou por volta das 21h com a banda RBF (Rapaziada da Baixa Fria), grupo que movimenta o cenário baiano há um bom tempo. Com uma nova formação, seguem fazendo música de resgate às matrizes africanas, denunciando as mazelas herdadas a partir da escravidão. A banda – negra até o osso – sacudiu o público com suas faixas, inclusive com as clássicas “Respeito É Bom” e “Cabelo da Desgraça”.
O próximo artista a subir no palco da Pedro Arcanjo foi Negro Davi acompanhado de uma deliciosa banda, mesclando rap com samba, colocando a galera pra suar de tanto dançar, inclusive a namorada e a sogra do cantor, que foram chamadas para sambarem em cima do palco. Poetativista negro de Salvador, criado no bairro de Pernambués, Negro Davi trouxe mais uma amostra do quanto o rap em nossa cidade é diverso, mostrando a abrangência da cultura de rua em questão no nosso município.
Após as duas apresentações, era chegado o momento esperado. Enquanto na entrada do evento estavam sendo vendidas roupas e CDs da cantora, Yzalú sobe no palco, tomada pela euforia, antes mesmo de sua banda ou da chamada oficial. Com um vestido amarelo, tranças características e uma perna mecânica, a cantora mais parecia uma rainha, causando alvoroço na plateia que, neste momento, já havia enchido o espaço. A primeira música foi “Mulheres Negras”, do rapper Eduardo, tocada só na voz e violão de Yzalú, fazendo todos na Praça cerrarem os punhos para o alto e entoar os versos:
“Fique de pé pelos que no mar foram jogados
Pelos corpos que nos pelourinhos foram descarnados
Não deixe que te façam pensar que o nosso papel na pátria
É atrair gringo turista interpretando mulata
Podem pagar menos pelos os mesmos serviços
Atacar nossas religiões, acusar de feitiços
Menosprezar a nossa contribuição para cultura brasileira
Mas não podem arrancar o orgulho de nossa pele preta”
Mostrando que o sistema pode até transformar uma mulher negra em empregada, mas não pode fazê-la raciocinar como criada, a cantora seguiu o show, agora, cantando as músicas de seu disco, com uma banda extremamente afinada e uma performance cheia de charme. Entre as canções cantadas, se destacaram “Minha Bossa É Treta”, “É o Rap, Tio”, “Camin”, “Rua 4” e “Lamentos De Um Poeta”.
No meio do show, Yzalu fez uma parada para ceder o palco à banda baiana super talentosa formada só por garotas, Verona.s, que faz uma MPB com toques de rock e samba, a qual também levantou o público ao cantar algumas músicas, inclusive “Cabaré”, pedida por fãs presentes.
Ao voltar ao palco, a atração principal da noite ainda recitou a música “Alma Negra”, primeira faixa do seu disco.
“Alma negra, pura e verdadeira
Luta guerrilheira, classe tão sofrida, discriminação
Desumana, verbal crise, sem convite, me convide
Não hesite! Não hesite!
Fui eu que cresci e ouvi que o preto não tem vez
Que o preto não tem vez, que o preto não tem vez”
Um dos momentos emocionantes do show foi quando seu pai, baiano e dono de um salão de beleza aqui na capital, subiu no palco e chorou ao falar sobre a filha e sua contribuição para a música. Outro momento marcante foi ver-ouvir Yzalú cantando a música “Figura Difícil”, escrita por Sabotage, encontrada em seu caderno após sua morte. A canção foi concedida pela família do rapper à cantora para que ela musicasse. Yzalú apontou para o céu e disparou, “onde você estiver, Sabotage! Onde você estiver”
“Preserve o rap, ok, se quiser vê-lo bem feito
Curtir, lazer, tá legal vamo aê sozin
Na mó função, só o rap pra entendê o ladrão
Tô sempre na missão, canto rap, né não
E quem quiser ter fé, Brooklin sul Canão
Na zona sul, só tem figura difícil
Quem não tiver ideias ficará no prejuízo
E no difícil, eu insisto, não mando recado
Humildade em alto nível pra não ser enquadrado”
A cantora ainda cantou uma famosa compilação sua com as músicas “Rap É Compromisso!” de Sabotage e “Negro Drama” dos Racionais Mc’s. Ao encerrar o show, a Praça precisava ser entregue, mas o público disparou gritos pedindo “bis”, direcionados a cantora e posteriormente a um dos técnicos responsáveis pelo evento. Devido a insistência dos ouvintes presentes, um tempo adicional foi concedido e Yzalu pode voltar ao palco e tocar “É o Rap, Tio”.
“Mãe preta não tem comida irmão
Leva o teu silêncio então, é em vão
Meu violão discursa neguin
Disparando métrica sim
Foi no rap que aprendi
Ah, se um dia nóiz, quizesse nóiz, armado nóiz
É o Rap, Tio, que me tirou do Mundo Frio
Sem vacilar, vou fazendo o meu na lutá
Escutando um som e se pá, me ligando onde pisá
Eu sou de Ketu também, e não há o que me derrubá”
Rap é verdade e é de verdade, e mulher no rap é preciosidade! Quebrando barreiras, mulher negra, periférica e deficiente, Yzalú mostra como se resiste a padrões impostos pela sociedade, como se luta contra todas as desigualdades impostas e ensina como se faz boa música. Volte sempre, rainha!
Se você ainda não escutou o novo álbum da Yzalú, não perca mais tempo!
Por Mylena Bressy
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