Uma estreia em disco depois de 15 anos de caminhada, Xico Doidx lançou o disco SobreViver, contando com a produção do OnçaBeat

Foto por Caique de Deus
Ouvir Xico Doidx e o seu álbum de estreia “SobreViver”, que conta com a produção do OnçaBeat é um exercício de capturar criticamente as ruas e o estado da arte de Belém e consequentemente do Rap Nortista e Amazônico. É tomar-lhes como ponto de passagem e fruição de um cenário onde os artistas vivem em um movimento dialético de compor e ser composto.
Nestes últimos dez anos, aqui no Oganpazan o meu trabalho de pesquisa sempre esteve atento ao norte, e ainda contamos com a nossa correspondente Karinny de Magalhães. Já em 2015 na estreia do Victor Xamã passamos a enteder que sim, tem muito artista foda no norte do país, porém a xenofobia e o desejo de babar astros, impede que sempre percebamos cenários ao invés de nomes pontuais.
Falo disso, sobretudo pela introdução do disco onde Xico Doidx propõem uma visão da vida onde Viver e Sobreviver não são tomados como polos opostos e antagônicos, mas como visões complementares. A faixa título que também serve de abertura rompe com a estupidez “Retiana” de que “só quem arrisca merece viver o extraordinário”, uma das pragas virais que o rap meritocrático, good vibes e ruim, planta na cabeça de um público irrefletido.
Público irrefletido? Seria melhor chamar pelo nome: uma manada que em 90% dos casos não gosta e nem conhece o rap. A vida real é feita de dores, obstáculos e lutas, mas dentro de um cenário onde a diversidade de expressões, a multiplicidade de perspectivas e vivências e as singularidades dos indivíduos deveria ser aceita como parte da riqueza intrínseca que foge ao regime do capital.
É através dessa lucidez – irônica? – que Xico Doidx vai construir a sua estreia, depois de 15 anos caminhando pela cultura Hip-Hop em Belém, que ele chama carinhosamente de BellHell. Oriundo das batalhas de rima, desde 2010, começou a lançar seus sons em 2017 quando integrou o coletivo “Real Rap Banca”, momento de muito aprendizado artístico das batalhas para o palco e onde permaneceu até 2020. Depois de um hiato de 3 anos, Xico começou a soltar seus sons solo em 2023, chegando agora em 2025 com seu primeiro disco.
A produção a cargo de OnçaBeat, DJ, pesquisador, produtor cultural e beatmaker, congrega no trabalho uma cara musical nortista, sem estereótipos mas bastante singular. Para quem de fato acompanha o boombap brasileiro, fica claro que estamos diante de outro approach, sem maneirismo a copiar e neste sentido vemos como a repetição é a base do rap. Longe das generalidades, OnçaBeat dá vida sonora própria ao SobreViver.
Há uma impossibilidade de conhecer sonoridades, líricas, ambientações, referências linguísticas e identificações poéticas que fujam do mais do mesmo por parte de público e critica, hoje no Brasil, que só reconhecem padrões pasteurizados pelas mídias e pela indústria que trabalha para esta. Um primeiro disco original, “SobreViver”, apresenta a visão de Belém aka BellHell por parte de Xico Doidx & OnçaBeat em um cenário rico e portador de vivências que não podem ser reproduzidas em NY ou em SP, muito menos na BA e ou em NO.
Dentro do escopo lírico presente no disco, Xico Doidx traz faixas que são planos de futuro, abordando suas contradições, filho sem pai criando uma filha, Poeta criticando a mentira, a música “Ligações para Deus” é realmente uma oração. Barulhenta fruto do silêncio, doente lucidamente, onde o MC trabalha a lírica através de contraposições antagônicas em si mesmas. Uma das melhores músicas rimadas em um beat bate cabeça do Onça aka Bernardo.
Em “Cidade Girassol” um ode a sua pequena, Xico Doidx relata as transformações da paternidade com muita qualidade nas imagens poéticas que produz, fruto de sua alegria com a vida da pequena Ari. Se equilibrando na linha tênue da paixão – entendida aqui como Tesão – e da necessidade de fazer o amor florescer, o interlúdio “Efeito Colateral” dá um brilho para quem não entendeu que a proposta aqui é falar da beleza, da dor, do feio e da alegria, com a mesma qualidade.
O OnçaBeat faz uns beats muito fodas, como em “Vevi”, onde a sujeira tem um certo aspecto e perspectiva doida, novamente se diferenciando do conjunto do que é produzido no BR. O Xico Doidx segue a sujeira e entregando uma emissão diferente, que me lembrou bastante um B-Real do norte, e nem sou chegado a essas comparações vazias. A citação ao Vandal nos mostra como para além da indústria os reais se reconhecem, dentro da independência intelectual de artistas que rompem com o consenso imbecilizante das mídias.
A faixa seguinte “09Ru1m” segue a pegada do beat anterior, égua, nos levando a visualizar um bate cabeça nervoso, onde Xico Doidx relembra o passado da cena, e o presente de uma Belém tão violenta como o velho testamento. A faixa é uma das melhores do disco, e traz a participação do Barco Norte que chega pesado nas rimas, cheio de referências à cultura local, sem exotismo, complementando a sujeira tipicamente nortista.
É curioso ver os jogos multi silábicos que o Barco Norte faz e perceber como quase a totalidade do cenário, não reflete sobre as diferenças de sentido, a riqueza semântica e mesmo a multiplicidade de vocabulário é parte intrínseca do rap no Brasil. As referências que o Xico Doidx traz ao RZO/SNJ em sua entrega na faixa “Na Sede É enchente(Oh Gente)” é uma aula de intertextualidade.
O seu próprio vulgo artístico já é uma aula, “Xico Doido” pode parecer para qualquer um fora de Belém uma adjetivação do sujeito, mas está muito longe disso. Ao configurar-se como Xico Doidx, o artista nos traz ao mesmo tempo pelo menos três concepções diferentes para entendermos o nome: Música Brega, Violência Policial e de Rua e Enfoque Artístico. Uma delas em separado deixa fugir a multiplicidade. O mesmo que o rap nacional – essa instituição inexistente – o faz constantemente, porque não é nacional.
Meu ouvido não é de audiófilo, talvez muitas pessoas vão achar problemas de mix e master aqui nesse disco. Por simplesmente não seguir um padrão, as pernas que seguem são próprias do território de onde se fortalecem. E na faixa, “Não Li Seus Livros” me parece que essa questão fica explícita como uma produção própria. Aquela ousadia intencional onde a produção e a sonoridade encontram um ponto de confluência neste caso, no calor úmido de sua região. Que recebe as punchlines do Xico com uma qualidade de produção lírica também singular.
Indo aos anos 90 – e esse momento é interessante – com “Bairro”, Xico Doidx & OnçaBeats traz a cantora Any Black não para fazer um refrão, mas para abrir a faixa e seguir ao longo do flow e das rimas, perfumando a faixa. E em um dos pontos de universalidade presentes nas narrações de vivências poetizadas, Xico Doidx versa de modo áspero sobre os mandamentos do bairro, das nossas favelas, comunidades, mocambos e quilombos.
A descrição da nossa “maroonnage” cotidiana, e obviamente das contra efetuações dos poderes colonialistas em nossas comunidades, é o tema da faixa. Genocidio que ocorre lá em Bellhell como aqui em Salvador e na Bahia, no Brasil sob a administração necropolítica do supremacismo brasileiro, que muitos chamam de direita e de esquerda.
A última faixa fecha e abre o disco, “Vida Corre 2” tanto encerra quanto eleva a questão sobre viver, existir e o sobreviver, dando movimento e o melhor, ofertando melodia, movimento poético e beat para continuarmos correndo, em direção a morte. Elemento do qual muitas vezes nos esquecemos, a morte é parte constitutiva da vida e nossa destinação existencial comum.
É uma alegria ouvir e resenhar “SobreViver” do Xico Doidx & OnçaBeat, não por que seja um disco que mudará a história do Rap nacional, ou ainda, a revolução do rap brasileiro. O disco aqui em questão é um trabalho a mais – dentro da cultura – que prova o quanto o Rap e a Cultura Hip-Hop pode ser autêntica, singular e diversa. De minha parte, foda-se os adoradores de celebridades e os restauradores e alimentadores do hype…
-Xico Doidx, diretamente de BellHell, lançou o seu disco de estreia: SobreViver.
Por Danilo Cruz
Danilo
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